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28 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 7

Eu tinha mania de sempre deixar uma lista de músicas rodando o tempo inteiro. Antes de dormir estávamos escrevendo uns textos pra faculdade e estudando com alguns livros, quando começa a tocar uma música do The White Stripes, a tal onde diz "you don't know what love is, you just do as you're told".

Bruna me olhou e cantou essa frase com cara de "essa te descreve". Mas era pra ela também. E pra Mila.

- Exatamente isso, Ana. Nós não sabemos o que o amor é, mas vemos ele ao nosso redor e fazemos igual. Se tu nunca viu duas gurias juntas, tu não sabe que é possível essa forma de amor e tu não tenta arriscar... nós somos de cidades pequenas onde isso é tão criticado que quem é gay é super discreto, fazendo com que a gente pense que eles não existem.

- Aí nós não temos um exemplo pra seguir... só nos filmes e internet. Mas em tanto tempo, como poderia eu nunca ter sequer imaginado que estava apaixonada por ela?

- Porque talvez você tivesse sua mente fechada pra isso...

- É, eu sempre achei estranho, como se não funcionasse.

- Mas é amor, Aninha... acontece em qualquer forma.

- E se fosse tu?

- Hm, eu acho que também esconderia. Mas por medo de não ser aceita pela minha amiga depois de contar a ela...

- E nem nisso eu tinha pensado. Será que ela sente o mesmo por mim?

- Ela quase se matou por um garoto!

- Respondido... 

- Mas não se matou... porque você estava lá!

- Ih, agora piorou tudo. Mas ela não quis que eu ficasse lá...

- ... pra que tu seguisse teu sonho!

- Ok, agora não sei de mais nada! Nem sobre ela, nem sobre eu mesma.

- Mas ainda dá pra descobrir.

- Não vou arriscar perder a amizade dela. Como eu disse, vai passar. Acho que desde que ela saiu do hospital, isso mudou um pouco.

- Em que sentido?

- No sentido "eu sou lésbica e estou apaixonada pela minha melhor amiga"...?

- Hm, finalmente admitiu? - Sarcástica igual Mila.

- Não! 

Ambas de nós caímos na risada. Bruna queria que eu admitisse, mesmo que fosse brincando. Mas eu não achava que isso fizesse o menor sentido, afinal. E eu não alimentava esperanças de que pudesse "dar certo", caso fosse real.

- O que tu acha? - Bruna sempre parecia querer que eu entendesse tudo sem que ela precisasse explicar.

- Sobre o que?

- Sobre tu ser lésbica, oras!

- Acho que não sou, não...

- Já pôde dizer que amava um cara?

- Não.

- Ahá!

- O que?

- Mas tu ama a Mila...

- E o que tem isso? 

- Nunca amou um cara, ama uma guria... isso diz muito!

- Pra mim não diz nada.

- E pra mim, diz que você é lésbica, Ana!

- E como eu vou saber disso?

- Testando!

- Tu quer dizer, ficando com uma guria?

- Exato!

- Eu não!

- Por quê?

- Não vou correr o risco... vai que eu acabo gostando? Não é fácil ser gay, nem hoje em dia!

- E ser feliz, é fácil?

Continua...

25 de setembro de 2011

Inconsciente.

Porque pequenos pensamentos que temos, sonhos ou acontecimentos sem importância podem afetar muito mais do que imaginamos.

Não é a primeira vez que acontece comigo. Nosso consciente é fortemente afetado pelas coisas que passam por nós despercebidas, coisas que fazem parte do nosso inconsciente. Nossos sonhos são a liberdade dos nossos pensamentos (que boa parte das vezes nós mesmos desconhecemos) e vontades.

Quando acordamos e lembramos de um sonho que temos, às vezes rimos, às vezes nos assustamos, às vezes achamos bom ou ruim, apenas. Mas será que percebemos que esse sonho pode afetar o que fazemos? Esse sonho pode ter colocado na nossa mente alguma barreira e nos fazer acreditar naquele impedimento.

No final de um dia, percebi que havia evitado uma pessoa durante várias tentativas de aproximação. Pensei por que teria feito isso, já que era incomum de mim e lembrei do sonho que havia tido. Liguei os fatos e percebi que o meu inconsciente havia barrado aquela pessoa e que por causa do sonho, eu não queria falar com ela.

Bobo, não? Mais ainda: estranho! 

