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25 de novembro de 2014

Never-ending Road

Tudo tem sido cada vez mais breve, vago, vazio.

Lembro daquele olhar de ternura que parecia que jamais morreria, lembro daquele gesto de carinho e apreço, daquela palavra suave, daquele abraço aconchegante. Lembro de quando o tempo não nos dava tempo de estragar todas as coisas que construímos, e de quando a vida sorria pra nós a cada amanhecer, e não havia nada que pudesse estragar o nosso dia. Lembro de coisas que já não mais existem, coisas que são apenas uma memória remota de mais um tempo bom que já se foi. 

Sinto o final deste caminho chegando até nós, sinto nossas mãos se soltando, a prata derretendo, nossos laços se rompendo. Sinto que não fazemos mais parte da mesma frequência e há tempos não estamos em sintonia. Parece que já passamos pela porta da saída, mas esquecemos que saímos, estamos ainda tentando nos manter lá dentro, sufocando, gritando e sabendo que não é possível permanecer em um lugar que já não está mais lá. 

Houve um tempo em que eu tinha total certeza do que me rodeava, em que eu sabia exatamente quem éramos, o que queríamos, o que estávamos fazendo, conhecia nossas razões e nossos porquês. Hoje não mais. As mudanças estão chegando e estão levando cada um para seu devido caminho, e agora já não há mais um motivo. Nesse meio tempo, pude crescer, evoluir e aprender muito. Talvez não haja nada mais para ser aprendido aqui. Talvez não haja nada mais que possamos fazer.

São coisas pequenas, simples e singelas que abalam nossas estruturas. Problemas desnecessários que insistimos em dar importância, e nada disso nos edifica, mas nos destrói. Somos insistentes do pouco e do muito, exagerados errantes buscando pedras para podermos tropeçar. Não parecemos interessados em consertar o que está quebrado, mas sim terminar de destruir e tentar não deixar muitos resquícios pra trás. Tentamos de todo jeito determinar nossas vontades inexistentes sob o que o destino já escreveu e nós apenas seguimos, mesmo que tentemos trilhar nosso próprio curso. 

Quero que saiba que eu não quis assim. Apenas sinto que há tempos procuramos motivos pra encerrar este ciclo e seguirmos nossos próprios caminhos, e talvez agora tenha havido o estopim. Vejo que não há mais motivo algum para insistirmos em uma guerra falida contra o que antes defendíamos com unhas e dentes. Nossas estruturas já foram brutalmente bombardeadas, e estamos nos mantendo de pé por apenas algumas colunas que ainda nos sustentam, mas já estão rangindo e avisando que sua queda está próxima. Com isso, toda nossa estrutura irá abaixo, e ficaremos em destroços. 

Acredito que mesmo que mais uma vez, superemos mais um problema que nós mesmos inventamos, nosso chão já está abalado demais para continuar de pé, e mais algumas bombas certamente o derrubarão num futuro próximo. Não construímos uma fortaleza, não somos do tipo invencível, nem temos um laço forte o suficiente para aguentar besteiras tão pequenas como esta. São pequenas coisas que nos fazem rangir, e nenhuma estrutura aguenta tanto assim. Hoje tirei do meu dedo a prata que nele estava desde o dia em que te fiz andar de um lado a outro para encontrá-las, e lembro disso com carinho, pois era um tempo em que ainda estávamos de pé. 

Te falei um dia que algumas coisas não eram o suficiente para nos manter, que precisaria de muito mais se quiséssemos continuar como estávamos. Agora vejo que talvez, nunca tenha sido nós. Talvez eu tenha me equivocado e o destino só nos uniu para aprendermos e agora já está cumprido o que era para ser. Também, talvez, o atraso e as impossibilidades para darmos o próximo passo tenham sido um sinal de que esse dia chegaria e seria muito pior se estivéssemos sob circunstâncias diferentes. Pensei que evoluiríamos, que aprenderíamos e permaneceríamos. Talvez esses não fossem os planos do destino pra nós.

Vejo agora que o ponto final é iminente e nada podemos fazer para evitá-lo. Podemos apenas adiá-lo, mas isso é o mesmo que fechar os olhos e fingir que está tudo bem enquanto não está. O que antes era bom, confortável, aconchegante, agora é incômodo, estressante, cansativo. Não precisamos de sinal mais claro do que este. Já não há mais nada bom em nós, e parece que estamos buscando nos distanciar pra que doa um pouco menos encarar esse fato. Mas um dia aprendi que a vida é assim, pessoas vão, pessoas vêm, e dificilmente se mantêm. Aprendi que ao construir uma vida, só amor não é o suficiente, e talvez o nosso não esteja conseguindo superar nossas diferenças há algum tempo. 

