Ela se levantou e me ajudou a levantar, me guiou de volta pra dentro de casa, abriu a porta do que parecia ser seu quarto, que era tão confuso quanto ela. Misturava tanta coisa ao mesmo tempo, mas mantinha um padrão escuro e simples. A complexidade estava apenas nos detalhes.
Escolheu um vinil e colocou pra tocar. Acho que ela tinha encontrado minha banda favorita. Lynyrd Skynyrd. Ela tinha um gosto musical admirável. Fora o fato de conservar o hábito do disco de vinil. Fechou a porta atrás de mim, fez um gesto que basicamente resumia um "fique à vontade".
Realmente, uma garota de poucas palavras. Direta, mas subjetiva, confusa e complexa, mas de uma forma simples e tranquila. Não o tipo de garota que se vê todos os dias, obviamente. Ela estava escorada contra a parede. Sob a luz uma luminária de lava apenas, não teria muito o que melhorar na cena.
Ou teria. Caminhei até ela, segurei suas mãos levantadas contra a parede, ela sorriu. E aí estava dado o início do meu jogo de provocação. Ela era surpreendente... do nada, começava a cantar junto com a música que estava tocando como se não estivesse prestando muita atenção em mim. E aquilo só melhorava mais ainda.
Andou em direção a uma espécie de altar que tinha em seu quarto, acendeu um incenso e se deitou em sua cama como se eu nem estivesse ali. Isso me enfurecia de uma forma que despertava em mim uma vontade de obrigá-la a prestar atenção em mim e só em mim. Exatamente por isso, concluo que era proposital.
E, bom, foi exatamente isso que eu fiz. Por incontáveis horas (que não tive tempo de contar), consegui prender sua atenção em mim e somente pra mim. Pegamos no sono depois que o sol já havia nascido. Aí eu entendi, finalmente, o que ela quis dizer sobre querer a noite de volta quando amanhecesse.
Quando acordei, ela me observava de uma forma... peculiar. Ao lado, uma xícara de café, uma carteira de cigarros e um baseado. Olhei pra preparação dela por alguns instantes e quando voltei meus olhos pra ela, ela sorria de uma forma que me fez rir.
- Esse é pra depois do café, - Disse olhando para o baseado - pra dar tempo de preparar o almoço.
- Ok, agora você cozinha também?
- Não, mas suponho que você cozinhe... eu corto os legumes. - Aquela cara de criança que havia aprontado... como diabos, em uma noite, aquela garota conseguia criar em mim esse tipo de sentimento? Eu sorri, não pude evitar. Peguei a xícara de café e a convidei para dividi-la, já que notei que só havia uma.
- Já tomei café, esse é o seu.
- E... como você sabia que esse era meu cigarro favorito?
- Mencionei que te observei bastante, né? Não subestime minha capacidade de observação! - Falou com ar de super heroína. Ela era mesmo uma garota que não se encontra por toda parte.
- Ok, ganhou vários pontos por prestar atenção. E qual é a do misticismo? Você não tem cara de quem acredita em algo além de... anarquia. E, bom, seu quarto meio que deixa claro que suas crenças abrangem pouco mais que isso.
- Pois é, isso é uma longa história que você pode ir descobrindo com o tempo.
- Tempo? - Acho que acabei de deixar claro que só pretendia estar ali por uma noite. Ela me olhou com um certo ar desapontado. Precisava consertar de alguma forma, não me fez bem vê-la daquela forma. - Por que não me explicar agora? Temos tempo suficiente...
Para o meu alívio, ela sorriu. Levantou e pegou um livro sem título. A capa era toda preta, o que me pareceu ser um diário. Esse pensamento logo se refez quando ela o abriu e começou a ler a primeira frase que continha no livro.
- "No mundo inteiro, poucas coisas são inevitáveis. Uma delas é acreditar. Numa ideia, numa filosofia, numa religião, num deus, em qualquer coisa. Apenas acreditar. Isso é, digamos que um ponto de partida para nós, seres humanos. Nós precisamos acreditar em algo, não importa o que seja."
Ela fechou o livro, colocou no mesmo lugar de antes e se sentou ao meu lado.
- O que eu acredito não tem um rótulo. Pra mim, nada é completamente certo ou completamente errado. É tudo relativo. Assim, tudo que eu acredito é uma mistura de um monte de coisas que, na minha visão, são relativamente corretas e positivas. E... bom, é isso.
- Uau, você realmente não é o tipo que dá pra ler facilmente...
E aquele sorriso que ela mantinha no rosto o tempo inteiro estava começando a me provocar algo que há muito não sentia. Nem sequer lembrava como era sentir isso. Pudera, tanto tempo estive me mantendo distante de todas as pessoas que um dia poderiam me fazer perceber isso de novo.
Percebi que ela tinha uma mania... aquela garota não funcionava sem música. Demorei pra perceber, mas quando acordei, ela havia mudado o disco. Pearl Jam. Eu poderia conviver com ela sem me cansar durante um longo tempo. E quando isso passou pela minha cabeça, é, bom, foi bastante impressionante.
Ela se levantou e me ofereceu uma camisa sua pra vestir. Ainda eram 9:37 da manhã, então ainda teríamos tempo pra começar a pensar em nos vestirmos.
Continua...
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