Antes,
quando ela tentava influenciar o mundo à sua volta, fazer coisas boas, trazer
paz aos outros, a paz que ela sentia era constantemente abalada. Aqueles que
não desejavam sua paz não suportavam vê-la em paz, precisavam perturbá-la. Ela
se via isolada do mundo, via que ninguém mais estava na mesma frequência que
ela, ninguém tinha a mesma sintonia. Até mantinha um pequeno grupo de amigos
que também estavam em paz, mas todos os outros ao seu redor tinham um único
objetivo: vê-la sofrer como eles sofriam. Ela sorria para todos, era gentil,
falava suave; recebia em troca murros, palavras grosseiras, desrespeito.
Ela
desistiu. Foi viver só, e foi o melhor que fez até hoje. Percebeu que não
adiantava querer coisas boas para pessoas ruins, viu que isso afetava somente à
ela, pois quem não está em paz, não tem sua paz abalada. Ela se isolou do
mundo, manteve apenas seu pequeno grupo de amigos que também estavam em paz e
sabiam respeitar a paz dela, porém, todos eram como ela, haviam desistido de
trazer paz às outras pessoas, pois sua paz sofria com isso. Decorou uma casa,
fez dela seu santuário. Seu lugar só seu era cheio de música, de vida, de
natureza, e, principalmente, de paz. Era tudo o que ela poderia querer, e isso
a fazia feliz.
Tinha
esquecido como o mundo é mau, como as pessoas são ruins. Nem passava por sua
cabeça o que antes lhe tirava a paz. Ela não se importava mais se as pessoas
matavam umas às outras, se os homens desrespeitavam as mulheres, se as leis
eram falhas, se a política de seu país era corrupta. Ela já havia feito sua parte
para tentar mudar tudo isso; quando ela o fez, a calaram com palavras brutas e
frias, que a penetraram como faca de dois gumes em seu peito. Ela sangrou até a
morte e, desde então, nunca mais viveu fora de si mesma. Seu eu-social havia
perecido em meio às suas tentativas, a sociedade a tinha esmagado de tal forma
que ela percebera que não valia a pena esquecer de si mesma para tentar fazer o
bem a quem não quer bem. Ela sabia que de todas as coisas que ela tinha feito,
haveriam boas recompensas para ela. Ela sabia que não era culpa dela o mundo
caminhar para a desgraça e havia parado de tentar impedir a destruição iminente
do ser humano.
Ela
sabia a consequência de suas escolhas. Sabia que pereceria como os outros
homens, que a natureza se revoltaria contra a raça humana e a exterminaria. Ela
sabia que esta era estava para terminar, e que ela iria junto. Mas ela estava
em paz; ela era plena, era sábia, ela era tudo o que queria ser. Ela estava em
paz. Nada no mundo agora poderia lhe tirar a paz. Nem o fim desta era, pois ela
estava consciente do que a esperava “do outro lado”, ela sabia para onde iria,
o que ela seria. Tinha total certeza de que tudo o que havia feito em sua vida
era bom, e que ela seria fortemente recompensada por isso. Estava consciente,
tinha seu véu derrubado há tempos. Ela meditava e sabia todas as verdades do
universo. Seu ser era completo, ela era o universo inteiro e sabia disso.
Mas
agora, tudo o que ela queria era viver, desfrutar de sua última pequena
eternidade neste mundo, que é tão único quanto qualquer outro, e ela mal tivera
a chance de conhecer suas maravilhas. Um dia, ela havia se dedicado a escrever
as maravilhas da natureza deste planeta, havia viajado por ele, conhecido tudo
o que lhe foi possível. Ainda não foi o planeta inteiro. Ela queria ter viajado
as profundezas dos oceanos com seu próprio corpo, mas só o fez com sua
consciência. Queria ter voltado no tempo e conhecido seus ancestrais, e o fez
em suas viagens astrais. Ela já sabia tudo o que tinha de saber; dedicara sua
vida inteira a tornar-se plena e completamente sábia. Queria que esta fosse sua
última encarnação, queria tornar-se parte da Deusa, ela queria ser o universo
inteiro e havia conseguido isso. Estava em paz.
Certa
manhã, acordou para deitar-se na grama ainda molhada do orvalho e rolar com
seus cachorros e acabou por se deparar com um mundo em destruição. O céu estava
negro, mas não era um eclipse. Havia fumaça por toda parte, ela ouvia gritos desesperados,
via pessoas se jogando de edifícios em chamas na vizinhança. Ela sabia que o
fim estava por vir. Mesmo no breu absoluto, ela acolheu seus animais
amedrontados, deitou-se com todos eles na grama úmida, deu um beijo em cada um
de seus animais, abraçou-os, fechou seus olhos, sorriu e aguardou. Sentiu que o
céu estava clareando, pensou que talvez estivesse errada, abriu os olhos e viu
a plenitude. Era a Deusa, ao lado do Deus, de Shiva, Krishna, Ganeesha e
Parvati, e eles a chamavam. Disseram a ela que ela fora o melhor instrumento de
luz na Terra, e que ela merecia se tornar parte de todos eles. Ela levou sua
mão ao seu braço esquerdo, onde toda a vida, a morte e a ressureição reluziam e
formigavam. A Deusa Mãe a pegou pela mão, dizendo que esta era a sua marca
nela.
Shiva
a saudou, e Ganeesha desceu ao seu quintal, pegou nos braços todos os seus
animais, que estavam em plena paz com ele. Ela sorriu, levantou e entendeu,
valeu a pena. Todas as tentativas, se não surtiram o devido efeito, agora ela
estava certa e todos veriam. E se surtiram, ela sabia que havia conduzido
muitas almas a serem como ela, plenas. Krishna disse a ela que ela havia feito
um ótimo trabalho, e que ela seria recompensada. O Deus Cornífero tomou-a em
seus braços e disse a ela que agora ela era parte de sua mãe e de sua mulher. A
Deusa se pôs de pé em frente a ela nos céus, ela estava maravilhada de estar “flutuando”
nos céus. As divindades a levaram para o infinito, e ela viu a si mesma
entrando no corpo da Deusa, e sentiu que agora ela era todas as coisas. Podia
sentir milhões de almas gritando e sendo abruptamente silenciadas e se
entristeceu.
Parvati,
vendo sua tristeza, disse a ela que não se abalasse mais, pois agora ela era o
infinito e ela tinha poder pleno sobre ele. Disse que todas as almas caladas
tiveram seu tempo para serem transformadas e não estarem sofrendo este fim, mas
que todas elas renasceriam em condições diferentes, e que ela poderia ajudá-las
a encontrar o caminho que possui coração, mas não poderia intervir em suas
escolhas e suas decisões. Eles deveriam, assim como ela, entender suas próprias
verdades e adquirir conhecimento e sabedoria sobre o universo através da
meditação, pois só assim poderiam tornar-se plenos. Agora, ela sabia tudo, ela
era parte de tudo, ela tinha poder sobre tudo e sentia cada corpo celeste do
universo. Também sentia todas as divindades dentro de si, e ela sabia que isso
não cessaria. Tudo havia saído de seu útero e ela seria a mãe de todas as
coisas para sempre.
A
essência da Deusa estava com ela, e, mais do que nunca, ela estava em completa
e plena paz. A mais grandiosa paz que ela já havia sentido em todas as suas
eternidades. Agora, ela era o espírito sábio de outono transcendido.
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