Tudo tem sido cada vez mais breve, vago, vazio.
Lembro daquele olhar de ternura que parecia que jamais morreria, lembro daquele gesto de carinho e apreço, daquela palavra suave, daquele abraço aconchegante. Lembro de quando o tempo não nos dava tempo de estragar todas as coisas que construímos, e de quando a vida sorria pra nós a cada amanhecer, e não havia nada que pudesse estragar o nosso dia. Lembro de coisas que já não mais existem, coisas que são apenas uma memória remota de mais um tempo bom que já se foi.
Sinto o final deste caminho chegando até nós, sinto nossas mãos se soltando, a prata derretendo, nossos laços se rompendo. Sinto que não fazemos mais parte da mesma frequência e há tempos não estamos em sintonia. Parece que já passamos pela porta da saída, mas esquecemos que saímos, estamos ainda tentando nos manter lá dentro, sufocando, gritando e sabendo que não é possível permanecer em um lugar que já não está mais lá.
Houve um tempo em que eu tinha total certeza do que me rodeava, em que eu sabia exatamente quem éramos, o que queríamos, o que estávamos fazendo, conhecia nossas razões e nossos porquês. Hoje não mais. As mudanças estão chegando e estão levando cada um para seu devido caminho, e agora já não há mais um motivo. Nesse meio tempo, pude crescer, evoluir e aprender muito. Talvez não haja nada mais para ser aprendido aqui. Talvez não haja nada mais que possamos fazer.
São coisas pequenas, simples e singelas que abalam nossas estruturas. Problemas desnecessários que insistimos em dar importância, e nada disso nos edifica, mas nos destrói. Somos insistentes do pouco e do muito, exagerados errantes buscando pedras para podermos tropeçar. Não parecemos interessados em consertar o que está quebrado, mas sim terminar de destruir e tentar não deixar muitos resquícios pra trás. Tentamos de todo jeito determinar nossas vontades inexistentes sob o que o destino já escreveu e nós apenas seguimos, mesmo que tentemos trilhar nosso próprio curso.
Quero que saiba que eu não quis assim. Apenas sinto que há tempos procuramos motivos pra encerrar este ciclo e seguirmos nossos próprios caminhos, e talvez agora tenha havido o estopim. Vejo que não há mais motivo algum para insistirmos em uma guerra falida contra o que antes defendíamos com unhas e dentes. Nossas estruturas já foram brutalmente bombardeadas, e estamos nos mantendo de pé por apenas algumas colunas que ainda nos sustentam, mas já estão rangindo e avisando que sua queda está próxima. Com isso, toda nossa estrutura irá abaixo, e ficaremos em destroços.
Acredito que mesmo que mais uma vez, superemos mais um problema que nós mesmos inventamos, nosso chão já está abalado demais para continuar de pé, e mais algumas bombas certamente o derrubarão num futuro próximo. Não construímos uma fortaleza, não somos do tipo invencível, nem temos um laço forte o suficiente para aguentar besteiras tão pequenas como esta. São pequenas coisas que nos fazem rangir, e nenhuma estrutura aguenta tanto assim. Hoje tirei do meu dedo a prata que nele estava desde o dia em que te fiz andar de um lado a outro para encontrá-las, e lembro disso com carinho, pois era um tempo em que ainda estávamos de pé.
Te falei um dia que algumas coisas não eram o suficiente para nos manter, que precisaria de muito mais se quiséssemos continuar como estávamos. Agora vejo que talvez, nunca tenha sido nós. Talvez eu tenha me equivocado e o destino só nos uniu para aprendermos e agora já está cumprido o que era para ser. Também, talvez, o atraso e as impossibilidades para darmos o próximo passo tenham sido um sinal de que esse dia chegaria e seria muito pior se estivéssemos sob circunstâncias diferentes. Pensei que evoluiríamos, que aprenderíamos e permaneceríamos. Talvez esses não fossem os planos do destino pra nós.
Vejo agora que o ponto final é iminente e nada podemos fazer para evitá-lo. Podemos apenas adiá-lo, mas isso é o mesmo que fechar os olhos e fingir que está tudo bem enquanto não está. O que antes era bom, confortável, aconchegante, agora é incômodo, estressante, cansativo. Não precisamos de sinal mais claro do que este. Já não há mais nada bom em nós, e parece que estamos buscando nos distanciar pra que doa um pouco menos encarar esse fato. Mas um dia aprendi que a vida é assim, pessoas vão, pessoas vêm, e dificilmente se mantêm. Aprendi que ao construir uma vida, só amor não é o suficiente, e talvez o nosso não esteja conseguindo superar nossas diferenças há algum tempo.
Um dia pensei que era eu pra você e você pra mim, porque você era alguém sensacional que deveria ter alguém que te tratasse da melhor forma possível, que cuidasse de você, te respeitasse e te amasse incondicionalmente. Acredito ter cumprido com o meu papel até então, mas hoje isso parece insignificante diante de todo o bolor que deixamos se criar em nós. Eu sei que não sou o melhor que você poderia ter, mas eu fiz o meu melhor e não sinto culpa alguma por nada. Mesmo que pra você seja um grande problema, pra mim isso é só mais um detalhe das nossas diferenças que você não aceita.
Acho que no fim, nunca fomos "meant to be", e talvez um dia você encontre alguém com os mesmos gostos que você, as mesmas vontades, os mesmos sonhos, e alguém que te queira bem e não seja como eu, que cuide de ti e te dê tudo o que eu não pude te dar. Espero que você seja feliz e que talvez um dia consiga me perdoar, entender meus motivos, falar comigo, e não esquecer desse tempo.
Te amei, te amarei. Sempre.
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