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12 de novembro de 2014

Gotas de orvalho no meu quintal

                    Todos os dias, quando ela acordava, ia até o quintal, dava bom dia a todas as suas plantinhas, deitava na grama ainda úmida do orvalho da madrugada, rolava com seus cachorros no chão, e, assim, agradecia por mais um dia que começara. Ela cuidava de seu jardim, regava suas flores, fazia a manutenção de sua pequena horta de temperos, dava comida aos seus animais e seguia seus afazeres. Ela era apaixonada pela vida, pela natureza, pelo verde e por tudo o que a Deusa era dentro dela. Seu maior desejo sempre fora estar em paz e trazer paz a quem a quisesse. Mas ninguém queria, ninguém além dela.

                  Antes, quando ela tentava influenciar o mundo à sua volta, fazer coisas boas, trazer paz aos outros, a paz que ela sentia era constantemente abalada. Aqueles que não desejavam sua paz não suportavam vê-la em paz, precisavam perturbá-la. Ela se via isolada do mundo, via que ninguém mais estava na mesma frequência que ela, ninguém tinha a mesma sintonia. Até mantinha um pequeno grupo de amigos que também estavam em paz, mas todos os outros ao seu redor tinham um único objetivo: vê-la sofrer como eles sofriam. Ela sorria para todos, era gentil, falava suave; recebia em troca murros, palavras grosseiras, desrespeito. 

                Ela desistiu. Foi viver só, e foi o melhor que fez até hoje. Percebeu que não adiantava querer coisas boas para pessoas ruins, viu que isso afetava somente à ela, pois quem não está em paz, não tem sua paz abalada. Ela se isolou do mundo, manteve apenas seu pequeno grupo de amigos que também estavam em paz e sabiam respeitar a paz dela, porém, todos eram como ela, haviam desistido de trazer paz às outras pessoas, pois sua paz sofria com isso. Decorou uma casa, fez dela seu santuário. Seu lugar só seu era cheio de música, de vida, de natureza, e, principalmente, de paz. Era tudo o que ela poderia querer, e isso a fazia feliz.

                Tinha esquecido como o mundo é mau, como as pessoas são ruins. Nem passava por sua cabeça o que antes lhe tirava a paz. Ela não se importava mais se as pessoas matavam umas às outras, se os homens desrespeitavam as mulheres, se as leis eram falhas, se a política de seu país era corrupta. Ela já havia feito sua parte para tentar mudar tudo isso; quando ela o fez, a calaram com palavras brutas e frias, que a penetraram como faca de dois gumes em seu peito. Ela sangrou até a morte e, desde então, nunca mais viveu fora de si mesma. Seu eu-social havia perecido em meio às suas tentativas, a sociedade a tinha esmagado de tal forma que ela percebera que não valia a pena esquecer de si mesma para tentar fazer o bem a quem não quer bem. Ela sabia que de todas as coisas que ela tinha feito, haveriam boas recompensas para ela. Ela sabia que não era culpa dela o mundo caminhar para a desgraça e havia parado de tentar impedir a destruição iminente do ser humano.

                Ela sabia a consequência de suas escolhas. Sabia que pereceria como os outros homens, que a natureza se revoltaria contra a raça humana e a exterminaria. Ela sabia que esta era estava para terminar, e que ela iria junto. Mas ela estava em paz; ela era plena, era sábia, ela era tudo o que queria ser. Ela estava em paz. Nada no mundo agora poderia lhe tirar a paz. Nem o fim desta era, pois ela estava consciente do que a esperava “do outro lado”, ela sabia para onde iria, o que ela seria. Tinha total certeza de que tudo o que havia feito em sua vida era bom, e que ela seria fortemente recompensada por isso. Estava consciente, tinha seu véu derrubado há tempos. Ela meditava e sabia todas as verdades do universo. Seu ser era completo, ela era o universo inteiro e sabia disso. 

