- Hoje é noite de lua cheia, mas ela não está aqui, eu não consigo vê-la, ela não está lá em cima. - Ela afirmou, com um certo ar de tristeza.
- Claro que está, mas seu campo de visão é muito limitado pra vê-la daqui. - Isso era uma tentativa de consolo?
- Pois é... nem sempre nós podemos ver o que temos na nossa vida, mas as coisas estão lá. E nós ficamos esperando pelas coisas que nós vamos poder ver, mas quando elas chegam, nós queremos de volta as coisas que não podíamos ver antes. Assim é quando amanhecer. Eu vou querer a noite de volta, mesmo que não pudesse ver a lua.
Ok, qual era o ponto ali? Estava começando a ficar confusa... aquela era a garota que você procuraria pra um tempo de diversão e nada mais que isso. E de repente ela começa a me dar uma lição de vida? É isso? Tá, mas pra que, afinal?
- E no fim, nós estamos sempre assim, não? - Continuou - Estamos sempre procurando pelo que não temos e esquecemos de procurar no escuro pela coisas que nós já temos.
- Onde você quer chegar com isso? - Ela virou o jogo, pelo visto... agora eu que não queria a provocação.
- Bom... eu sempre estive aqui no mesmo lugar. Te servi bebidas quase todo final de semana, subi no palco diversas vezes e você parece nunca ter me visto antes. Mas no dia que acendi seu cigarro numa escuridão quase que completa, você notou que eu estava lá. Estranho, não?
Como diabos eu nunca havia notado aquela garota? E quem era ela? Onde eu estive esse tempo todo pra perceber que ela existia e estava bem debaixo do meu nariz? E o mais importante: o que ela queria me dizer com tudo isso?
- Eu percebi algumas coisas sobre você... eu sei muito sobre você e nunca precisei fazer perguntas. Mas aposto que você não sabe nada sobre mim. Eu tenho uma leve impressão de que você me olhou e pensou a mesma coisa que todo mundo pensa, certo? Uma noite, nunca mais.
- Pensei, admito. Mas... por que isso? Qual é a finalidade de tudo isso?
- Garota, não se apresse em saber as coisas que não devem ser apenas ditas. Tem coisas no mundo que a vida não ensina diretamente... só deixa a entender. E é assim que funciona aqui também. Provável que isso não vá a lugar algum, mas eu gosto de tentar e ver o que acontece.
- Então isso é um teste? É isso? - Ela estava me irritando de uma forma... bom, tanto quanto atraente.
- Não, isso é um aprendizado, um bom momento. Me diz que você não gosta de ficar chapada e olhar pras estrelas deitada na grama. E o melhor disso... filosofar, soltar alguns pensamentos que estavam presos dentro de você e não sairiam a qualquer hora.
- Claro que eu gosto...
- Mas você pensou que eu tinha te trazido aqui pra outra coisa, né? - Me interrompeu - Eu sei, todo mundo pensa.
- Você faz isso com todas as garotas que traz pra cá?
- Não... só com as que eu acho que vale a pena fazer isso. É um ritual tanto quanto especial pra mim.
- E com quantas você já utilizou desse ritual pra conquistar?
- Contando com você, uma.
Precisei me calar. Aquela garota tinha algo que não era comum... na verdade, nunca havia visto nada parecido em ninguém que já tivesse cruzado a minha vida. Ela... bom, prestava, digamos assim. Quem diria, não? Ela me olhou percebendo meu silêncio, eu soube o que seus olhos queriam me dizer.
Ela me chamava pra perto. Deitei escorada no seu braço onde continuamos olhando pras estrelas por alguns minutos mais. Por mais que não houvesse uma palavra sequer, era confortável. O silêncio, seu abraço, deitar na grama e olhar pro céu, tudo com ela estava sendo confortável.
- Eu quero te perguntar algo... - Disse aguardando uma aprovação. Ela abaixou a cabeça como para me ouvir melhor e continuei - Qual a finalidade disso? Você não me respondeu.
- A finalidade é te apresentar algo que você nunca teve antes.
- E como você sabe disso?
- Relutância.
- Você não é muito de grandes explicações, não? - Ela apenas sorriu, reafirmando o que eu havia dito.
- Então... eu tenho te visto há mais ou menos um mês e meio entrando no meu bar todo fim de semana e sentando no mesmo lugar. Sozinha. Rejeitando todo e qualquer convite que te fazem. Notei que você não carrega nenhuma aliança ou sinal de pertencer à alguém e você meio que virou um tipo de fascinação minha... uma curiosidade, digamos assim.
- E qual era a do jogo de sedução, então?
- Eu não poderia chegar até você sem a minha máscara e sabia disso... quem olha pra mim, cria uma imagem e eu acabo usando isso como um escudo pra quem eu sou de verdade. Poucos conhecem essa parte de mim, poucos cruzam essa linha da minha vida. E eu quis te mostrar meu mundo...
- É fascinante, devo admitir... - Sorri e pude sentir que ela estava sorrindo também. Acho que eu havia acabado de apertar o botão "start" de um conto de fadas de uma noite.
Continua...
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