Me encontrava sentada na sala de espera da maternidade de um hospital, aguardando ansiosamente quando me diriam que eu não seria "pai". É, me disseram que não seria. E aí refizeram a fala pra um ponto de interrogação. Há a possibilidade.
Quem diria, hein? Eu, "pai" do filho do meu melhor amigo. Não saber o que pensar, muito menos o que sentir. É muita crueldade torcer pra que tivesse sido abortado? O que também é uma possibilidade. E aí jaz o problema: a falta de certeza.
Falta de certeza em tanta coisa... não saber se conseguiria olhar pro rosto da criança e sentir apenas coisas boas, não saber se aguentaria o tranco da paternidade; e a única certeza: agora não! Assim, muito menos!
Fazem dois dias que a dúvida surgiu (pra mim) e não sei como reagir. Talvez a ideia fosse ótima... mas não no meu ponto de vista. Enfim, vou estar sempre do lado, sempre por perto, sempre apoiando. Mas torço que não.
Certo, sou cruel. Ok, essa é a verdade que eu aceito. A outra, não.
E, Martha, estava lendo teu livro enquanto aguardava o resultado do primeiro exame... li tua crônica "Espírito Aberto", que fala sobre ter o senso do bom humor, aceitar os acontecimentos numa boa. Mas não isso.
Ei, qual é? Eu,"pai"? Quase pulei quando no primeiro exame disseram que não havia feto nenhum, me segurei pra não gritar de alívio. E aí me pregam outra peça, como se já não bastasse o primeiro palito com dois risquinhos.
Ah, Martha, concorde comigo, não dá pra abrir o espírito assim tão fácil... absorvi todo o resto do mundo à minha volta. Só faltou um possível feto. Esse não consigo absorver. Na verdade, nem consigo assimilar os fatos.
Ainda acho que isso não aconteceu.
Fiz um amigo na sala de espera, futuro pai. Ah, mas é dele! Vitor, o feto, já tem oito meses. Daqui a pouco está aí, entrando pras pesquisas do IBGE. E àquele casal, os desejo sorte, amor e tudo de bom que poderiam ter.
Que esse garoto os una ainda mais, por outros cinco e outros cinco anos, e aí outros cinco e outros cinco. Que sejam felizes, que sejam bons pais, que criem um bom Vitor! E enquanto isso, eu agonizo.
Se eu quero matar o pai? Que pergunta! E sim, considero muito menos cruel do que esperar que tenha havido aborto. É, cara, tu me mostraste o sentido de "até tu, Brutus?". Meu amigo, quem diria!
Acredito estar em transe no momento, não consigo desfazer a mesma cara de raiva/choro desde que saímos do hospital. Não, eu não me importo com as possibilidades, só sei que não quero!
No hospital, escrevi um texto chamado "quase-pai" quando recebi a notícia de que não havia feto algum, aliviada. Realmente espero que seja só um quase, só um susto. Não é dessa escória de homem que quero MEU (com ênfase) filho.
Não de um erro, não de um acidente e, muito menos, da raiva que ocasionou o fato (ou feto). Chame de cruel o quanto quiser, eu não me importo.
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