Ultimamente meus sonhos têm tido muitas ligações com a minha vida diária e com as minhas preocupações, quando geralmente eram só coisas bobas e sem nexo que não poderiam fazer o menor sentido. Sempre disse que quando eu começo a sonhar com algo frequentemente, isso se torna um problema.

Justamente pelo fato do bloqueio inconsciente que esses sonhos causam. Os sonhos podem significar muitas coisas (pra quem acredita, claro), mas também podem apenas te lembrar de algumas coisas e te fazer perceber outras que são conscientemente imperceptíveis. 

Sonhos, geralmente, são tão irracionais quanto é possível (ainda mais os meus). Mas quando eles fazem um certo sentido, conseguem nos assustar. São esses sonhos que criam as tais barreiras. Por causa destes, mudamos de comportamento ou humor sem nem sequer perceber. 

Perigoso, não? 

Afinal, nosso inconsciente nos prega peças e nós sempre caímos, pois não estamos atentos a nada além da parte "acordada" de nós. Muitos de nossos medos são culpa de nossos pesadelos, se formos parar pra raciocinar. Assim como muitas de nossas ações são reflexos dos nossos instintos que só se mostram concretos nos sonhos.

Maldita mente, que, mesmo quando dormimos, sabe nos manipular. E como manipula.

24 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 6

Iria virar rotina passar a aula inteira em silêncio e sentar no mesmo banco durante o intervalo. Voltamos pra mais uma aula silenciosa. Chegamos no quarto e me joguei no colchão, peguei meu notebook e fui escrever algumas coisas por lá.

- Inspirada? 

- Sim, muito! 

- E o que te inspirou hoje?

- A Mila me ligou...

- Só isso?

- Sim, porquê? Preciso de mais motivos?

- Não acha que essa guria é importante e especial demais pra ti?

- Claro que é! 

- Então... tu ama ela, certo?

- Demais... tu sabe, eu te falei.

- Não, não, tu ama ela. - Disse com ênfase no "ama". Não entendi o que ela quis dizer e acho que demonstrei isso na minha expressão, já que ela logo começou a explicar. - Tu está apaixonada por ela, não está?

- O que? - Essa era a última coisa que eu esperava que ela pensasse... até porque nem eu havia pensado nisso, tipo, jamais! - Como assim? Ela é minha melhor amiga e eu nem sou lésbica!

- Sério? O jeito que tu fala dela dá a entender que tu sente algo muito forte por ela. Do tipo mais que amizade.

-  Mas eu sinto! Ela é a pessoa mais importante da minha vida. Mas não nesse sentido!

- E já se sentiu atraída por ela... - Fez soar como uma afirmação. Eu nunca havia parado pra pensar nisso. Será que fazia sentido? Não, claro que não! 

- Han... não sei...

- Sentiu!

- Tá, e o que isso muda?

- Nada, só diz que você é apaixonada pela sua melhor amiga. Completamente normal... se você é lésbica, claro!

- Mas eu não sou...

- Já ficou com garotas?

- Não.

- Então ainda não teve a chance de descobrir? Ou não ficou porque não sentiu vontade mesmo?

- Nunca tinha pensado nisso... até agora.

- Bom, eu também não teria! Se eu fosse apaixonada pela minha melhor amiga, nunca perceberia. A não ser que alguém me falasse... mas e ela? Já ficou com garotas?

- Não... se ficou, nunca me contou. E ela sempre me conta tudo, então não! Mas tanto faz, não vem ao caso. Isso vai passar uma hora ou outra. 
- Não vá acreditando nisso... amor não passa assim.

- Não o amor. Nunca vou deixar de amar ela! Mas a paixão... isso vai passar. Tem que passar. Mas afinal, e tu? Como sabe disso? Já ficou com garotas?

- Sei disso pelo brilho dos teus olhos quando tu fala dela, pelo carinho que tu sente por ela e por tudo que tu me contou. E, bom, não fiquei porque nunca conheci uma guria lésbica... tu és a primeira.

- Mas eu não sou lésbica!

- Hey, não começa a negação! Não tem problema nenhum em ser lésbica. - Ela disse com um sorriso. Será que aquela coisa estranha que eu sentia quando ela (ou Mila) sorriam era atração? 

Continua...

21 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 5

Logo nos arrumamos pra dormir, pegamos nossos notebooks, conversamos mais um pouco e dormimos. Ambas de nós havíamos ido pra lá com dinheiro suficiente pra passar algum tempo sem emprego e, enquanto isso, procuraríamos um.