                Mas agora, tudo o que ela queria era viver, desfrutar de sua última pequena eternidade neste mundo, que é tão único quanto qualquer outro, e ela mal tivera a chance de conhecer suas maravilhas. Um dia, ela havia se dedicado a escrever as maravilhas da natureza deste planeta, havia viajado por ele, conhecido tudo o que lhe foi possível. Ainda não foi o planeta inteiro. Ela queria ter viajado as profundezas dos oceanos com seu próprio corpo, mas só o fez com sua consciência. Queria ter voltado no tempo e conhecido seus ancestrais, e o fez em suas viagens astrais. Ela já sabia tudo o que tinha de saber; dedicara sua vida inteira a tornar-se plena e completamente sábia. Queria que esta fosse sua última encarnação, queria tornar-se parte da Deusa, ela queria ser o universo inteiro e havia conseguido isso. Estava em paz.

                Certa manhã, acordou para deitar-se na grama ainda molhada do orvalho e rolar com seus cachorros e acabou por se deparar com um mundo em destruição. O céu estava negro, mas não era um eclipse. Havia fumaça por toda parte, ela ouvia gritos desesperados, via pessoas se jogando de edifícios em chamas na vizinhança. Ela sabia que o fim estava por vir. Mesmo no breu absoluto, ela acolheu seus animais amedrontados, deitou-se com todos eles na grama úmida, deu um beijo em cada um de seus animais, abraçou-os, fechou seus olhos, sorriu e aguardou. Sentiu que o céu estava clareando, pensou que talvez estivesse errada, abriu os olhos e viu a plenitude. Era a Deusa, ao lado do Deus, de Shiva, Krishna, Ganeesha e Parvati, e eles a chamavam. Disseram a ela que ela fora o melhor instrumento de luz na Terra, e que ela merecia se tornar parte de todos eles. Ela levou sua mão ao seu braço esquerdo, onde toda a vida, a morte e a ressureição reluziam e formigavam. A Deusa Mãe a pegou pela mão, dizendo que esta era a sua marca nela. 

                Shiva a saudou, e Ganeesha desceu ao seu quintal, pegou nos braços todos os seus animais, que estavam em plena paz com ele. Ela sorriu, levantou e entendeu, valeu a pena. Todas as tentativas, se não surtiram o devido efeito, agora ela estava certa e todos veriam. E se surtiram, ela sabia que havia conduzido muitas almas a serem como ela, plenas. Krishna disse a ela que ela havia feito um ótimo trabalho, e que ela seria recompensada. O Deus Cornífero tomou-a em seus braços e disse a ela que agora ela era parte de sua mãe e de sua mulher. A Deusa se pôs de pé em frente a ela nos céus, ela estava maravilhada de estar “flutuando” nos céus. As divindades a levaram para o infinito, e ela viu a si mesma entrando no corpo da Deusa, e sentiu que agora ela era todas as coisas. Podia sentir milhões de almas gritando e sendo abruptamente silenciadas e se entristeceu. 

                Parvati, vendo sua tristeza, disse a ela que não se abalasse mais, pois agora ela era o infinito e ela tinha poder pleno sobre ele. Disse que todas as almas caladas tiveram seu tempo para serem transformadas e não estarem sofrendo este fim, mas que todas elas renasceriam em condições diferentes, e que ela poderia ajudá-las a encontrar o caminho que possui coração, mas não poderia intervir em suas escolhas e suas decisões. Eles deveriam, assim como ela, entender suas próprias verdades e adquirir conhecimento e sabedoria sobre o universo através da meditação, pois só assim poderiam tornar-se plenos. Agora, ela sabia tudo, ela era parte de tudo, ela tinha poder sobre tudo e sentia cada corpo celeste do universo. Também sentia todas as divindades dentro de si, e ela sabia que isso não cessaria. Tudo havia saído de seu útero e ela seria a mãe de todas as coisas para sempre. 

                A essência da Deusa estava com ela, e, mais do que nunca, ela estava em completa e plena paz. A mais grandiosa paz que ela já havia sentido em todas as suas eternidades. Agora, ela era o espírito sábio de outono transcendido.

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