Minha cabeça pesava, meu corpo havia voltado ao normal, a dor continuava. Minha mente estava novamente lotada de problemas e coisas que eu havia dito ou feito e me arrependido. A dor que eu sentia não passaria. Sentia saudade da cabeça leve, do corpo tão pesado que não parecia estar grudado na sua cabeça, dos pensamentos nada racionais, do riso, de esquecer quem você é e quais são seus problemas.
Mas aí me peguei novamente na mesma situação. Eu precisava de mais. Eu queria mais. Meu nariz ainda ardia da última dose. Eu aguentaria, mas eu não usaria. Sabe quando você sente estar ferrando tudo que você construiu com as próprias mãos? Como isso parece pra você?
Eu quis fugir dessa responsabilidade. Quis me sentir livre por alguns instantes. Foi baixo demais pra me fazer voar, fraco demais pra esquecer. Eu ainda queria continuar. Talvez eu não tenha visto o tempo passar com as coisas que construí, mas vejo cada uma delas sendo destruída bem na minha frente.
Viajar, fugir de tudo, estar fora de si. Sentir seu corpo e não saber onde ele vai te levar, estar ali e ao mesmo tempo não estar. Quase tão boa sensação quanto ouvir aquela música que te lembra determinada situação, quase tão prazeroso quanto estar com alguem que realmente importa ao seu lado.
Quando você já destruiu tudo isso, você tenta a terceira opção, você tenta a viagem, não importando a consequencia, tudo que você precisa é essa viagem. Mesmo que seu nariz coçe, mesmo que sua cabeça queime de dentro pra fora, essa dor é o que faz você sentir que está vivo. E que está fazendo efeito.
Você queima seus neurônios e não se importa com isso, pois é aquele momento que te faz esquecer que você ferrou tudo com alguem que você amava, é aquele momento que te faz esquecer o quanto você chorou, quanto você precisou de um ombro e se sentiu mal por não poder ajudar alguém com um problema maior que o seu por estar preso demais ao seu próprio mundo.
Mas é o mesmo momento que vai te fazer explodir a sua vida. Seus amigos vão desaparecendo aos poucos, todos aqueles que você ama. As pessoas começam a notar sua mudança, um dia você terá de se explicar. Você erra de uma forma e tenta mudar algo com isso. Você tenta fugir do seu erro com algum outro erro ainda maior. Assim vai, nesse círculo vicioso, de um em um e você está completamente ferrado.
Isso realmente importa?, eu pergunto. Não, isso não importa, pois ainda assim você viajou, você teve o efeito que queria, você riu, você falou besteiras, você se divertiu. Você sentiu algo que não conseguia sentir, você esqueceu seus problemas, você esqueceu que tem ferrado tudo.
E quando você encontra uma forma maior de esquecer o que você continua fazendo, você toma aquilo como seu refúgio. Você não sente mais falta de estar são, não sente falta de agir racionalmente, não sente falta da dor dos seus problemas.
Tudo que você quer, tudo que você precisa. Voltar àquele lugar, viajar mais uma vez. Quando tudo aquilo acabar, o mundo volta ao normal e você se sente mal mais uma vez. Mas você ainda assim gosta do efeito que isso causa. Você não se importa realmente que isso esteja estragando sua vida, pois o seu masoquismo é grande o suficiente pra aceitar isso.
Você pensa que tendo ferrado tanto com tanta gente importante, você merece um pouco de sofrimento. E ele se torna dobrado quando o efeito some. Você sente a dor da droga, você sente a dor dos seus problemas. Ainda assim parece valer a pena.
É quase o mesmo que sentir sua cabeça explodindo e colocar aquela musica que vai te fazer sentir bem internamente no volume máximo. Por mais que sua cabeça exploda, sua mente vai estar muito mais relaxada. Quando a musica acabar, sua cabeça vai doer em dobro, mas ainda assim você acha que valeu a pena.
E, naquele momento em que nada importa, você não pensa em todas as maneiras que você errou com alguem, você não pensa que precisou de horas pedindo desculpas e parece não ter adiantado nada. Você deixa pra pensar nisso quando o efeito acabar, quando você vai estar com o nariz todo ferrado, a cabeça completamente absorta em problemas e seu corpo cheio de dor da anestesia que a droga te deu.
Nesse momento você pode chorar. Não vai mudar nada, mas você tem motivos pra isso. Então você chora. Você sabe como é se sentir assim? Você sabe quão bom é esquecer que você é um lixo e sempre faz merda com todo mundo? Você tem a mínima idéia de como é sentir de novo que você ainda não saiu do mundo, que seus problemas ainda não acabaram?
Eu sei. Eu sei como é sentir isso. Eu conheço a melhor solução, mas ela me faria bem. Auto-destruição. Você se sente podre demais pra merecer algo bom. Você quer que sua cabeça fique da mesma maneira que você se sente. Que fisicamente seja tão ruim quanto psicologicamente. Você espera viver pra continuar sentindo essa dor, você espera que os seus erros constantes não acabem te matando, você imagina que a dor vai te fazer sentir menos culpa.
E vai. Só por alguns instantes. Enquanto você estiver rindo, enquanto você estiver fugindo dos riscos de se estar usando algo, vai. Durante o efeito, curto, você vai ter um pouco tempo pra se sentir bem. Até voltar ao normal. Um péssimo normal. E aí você passa a se lamentar por quem é, mesmo que não queira, nem por um momento, ser diferente.
Continuar fugindo parece a solução. Por isso você vai fazer isso toda vez que sentir como se seu mundo estivesse caindo. E você vai continuar. Horrivel e delicioso ao mesmo tempo, não é? Você tem muitos motivos pra se sentir assim.
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