Na manhã de terça feira, visitamos várias agências de emprego, deixamos currículos em empresas diferentes, jornais, revistarias grandes, livrarias e algumas outras lojas. Tínhamos os mesmos gostos, então íamos sempre para os mesmos lugares, pensando o mesmo.

A conversa de ontem à noite continuou e acabei contando a história inteira pra ela. Me sentia confortável ao lado dela, da mesma forma estranha que me sentia com Mila. Dividíamos segredos sem nos conhecermos, mas ao mesmo tempo, parecia fazer anos que nos conhecíamos.

Em tão pouco tempo, desenvolvi um senso de proteção imenso sobre Bruna. Ela era um pouco mais velha que eu, mas sempre fora igual. Mila também era mais velha, o que não me impedia de ter esse senso protetor. Eram duas crianças que precisavam dos meus cuidados.

Estava imersa em pensamentos dentro de uma livraria que mais parecia o paraíso, quando Bruna chega saltitante com um livro volumoso nas mãos.

- Já leu esse? - Toda sorridente, igual criança pedindo pra mãe se o doce que ela encontrou no mercado é gostoso.

- Claro que já! Que seria eu se não tivesse lido Caderno H? Mário Quintana e Vinícius de Moraes são meus heróis-poetas!

- Meus também!

- E da Mila também... - Falei entre os dentes. Sorte que Bruna não me ouviu.

- Vou comprar um livro. Quer me ajudar a escolher? 

- Que dúvida! - Procuramos pelo livro perfeito e chegamos ao caixa com oito opções diferentes. Foi difícil escolher, mas deixamos a livraria com O Guia de Sobrevivência aos Zumbis e O Livro Secreto do Banheiro Feminino.

Saímos da livraria e fomos ler no parque. Fim de tarde, sol começando a se por, quase hora da aula. Aproveitamos os minutos pra comprar as coisas importantes que não tínhamos trazido, como chimarrão. Preparamos no parque mesmo, colocamos um "rabo quente" e esquentamos a água.

Alguns minutos de leitura e chimarrão no parque, voltamos pra casa. Teríamos sempre as mesmas aulas e dividiríamos um quarto por um bom tempo. Esperava que fosse um bom sinal. Quando estávamos saindo para a aula, Mila me liga.

- Como vai, universitária? - Mais do que imediatamente, abri um sorriso de orelha a orelha.

- Melhor agora! E tu? Estou morrendo de saudade!

- Estou bem, vou sair daqui em pouco tempo, já nem tenho mais crises, as convulsões não voltaram mais, já suspendi quase todos os remédios... falta pouco agora!

- Tens ideia do alívio que é saber disso? Quando terminar, vem morar aqui, ok? Conheci uma garota super legal aqui, podemos dividir um apartamento. 
- Que isso? Já me substituiu? - Ainda bem que não falei que Bruna se parecia com ela. 

- Claro que não, Mila! Lembra que tu não é substituível? 

- Ahn, ok... vou te ligar umas três vezes por semana pra garantir que ainda tenho o posto de melhor amiga no seu coraçãozinho. 

- Esse posto é feito no seu formato, não tem mais ninguém que caiba nele!

- Ótimo, melhor que seja assim mesmo. 

Fiz sinal pra Bruna que fôssemos pra aula enquanto eu falava com Mila, pois não queria perder o tempo que ela tinha pra poder falar comigo. Era ótimo saber que ela estava melhorando e que poderia sair de lá em breve. 

A caminho da sala, esbarrei em Pedro novamente. Ele parou na minha frente, como se esperasse que eu falasse com ele. Enfatizei que era Mila quem estava falando comigo no celular e mesmo assim ele não saiu dali. Bruna entendeu o que eu queria e ameaçou de bater nele se ele não sumisse da nossa frente.

Bruna não fazia o tipo que impunha medo, muito menos fisicamente. Mas funcionou, ele saiu. Ela se mostrava cada vez mais parecida com Mila, inclusive na coragem e na mania de impor respeito. Olhei pra ela e sorri em aprovação. Ela piscou pra mim com ar de "te salvei". Tive de rir.

Continua...

20 de setembro de 2011

Solidão

Tenho certeza que a solidão é a irmã mais nova da morte. Uma hora ou outra, elas vão bater em sua porta. Uma tem um foice afiado com o qual ceifa inúmeras vidas. A outra carrega um aro vazio na mão direita, por onde suga expectativas, esperanças, sonhos. Mas talvez a solidão seja mais cruel que sua irmã mais velha.

