Dado os últimos acontecimentos neste Brasil varonil, eu certamente não consigo calar a minha boca. E a palavra misoginia sequer existe nos dicionários que eu pesquisei (porque são velhos; não porque eu inventei o termo – ele existe!).
Pode não existir no dicionário, mas o fato é que acontece: estou sentada no meu trabalho e a sala é invadida por uma música tradicionalista (e viva os gaúchos machos, viris...) que grita: “churrasco com chimarrão, fandango, trago e MULHER, é isso que o velho gosta, é isso que o velho quer”. Reparem a composição da frase: fandango, trago e mulher.
Assim como o fandango (não é um salgadinho, é uma dança tradicionalista de alguma parte do Rio Grande do Sul...) e o trago (nome popular pra cachaça, birita, álcool...), MULHER (repare, no singular, mas que, equivocadamente, quer se referir a todo e qualquer ser do sexo feminino) é um passatempo. Sim, você vai ali, dança um pouco, bebe, come, e depois larga por aí. E depois vem me dizer que o Rio Grande do Sul é um estado super avançado. Avançado pra quem?
Misoginia é aversão ao feminino. E está incrustado não apenas nas músicas populares, mas também na educação, em algumas religiões, na literatura, nos meios de comunicação de massa, nos hábitos e costumes das pessoas, e lamentavelmente, até nos nossos parlamentares.
Esta semana, a figura carimbada conhecida como Jair Bolsonaro (não necessita de apresentações), além de representar o racismo, a homofobia e uma série de outros preconceitos em forma humana, ao ser confrontado pela senadora Marinor Brito (PSOL), respondeu de sua maneira habitual, alegando que ele era casado e que não estava interessado nela. Claro deputado, todas as mulheres estão interessadas no senhor.
Além de ser a criatura mais preconceituosa dos últimos tempos, quais outros defeitos o senhor teria? Ah, entrou para a lista dos misóginos.
Não, as mulheres não são objetos que podem ser usados como passatempos. Não, as mulheres não estão correndo desesperadamente atrás de homens (inclusive algumas nem gostam deles...). Não, as mulheres NÃO SÃO DISPONÍVEIS a bel prazer dos homens, e NÃO estão dando em cima deles o tempo todo, porque felizmente nenhum homem é irresistível, mesmo que alguns ainda pensem que sim... Que época vivemos!
São declarações infelizes como as citadas aqui que reforçam o machismo e tornam o mundo PIOR. Parece óbvio falar isso, mas o óbvio também precisa ser dito. Pois as falas de pessoas públicas se transformam em atos, e nesse caso, em atos de violência. E desrespeitar mulheres em cargos públicos nada tem de novo: é uma maneira antiga de desqualificar o trabalho delas, simplesmente por serem mulheres ocupando cargos no poder. Olha a misoginia aí de novo.
Isso vai ficar assim por quanto tempo?
Nandee, 13 de Maio de 2011.
Historiadora e Educadora Social.
te respondo... por pouco.
ResponderExcluiras geraçoes que estão vindo, nossos filhos... estão crescendo em um mundo que o preconceito (de qqr tipo) é algo muito feio.
Dentro de 20, 30, 40 anos as coisas estarão melhores, é só continuarmos educando nossas crianças de forma correta =)
Isso é o que eu e meus colegas de Cultura Brasileira I concluimos depois de uma longa discução sobre o assunto.