Um dia pensei que era eu pra você e você pra mim, porque você era alguém sensacional que deveria ter alguém que te tratasse da melhor forma possível, que cuidasse de você, te respeitasse e te amasse incondicionalmente. Acredito ter cumprido com o meu papel até então, mas hoje isso parece insignificante diante de todo o bolor que deixamos se criar em nós. Eu sei que não sou o melhor que você poderia ter, mas eu fiz o meu melhor e não sinto culpa alguma por nada. Mesmo que pra você seja um grande problema, pra mim isso é só mais um detalhe das nossas diferenças que você não aceita.

Acho que no fim, nunca fomos "meant to be", e talvez um dia você encontre alguém com os mesmos gostos que você, as mesmas vontades, os mesmos sonhos, e alguém que te queira bem e não seja como eu, que cuide de ti e te dê tudo o que eu não pude te dar. Espero que você seja feliz e que talvez um dia consiga me perdoar, entender meus motivos, falar comigo, e não esquecer desse tempo. 

Te amei, te amarei. Sempre.

12 de novembro de 2014

Gotas de orvalho no meu quintal

                    Todos os dias, quando ela acordava, ia até o quintal, dava bom dia a todas as suas plantinhas, deitava na grama ainda úmida do orvalho da madrugada, rolava com seus cachorros no chão, e, assim, agradecia por mais um dia que começara. Ela cuidava de seu jardim, regava suas flores, fazia a manutenção de sua pequena horta de temperos, dava comida aos seus animais e seguia seus afazeres. Ela era apaixonada pela vida, pela natureza, pelo verde e por tudo o que a Deusa era dentro dela. Seu maior desejo sempre fora estar em paz e trazer paz a quem a quisesse. Mas ninguém queria, ninguém além dela.

                  Antes, quando ela tentava influenciar o mundo à sua volta, fazer coisas boas, trazer paz aos outros, a paz que ela sentia era constantemente abalada. Aqueles que não desejavam sua paz não suportavam vê-la em paz, precisavam perturbá-la. Ela se via isolada do mundo, via que ninguém mais estava na mesma frequência que ela, ninguém tinha a mesma sintonia. Até mantinha um pequeno grupo de amigos que também estavam em paz, mas todos os outros ao seu redor tinham um único objetivo: vê-la sofrer como eles sofriam. Ela sorria para todos, era gentil, falava suave; recebia em troca murros, palavras grosseiras, desrespeito. 

                Ela desistiu. Foi viver só, e foi o melhor que fez até hoje. Percebeu que não adiantava querer coisas boas para pessoas ruins, viu que isso afetava somente à ela, pois quem não está em paz, não tem sua paz abalada. Ela se isolou do mundo, manteve apenas seu pequeno grupo de amigos que também estavam em paz e sabiam respeitar a paz dela, porém, todos eram como ela, haviam desistido de trazer paz às outras pessoas, pois sua paz sofria com isso. Decorou uma casa, fez dela seu santuário. Seu lugar só seu era cheio de música, de vida, de natureza, e, principalmente, de paz. Era tudo o que ela poderia querer, e isso a fazia feliz.

                Tinha esquecido como o mundo é mau, como as pessoas são ruins. Nem passava por sua cabeça o que antes lhe tirava a paz. Ela não se importava mais se as pessoas matavam umas às outras, se os homens desrespeitavam as mulheres, se as leis eram falhas, se a política de seu país era corrupta. Ela já havia feito sua parte para tentar mudar tudo isso; quando ela o fez, a calaram com palavras brutas e frias, que a penetraram como faca de dois gumes em seu peito. Ela sangrou até a morte e, desde então, nunca mais viveu fora de si mesma. Seu eu-social havia perecido em meio às suas tentativas, a sociedade a tinha esmagado de tal forma que ela percebera que não valia a pena esquecer de si mesma para tentar fazer o bem a quem não quer bem. Ela sabia que de todas as coisas que ela tinha feito, haveriam boas recompensas para ela. Ela sabia que não era culpa dela o mundo caminhar para a desgraça e havia parado de tentar impedir a destruição iminente do ser humano.