Da morte ninguém duvida. Já o só precisa provar que foi visitado pela solidão. E isso só alimenta ela. E no fim, ninguém acredita mesmo, porque o só está sempre só.

O que fazer? Uma hora ou outra, ela vai lhe visitar. E a solidão é uma visita chata, chega inesperadamente e não tem hora pra ir embora. Você tem de conviver com ela, diariamente.

Mas talvez ela se envenene, se eu fizer ela tomar uma forte dose de mim mesma.


You're the reason I feel pain.....

17 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 4

Depois do outro silêncio durante as aulas, saímos pra um café. Descobrimos um problema: nenhuma das duas conhecia direito a cidade pra saber onde teria um café aberto tão tarde. Concluímos que seria um tanto perigoso procurar um café aberto numa segunda feira à noite e fomos pra casa.

- Meus colegas de quarto estão arrumando sei-lá-o-que por lá, está uma bagunça! Sorte a sua não ter de dividir seu quarto. - Ela era tão sutil quanto Mila pra criticar alguma coisa.

- Se você quiser, pode passar um tempo por aqui... é grande demais só pra mim. E, bom, eu gostei de ti. Tu me lembra essa amiga que deixei na outra cidade. - Falei já me arrependendo. Passar tanto tempo com ela iria ser estranho.

- Tu não se incomoda mesmo? 

- Claro que não! Se quiser, podemos ir pegar suas coisas agora...

Ela sorriu e fez sinal pra que fôssemos buscar as malas. Como fazia pouco tempo que estávamos ali, não havíamos desfeito as malas ainda, o que facilitaria essa transição de quartos. Em pouco tempo, já estávamos de volta, com tudo arrumado. Arrumamos as duas camas, que eram colchões improvisados no chão mesmo.

Dividimos umas cervejas enquanto conversávamos. Logo o assunto veio à tona e ela me perguntou novamente sobre minha tal amiga.

- Ok, então. Ouviste falar sobre uma menina que usava heroína e se cortava, que foi encontrada debaixo de um chuveiro...? Deu uma repercussão louca, enorme! 
- Ah, sim, ouvi! Camila-alguma-coisa, certo? - O descaso em sua voz atingiu fundo, doeu.

- Minha melhor amiga, a Mila. Fui eu quem encontrou ela. Os pais dela estavam viajando, notei a ausência dela e invadi a casa dela pela janela da sala. Isso tudo por culpa de um garoto.

- Nossa, Ana, e eu te lembro ela? - A indignação fez meu sangue subir.

- Ela estava em depressão, ok? Aquele garoto era nosso amigo, ele era apaixonado por ela e ela mal o conhecia. Eu os apresentei, ela se apaixonou por ele, começaram a namorar e ele foi um idiota com ela. Ela ficou super mal, não conseguiu superar.

- Ok, desculpa, eu não queria criticar...

- Tudo bem... eu defendo muito ela. A mídia fez algo horrível com ela. Agora todo mundo sabe quem ela é, ela mal pode sair de casa e todo mundo comenta algo.

- Bah, isso deve ser horrível. Mas porque tu deixou ela lá? Porque não ficou?

- Ela me obrigou a vir. Ela sabia o quanto eu tinha lutado por isso e não queria que tivesse sido tudo em vão. Me ameaçou e chantageou. Se eu não tivesse vindo, não sei o que ela teria feito. Aí, resolvi vir mesmo. Mas vim o caminho inteiro chorando, queria ter ficado lá.

- Ela estava certa de não te deixar desistir! Eu faria o mesmo.

- Viu? Por isso que você me lembra ela.

- E isso é... bom?

- Ainda não sei, talvez eu me sinta culpada de sentir menos a falta dela quando tu está por perto... e isso seria ruim. Ou poderia ser bom... já que ela era a única pessoa no mundo que me conhecia de verdade. Quando eu vim pra cá, vim sozinha, sem nada e ninguém. Aqui, saber que tu está do meu lado, é reconfortante... é como se eu já tivesse vindo contigo, como se não tivesse nada faltando.

- Tu parece ser uma ótima amiga, sabia? Podes contar comigo sempre que precisar!

- "Tu és eternamente responsável pelo que cativas", hein. - Brinquei

- Então tu és eternamente responsável por mim, Ana! - Ela sorriu e me abraçou quando percebeu uma lágrima caindo.

Continua...

