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28 de maio de 2011

Conto - O amor é cego, Capítulo 1

- Boa tarde, meu nome é Claudia e essa vai ser sua mesa. -disse a minha nova chefe- Aqui tem tudo que você vai precisar, qualquer coisa que estiver faltando, só me avisar.

- Ok, muito obrigada. E pode deixar que qualquer dúvida, perguntarei.

Sentei-me frente à minha nova mesa de trabalho, o lugar onde eu passaria boa parte do meu dia. Eu estava começando um novo emprego e, dessa vez, parecia um lugar que me faria aprender. Era um Instituto de Audiovisão. Eu iria trabalhar com deficientes visuais, o que seria um desafio pra mim, mas ao mesmo tempo, algo maravilhoso.

Logo vejo uma garota entrar e, quando perdi as palavras, soube que tinha muito a aprender. Aquela garota era cega e estava sozinha, o que pra mim era algo quase impossível de ver. Sem querer, ela já havia me ensinado uma lição de auto-suficiência e independência. Em menos de dois minutos.

Ela se aproximou do meu balcão e esperou alguma ação minha, já que ela não poderia saber se haveria alguém ali, afinal.

- Boa tarde, meu nome é Rafaela, sou nova aqui e de hoje em diante, eu serei quem você vai encontrar por aqui. Como posso te ajudar? -sorri, mas não adiantaria, a não ser que ela conseguisse sentir o sorriso na minha voz...

Quando a garota começou a falar, senti meus dedos pressionando contra os braços da minha cadeira. Uma voz suave, doce, meiga... tive de prestar dupla atenção nas coisas que ela dizia pra não me perder no som da sua voz.

- Oi, prazer, eu sou a Sarah, sou deficiente visual, mas acho que isso você já percebeu, haha -ela sorriu e eu me segurei- e eu venho aqui no mínimo quatro vezes por semana, então você me verá muito, já que eu não posso te ver, haha.

Ela fazia piadas. Ela não era o tipo "sou cega, sinta pena de mim". Não. Ela se aceitava e ria disso. Já gostava dela.

Ela me pediu o que precisava e eu entreguei tudo sem ser muito rápida, pra que desse tempo de conversarmos. Eu estava quase hipnotizada por aquela garota. A medida que ela conversava comigo, aquela voz ia se armazenando por toda minha mente e eu certamente lembraria mais tarde. Ela tinha o sorriso mais lindo que eu já havia visto e a presença dela me passava uma sensação de segurança, aceitação e irradiava uma felicidade inexplicável.

Fiquei com medo de falar demais sobre coisas fora do trabalho logo no primeiro dia, o que não seria legal. Então mantive uma certa restrição de assuntos e deixei que ela guiasse o que estávamos falando. Ela me ensinou algumas coisas que eu faria no meu trabalho, o que foi engraçado e bastante gostoso.

Não queria que ela fosse embora. Queria uma versão dela só pra mim. Eu queria passar mais tempo com aquela garota. Eu sabia que ela voltaria, mas a sensação de deixá-la ir naquela hora parecia uma perda terrível.

- Rafa, foi realmente um prazer te conhecer. Não lembro de alguma vez ter me sentido tão bem aqui. -ela sorriu- Mas eu realmente preciso ir. Volto amanhã, provavelmente.

- Ok, Sarah, o prazer foi todo meu. Está sendo meu melhor primeiro dia de trabalho -eu ri- por sua culpa. E estarei te esperando amanhã, então. Até mais.

- Até amanhã e, bem-vinda. -ela ainda sorria.

- Obrigada.

Aquela garota havia sido um grande impacto no meu primeiro dia de trabalho. Eu havia aprendido com ela e, talvez, visto nela algo muito grandioso que provavelmente poucos conseguiram ver. Ela era especial, e não no sentido de ser deficiente visual. Ela era uma garota e tanto. Uma garota que eu esperava ver de novo logo.

Ela mal havia saído e eu já me via ansiosa pra vê-la no dia seguinte. Realmente, aquela garota soube mexer comigo.

(continua)

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