                Ela sabia a consequência de suas escolhas. Sabia que pereceria como os outros homens, que a natureza se revoltaria contra a raça humana e a exterminaria. Ela sabia que esta era estava para terminar, e que ela iria junto. Mas ela estava em paz; ela era plena, era sábia, ela era tudo o que queria ser. Ela estava em paz. Nada no mundo agora poderia lhe tirar a paz. Nem o fim desta era, pois ela estava consciente do que a esperava “do outro lado”, ela sabia para onde iria, o que ela seria. Tinha total certeza de que tudo o que havia feito em sua vida era bom, e que ela seria fortemente recompensada por isso. Estava consciente, tinha seu véu derrubado há tempos. Ela meditava e sabia todas as verdades do universo. Seu ser era completo, ela era o universo inteiro e sabia disso. 

                Mas agora, tudo o que ela queria era viver, desfrutar de sua última pequena eternidade neste mundo, que é tão único quanto qualquer outro, e ela mal tivera a chance de conhecer suas maravilhas. Um dia, ela havia se dedicado a escrever as maravilhas da natureza deste planeta, havia viajado por ele, conhecido tudo o que lhe foi possível. Ainda não foi o planeta inteiro. Ela queria ter viajado as profundezas dos oceanos com seu próprio corpo, mas só o fez com sua consciência. Queria ter voltado no tempo e conhecido seus ancestrais, e o fez em suas viagens astrais. Ela já sabia tudo o que tinha de saber; dedicara sua vida inteira a tornar-se plena e completamente sábia. Queria que esta fosse sua última encarnação, queria tornar-se parte da Deusa, ela queria ser o universo inteiro e havia conseguido isso. Estava em paz.

                Certa manhã, acordou para deitar-se na grama ainda molhada do orvalho e rolar com seus cachorros e acabou por se deparar com um mundo em destruição. O céu estava negro, mas não era um eclipse. Havia fumaça por toda parte, ela ouvia gritos desesperados, via pessoas se jogando de edifícios em chamas na vizinhança. Ela sabia que o fim estava por vir. Mesmo no breu absoluto, ela acolheu seus animais amedrontados, deitou-se com todos eles na grama úmida, deu um beijo em cada um de seus animais, abraçou-os, fechou seus olhos, sorriu e aguardou. Sentiu que o céu estava clareando, pensou que talvez estivesse errada, abriu os olhos e viu a plenitude. Era a Deusa, ao lado do Deus, de Shiva, Krishna, Ganeesha e Parvati, e eles a chamavam. Disseram a ela que ela fora o melhor instrumento de luz na Terra, e que ela merecia se tornar parte de todos eles. Ela levou sua mão ao seu braço esquerdo, onde toda a vida, a morte e a ressureição reluziam e formigavam. A Deusa Mãe a pegou pela mão, dizendo que esta era a sua marca nela. 

                Shiva a saudou, e Ganeesha desceu ao seu quintal, pegou nos braços todos os seus animais, que estavam em plena paz com ele. Ela sorriu, levantou e entendeu, valeu a pena. Todas as tentativas, se não surtiram o devido efeito, agora ela estava certa e todos veriam. E se surtiram, ela sabia que havia conduzido muitas almas a serem como ela, plenas. Krishna disse a ela que ela havia feito um ótimo trabalho, e que ela seria recompensada. O Deus Cornífero tomou-a em seus braços e disse a ela que agora ela era parte de sua mãe e de sua mulher. A Deusa se pôs de pé em frente a ela nos céus, ela estava maravilhada de estar “flutuando” nos céus. As divindades a levaram para o infinito, e ela viu a si mesma entrando no corpo da Deusa, e sentiu que agora ela era todas as coisas. Podia sentir milhões de almas gritando e sendo abruptamente silenciadas e se entristeceu. 

                Parvati, vendo sua tristeza, disse a ela que não se abalasse mais, pois agora ela era o infinito e ela tinha poder pleno sobre ele. Disse que todas as almas caladas tiveram seu tempo para serem transformadas e não estarem sofrendo este fim, mas que todas elas renasceriam em condições diferentes, e que ela poderia ajudá-las a encontrar o caminho que possui coração, mas não poderia intervir em suas escolhas e suas decisões. Eles deveriam, assim como ela, entender suas próprias verdades e adquirir conhecimento e sabedoria sobre o universo através da meditação, pois só assim poderiam tornar-se plenos. Agora, ela sabia tudo, ela era parte de tudo, ela tinha poder sobre tudo e sentia cada corpo celeste do universo. Também sentia todas as divindades dentro de si, e ela sabia que isso não cessaria. Tudo havia saído de seu útero e ela seria a mãe de todas as coisas para sempre. 

                A essência da Deusa estava com ela, e, mais do que nunca, ela estava em completa e plena paz. A mais grandiosa paz que ela já havia sentido em todas as suas eternidades. Agora, ela era o espírito sábio de outono transcendido.