14 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 3

Durante as aulas, um silêncio absoluto entre Bruna e eu. No intervalo, sentamos num banco em frente ao nosso bloco e ficamos aproveitando aquela noite gostosa de verão. Bruna me contou sobre a vida dela e eu contei um pouco da minha. 

Compartilhamos histórias e descobrimos que nossos quartos no prédio dos estudantes eram bastante próximos. Não comentei nada sobre Mila, por mais que ela insistisse que eu contasse o que tanto me incomodava. Me tornei bastante fechada depois de tudo isso.

Ela me interrogava como criança descobrindo o novo robô falante que ganhou de aniversário. E eu só respondia o necessário. Me contou sobre a família dela, sobre os amigos, sobre a escola, os ex-namorados, trabalho... 

Nisso tudo, tivemos uma vida bastante semelhante. Ela conseguiu romper uma barreira que, desde o incidente, ninguém mais havia rompido: eu estava compartilhando sorrisos com alguém que não era Mila. Doía pensar nisso, então resolvi afastar o pensamento da minha cabeça.

Bruna não era daquela cidade e conhecia poucas pessoas, assim como eu. Tínhamos pensamentos parecidos, gosto musical idêntico, princípios semelhantes. E, como se não bastasse termos nos conhecido na porta de uma sala de aula (da mesma forma que conheci Mila, há muitos anos atrás), logo havia percebido que teríamos a mesma afinidade.

E a cada minuto com Bruna, eu me perguntava se essa amizade seria boa ou ruim pra mim. Estar perto de alguém que tanto me lembrava Mila poderia me fazer sentir menos falta dela, o que era bom e terrível ao mesmo tempo.

Olhei para o nada e passei alguns segundos assim, refletindo sobre o que estava acontecendo. Ela parou de falar e ficou me olhando.

- No que você está pensando? - Está aí uma pergunta que Mila nunca me faria, pois sempre sabíamos exatamente no que a outra estava pensando.

- Numa amiga minha que deixei na minha cidade...

- Muito sua amiga ou só amiga?

- Minha melhor amiga! 

- Hm... deixou porquê?

- O assunto que evitei a noite toda... Está na hora da nossa aula, vamos lá?

- Desculpa, estou perguntando demais, né? Se te incomoda, pode falar, eu paro!

- Não, só não me sinto a vontade pra falar sobre isso... pelo menos não ainda. Durante o café, quem sabe, eu fale um pouco sobre isso, ok?

- Certo... - Ela disse, parecendo incomodada. Não me senti bem com aquilo e sorri e a abracei, pra descontrair. Logo que fiz isso, percebi que agi exatamente da forma que costumava agir com Mila. E ela agiu exatamente da forma que Mila agia: se afastou, me olhou, sorriu e devolveu o abraço.

Continua...

10 de setembro de 2011

Um sorriso, um abraço, um pouco de bom humor

Reclamar do trabalho, do chefe, do salário
Falar mal da comida, do clima, da vida
Que diferença faz?

Mau humor, egoísmo, falta de amor
Baixa estima, sarcasmo, ironia
Que diferença faz?

Sorrir agradável, dar bom dia
Ouvir as histórias chatas da sua tia
Que diferença faz!

Secar as lágrimas de um amigo
Oferecer a mão ao inimigo
Que diferença faz!

Como esquecer

Depois de muito tempo de promessas, resolvi resenhar um filme. A escolha? Bom, essa semana vi dois filmes nacionais: Quanto dura o amor? e Como esquecer. Filmes maravilhosos que me fizeram repensar meu conceito sobre o cinema nacional.

Devido ao fato de retratar algo que todo mundo já passou/vai passar um dia (espera-se que não, mas é quase inevitável), Como esquecer foi o filme escolhido.

Como esquecer é a história de Júlia após um final de relacionamento com Antônia. Hugo, grande amigo de Júlia, é seu braço direito. Ele a incentiva a mudar de casa e, consequentemente, mudar sua vida. 

Júlia, Hugo e Lisa se mudam juntos para uma casa, onde todos começam um novo estilo de vida. Pedro, amor da vida de Hugo, havia recém falecido e Rodrigo havia largado Lisa quando soube que ela estava grávida.

Com todos eles tristes e desiludidos, a depressão parece não ter fim. Mas aos poucos eles ajudam um ao outro sem perceber o bem que essa "vida nova" faz a eles. 

