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30 de maio de 2011

Conto - O Amor É Cego, Capítulo 2

Naquela noite, tudo que consegui pensar trazia o nome dela à tona. Esperei, pensei, imaginei, torci. E fiquei na inestimável espectativa pelo dia seguinte.

Cheguei no trabalho e fiquei esperando. Clientes entravam e saía, invisíveis pra mim, até que ela entrou. Eu sorri, feliz por ela não poder ver que eu estava tremendo, com aquele sorriso de orelha a orelha. Quando ela entrou, me pus de pé, e nesse ato, deixei algumas coisas caírem, fazendo barulho. Ela sorriu.

- Precisa de ajuda? -disse ela, me gozando.

- Na verdade, gostaria bastante. -continuei a brincadeira e, quando olho para o lado, ela está ao meu lado, realmente me ajudando. Talvez eu tenha me aproveitado um pouco da situação, mas quando a mão dela permaneceu imóvel sobre a minha mesa, tive de fazer meu teste.

E, para meu espanto, ela correspondeu àquele toque. Foi... forte. Tinhamos uma ligação, de alguma forma. Hoje ela havia me trazido um bilhete em braile contendo seu nome e o número do seu telefone, que logo me entregou, meio sem jeito ainda pelo toque anterior, sorrindo timidamente.

- Bom, eu gostei muito de conversar contigo ontem e... me senti bem falando com você de uma forma que há muito não sentia, então, agora que você tem meu número, estarei esperando sua ligação.

Enquanto ela falava, eu estava perplexa. Respirei algumas vezes e respondi:

- Posso te ligar logo que chegar em casa? Poderiamos sair... fazer alguma coisa... que você acha? -disse também sem jeito, com a voz trêmula.

- Ótimo. Jantar? Ou talvez um chimarrão no parque...? -sugeriu ela, sem saber que chimarrão no parque era uma das coisas que eu mais gostava de fazer.

- Parque, certamente. Eu levo o chimarrão e um cobertor, ok?

- Perfeito. Se quiser beber ou fumar qualquer coisa, eu acompanho...

- Então levarei alguma coisa mais -sorri de uma forma que ela pudesse saber que eu estava sorrindo. Ela sorriu também.

Fora essa a garota mais impressionante que eu havia conhecido em muito tempo? Ou essa pergunta era a única coisa sobre ela que eu sabia responder. Tudo que eu queria era que ela me deixasse tomar conta dela, segurá-la e mantê-la aquecida.

Talvez, num olhar apenas, eu pudesse dizer que ela era a garota que eu queria pra mim. A garota por quem eu correria a cidade com flores e chocolates pra entregá-los a ela sem motivo algum, apenas pra demonstrar quanto a amo. Escolheria as flores mais lindas, mesmo sabendo que ela não poderia vê-las. Eu as descreveria pra ela, daria detalhe por detalhe, cada traço dessas flores, pra que ela pudesse ter em sua mente o quão lindas eram.

Queria tomá-la em um abraço e definir todas as linhas de seu rosto, pra que ela pudesse sentir como ela era linda e, dessa forma, pudesse saber que eu a amava por inteiro. E, nessas alturas, eu provavelmente já a amava.

Sem saber.

Trocávamos palavras ansiosas pelo momento que estariamos realmente a sós, podendo falar qualquer coisa que quiséssemos. A levei até a porta, que abri e segurei enquanto ela passava. Ela segurou meu rosto, sentindo-o, e me deu um beijo suave no rosto. Acho que foi o melhor beijo no rosto que alguém já me deu em quinze vidas. Fiz o mesmo enquanto segurei sutilmente sua mão. Nos demoramos nesse toque e ela se foi.

Naquela cena, meus três corações batentes se desfizeram. Minha mente, ela e meu coração mesmo. Naquele toque, ela estava se tornando uma parte de mim.

(continua)

Um comentário:

  1. Nossa perfeito esse conto....
    amei e que conexão essas duas tem hein..

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