Ela apagou as luzes e olhou pra mim, disse que teríamos a eternidade inteira em uma noite.
Eu teria que ser forte, eu teria que aguentar, resistir à tentação. O que não significava que o faria. Pra mim, ter que fazer jamais significou tarefa feita. Sou criança teimosa, gosto do que não pode. Sempre me disseram que não podia, por isso que eu quis.
Aos pés da cama, uma luminária japonesa de formato cilíndrico reflete formatos curiosos nas paredes, é uma coisa um tanto quanto interessante. Do meu lado tem uma vela acesa, do lado dela, outra. Essa é toda iluminação que teremos pra essa noite.
Tenho que te contar, garota, eu nunca gostei muito da claridade. Teu corpo envolto na fumaça do incenso, diante da iluminação da vela ao teu lado, ah, me deixa imaginar... Essa música ao fundo me dá vontade de dançar, quer dançar comigo?
Só mais três noites antes de voltar pra casa; eternidades inteiras pra aproveitá-las. Te tirei pra dançar no meu sonho ontem também, será que hoje podemos prolongar essa dança? Ah, gata, o céu começa onde não existe mais terra... vamos pra lá comigo?
Poderia contar as essências que emanam daqui, se não estivesse ocupada demais me tornando uma delas. Não há mais corpo aqui, só espírito. Só me resta uma sensação, essa mesma que é a causa das minhas insônias.
Agora já não é mais possível sentir o estremecer dos corpos que deixamos lá embaixo, estamos alto demais pra descer, então me deixe continuar sonhando. Deixa que o fluxo nos leve mais pro alto, sinta a liberdade de ser apenas essência, apenas espírito.
Um deja vu de sonhos me provoca arrepios da primeira à última vértebra, não há nada que eu não possa ver daqui de cima. Vejo tua alma, vejo a minha também. Vejo nossa dança desenhando com cores vivas pelo vazio desse universo. E de outros também.
Estamos descendo devagar, atingindo a terra firme; e o final dessa dança, também. Com direito à gritos, assovios, aplausos e suspiros. Mas a viagem só chega ao fim se nós quisermos; sempre podemos continuar amanhã à noite... ou mais tarde.
Enquanto houver fôlego, tudo aqui é nosso. Sabemos tudo, somos tudo, podemos tudo. Do início ao fim, descobrimos que nada tem início... nem fim.
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