Novos amigos, novos amores, novas alegrias, Júlia, Hugo e Lisa vão encontrando novos motivos para continuar. Com o tempo, esses novos amigos e amores (e a volta de um velho amor) fazem com que os três descubram como esquecer.

Na minha opinião, um filme maravilhoso. Aborda a depressão de uma forma extraordinária, fazendo com que o espectador sinta a intensidade do filme e dos sentimentos que ele busca passar. Atuação incrível, direção ótima. 

E, certamente, depois deste filme, guardarei minhas críticas em relação ao cinema nacional. 


Super indico! 
xx.

New life, old memories - Capítulo 2

No hospital, me fizeram ficar esperando numa sala que fedia igual ao depósito de agulhas da Mila. Lembro de observar cada médico que se aproximava dali, esperando que algum viesse falar comigo. Ninguém veio.

Quando perguntei sobre ela, me disseram que, por eu não ser familiar dela, não poderiam me dar nenhuma informação. Estava ali há mais de 27 horas seguidas. Sem comer absolutamente nada. O que não foi de muita ajuda pra minha amiga, porque eu acabei desmaiando e precisando dos meus próprios médicos.

Acordei já me sentindo melhor, arranquei tudo aquilo que tinham colocado em mim e fui procurar Mila. Abri porta por porta, perguntando quem estava ali. Na quinta vez que fiz isso, um médico me parou, disse que eu estava assustando os pacientes.

Surtei com ele, perguntei se ele sabia o quanto eu estava assustada e se ele tinha a menor ideia de quando Mila deveria estar. Desorientada, sem ninguém pra apoiá-la quando ela mais precisava. Ele quis argumentar, mas não conseguiu. Me levou até o quarto dela. 

Passei, ali, dias a fio, até que seus pais voltaram de viagem (porque eu não seria quem ia dizer pra eles o que havia acontecido com sua filha). Pais desligados, não perceberam o poço onde a garota havia se jogado. A ela, só restava eu, que era a única que conseguia aguentar seus dramas e fazer algo pra ajudá-la.

Negligentes, culparam a mim. Disseram de todas as formas que eu era má companhia pra ela, que nada disso teria acontecido se ela nunca tivesse me conhecido. Ignoraram o fato de que eu cuidara dela por todo esse tempo e era por minha causa que ela não estava morta. Ela não precisava deles.

Me expulsaram dali e fizeram com que eu não tivesse mais permissão pra visitá-la. Por pouco não entrei na mesma depressão que ela. No hospital, a "garota-drogada-que-se-cortava" era notícia. Saiu no jornal e na TV. Um dia um jornalista apareceu na minha casa me enchendo de perguntas sobre ela. 

Não vi nenhuma notícia sobre o que eu falei, visto que critiquei todas as coisas que haviam dito sobre o caso. Claro, quando alguém os coloca contra a parede, fazem de tudo pra que isso não seja visto. 

Acordei num dia com o telefone tocando. Era Mário, o pai da Mila. Ele me disse que ela havia acordado há dois dias e não parava de chamar por mim. Quando disseram pra ela que eu não estava mais autorizada a vê-la, ela surtou e ameaçou se matar. Por puro medo e pressão da filha, me chamaram no hospital.

Chantageei, fiz com que eles fizessem do meu jeito, que eu sei que era como Mila gostaria que fosse. Consegui que não me impedissem de vê-la na hora que eu quisesse, nem de ficar a sós com ela no quarto do hospital e até ganhei autorização pra passar algumas noites lá.

Depois de um tempo, ela começou a sofrer com a abstinência. "Sorte" por já estar no hospital, cuidamos disso também. Quando ela melhorou, eu a fiz prometer que passaria um tempo em reabilitação e tentaria melhorar do vício. 

Com o tempo, as convulsões foram controladas e alguns remédios começaram a ser suspensos. Quando chegou a época de inscrição para o vestibular, ela insistiu que eu fizesse a minha e realizasse meu sonho de morar em outra cidade estudando numa federal.

Disse que não iria enquanto ela não tivesse melhorado completamente, mas ela também sabia chantagear. Fiz minha inscrição. Ela quis garantir que eu desse o melhor de mim e realmente passasse, pois sabia que eu iria fazer a prova apenas pra dizer que havia feito.

Passei no vestibular com o coração na mão. Não queria ir e ela estava me pressionando pra que eu fosse. Ela sabia quanto eu tinha lutado pra chegar até ali e não queria que eu desistisse por uma "besteira" que ela havia feito, como ela dizia.

Mila deu alta do hospital e foi internada na clínica pra dependentes químicos logo depois. Lá as visitas eram bem mais controladas e tornou-se difícil acompanhar sua situação. Na última vez que nos vimos, ela disse que se eu não me mudasse, ela desistiria de melhorar.

Em duas semanas, estava em outra cidade, vivendo outra vida. Na semana seguinte, no dia presente, estava eu naquele lugar que parecia incompleto. Além de tudo que eu sabia estar faltando, faltava minha melhor amiga. Aquela irmã que sempre esteve do meu lado.

Encontrei minha sala de aula, onde era possível ver alguns alunos sentados, conversando. Pareciam se conhecer. E eu não conhecia ninguém. Parei na porta e senti algumas lágrimas escorrendo. Uma garota parou ao meu lado.

- Precisa de um abraço? - Ela se parecia com Mila. Eu sorri e a abracei.

- Obrigada! 

- Tudo bem, eu também estava precisando de um abraço.  E... eu sei que não nos conhecemos, mas se quiser conversar, estou aqui. A propósito, meu nome é Bruna.

- Esse é um assunto complicado que já deves ter ouvido falar. Bom te conhecer, Bruna!

- E você tem um nome? 

- Ah, desculpa, esqueci dessa parte... Ana.

- Bixo de Jornalismo?

- Exato. E tu?

- Também. Perdeste o trote, né?

- Estava sem humor... na verdade, nem queria vir pra cá.

- Bom, teremos as mesmas aulas hoje... se quiser, podemos tomar um café depois e você pode me contar o que te incomoda, se quiser.

- Hm, posso tentar. Mas tomar um café está confirmado, então. 

Foi terminar a frase e o professor chegou, todo bem humorado dando boa noite. Não sei porque, mas gostei dele logo de cara. Senhor de meia idade, com cara de "de bem com a vida". Chegou fazendo piada, o que melhorou um pouco meu humor. 

Bruna e eu nos sentamos numas classes no meio da sala. A presença daquela garota desconhecida estranhamente me fazia sentir melhor, como se ela fosse "a Mila que estava faltando".

Continua...

9 de setembro de 2011

Pra Você

Anônimo:

"É diferente. Eu nunca senti antes. Não quero, nunca mais, sentir de novo. Estou com a terrível sensação de que foi tudo perda de tempo, apenas. Não há nada e muito menos ninguém que me tire isso da mente, são 24 horas por dia pensando: "Aonde foi que eu me perdi? Aonde foi que eu te perdi?"

Mas aí, eu levo um baque na cabeça, essa voz grita nos meus ouvidos: "Acorda, você nunca a perdeu, você nunca a teve."

Sinceridade pra mim é algo de extrema importância. Se você não sente, você é proibido de falar que sim. Dói bem mais a dor da desilusão, do que a dor de ouvir um não, a dor de não ser correspondido, a dor do famoso amor platônico.
 
Se você sente, aí sim, trate de sentir direito, não é?

Meu coração tá tranquilo, meus olhos estão secos, meu cérebro, acredito que esteja em stand by. A única coisa que me incomoda, mas me incomoda profundamente, é esse nó na garganta que insiste em se manter ali, a espera de algo extravagante que o elimine, choro talvez?

Chorar não é pra mim, gritar também não. Eu gosto de sorrisos, gosto de alegria, gosto de paz, então por favor, se não for pedir demais, pode devolver a minha?

Eu não posso ao menos dizer "volta, sinto tanto sua falta" por que você nunca esteve realmente aqui, nem em corpo, nem em alma e com certeza, agora sim com total certeza, muito menos em coração.

Todas essas citações, todas essas palavras, tudo, eu nunca vou conseguir te falar, talvez por medo, talvez por falta de oportunidade, mas acima de tudo, por orgulho.

Meu orgulho é uma das melhores coisas que tenho em mim, pode soar meio arrogante, mas, acredite, é o que me mantém de pé e com um sorriso no rosto, mesmo que com lágrimas nos olhos.

Meu outro grande defeito que admiro muito e recuso a mudar é meu sarcasmo, meu companheiro, esse eu não largo nunca, é o único que me faz rir de qualquer coisa trágica, pois tudo tem seu lado cômico, certo?

Esse texto deixou de ser sobre você pra ser sobre mim. E, junto com ele, vou deixar de pensar em você pra pensar em mim.

É uma forma de libertação, é uma forma de te dizer tudo que eu sempre quis sem que você jamais saiba.

Esse aqui é o meu adeus. Que eu preparei pra mim e pra você!                               07/09/2011     11:15     


Vsf."                   

7 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 1

Passei horas brincando com o "canudo" que me entregaram no dia da nossa "formatura" e olhando praquele poster na minha parede. Finalmente havia me formado, mas parecia estar faltando alguma coisa. Lembro como se fosse ontem daquele meu último primeiro dia de aula.

Esse tempo todo ouvindo música e pensando no que faria da minha vida agora. Era meu primeiro dia de faculdade e eu nem sequer sabia o que iria vestir. Olhei pro lado, a janela estava aberta, o sol estava começando a baixar... hora de me mover.

Fiquei pronta e saí de casa sozinha, deixando todo mundo que tentou contato comigo pra trás. Hoje era o único dia da minha vida em que eu não estava me sentindo mal em estar sozinha. Entrei no campus e encontrei alguns conhecidos. Um oi de canto pra ser simpática e uma ignorada.

Mapa na mão, encontrei meu bloco. Primeira aula: Comunicação, História e Sociedade. Além de não ter a menor ideia do que fazer, também não tinha o menor senso de localização. Ok, me perdi no bloco. Possível? Bom, eu consigo!

Pelo menos encontrei a cantina. Nada sábia decisão, resolvi comprar um expresso pra me acompanhar enquanto não encontrava minha sala. 

- Perdida? - Me virei pra trás e pasmei. O que diabos aquele garoto estava fazendo no mesmo prédio que eu, na mesma faculdade e, mais importante: na mesma cidade? "Such a dush!"

- Não, mas parece que você está! - Sempre é bom fingir que está tudo bem.

- Estou mesmo. Qual sua aula agora? - Porque ele ainda insistia em ser legal? 

- "Como desviar do seu ex-colega idiota" e a sua? - FACEPALM!

- "Saindo de fininho", a qual colocarei em prática antes mesmo de saber sobre o que se trata!

Medo? Tinha motivos! Nunca soube quem era mais idiota: eu, por ter sido legal com ele e o ajudado com a minha melhor amiga ou ele por não tê-la valorizado como deveria. Ou quem sabe ela, por ter se cortado durante meses e afundado o nariz em drogas quando ele terminou com ela.

Exatamente por isso que ela não estava ali comigo. Tínhamos feito tantos planos praquele primeiro dia e ela nem podia estar ali. Estava internada em uma clínica de reabilitação. E a crise depressiva dela ainda não havia passado. Sem esquecer como ela foi parar naquela clínica...

Certo dia ela não atendeu o celular. Mas não foi uma ligação, nem um momento. Foram 87 ligações não atendidas, 21 mensagens não respondidas e milhares de toques de campainha. Consciente do problema, resolvi invadir. Seus pais haviam viajado sem saber da sua depressão e isso piorou toda situação.

Quebrei uma janela e entrei correndo, chamando por ela. Ouvi aquele "choro-soluçante" que eu já conhecia. A encontrei sentada debaixo do chuveiro sabe-se lá há quanto tempo funcionando, com uma gilete quebrada na mão, cheia de sangue.

Torniquete ainda no braço, seringas pra todo lado. Não sei quanto tempo fazia que ela estava ali, mas tive certeza de que tinha sorte por estar viva. Ou não. Agarrei algumas toalhas enquanto chamava uma ambulância, limpei tudo pra que ela não se encrencasse demais.

Como a conhecia bem, soube dizer onde guardava as drogas que ela não quis me contar. Não estava em condições de fugir, o que facilitou minha ajuda. Logo a ambulância chegou e os paramédicos me arrastaram pra fora de lá. Enquanto lutava contra eles, percebi que ela estava tendo convulsões. 

Sentei na escada da frente, abaixei minha cabeça e chorei por intermináveis minutos. Saí de lá apenas quando abriram a porta a chutes, gritando pra que eu saísse da frente. Passaram com a maca, a enfiaram dentro da ambulância e fecharam uma porta... perdi minhas esperanças de vê-la de novo depois disso.

- Hey, garota! É sua amiga? Você pode vir junto. - Um paramédico abriu a porta. Não hesitei, saí correndo e entrei. Fecharam as portas atrás de mim e aceleraram.

Continua...

Poesia de sono

Chá com biscoitos,
Poesia de sono.
Livros de cabeceira
Das poesias de sono

Doces sonhos,
Como poesia de sono
Cheiro bom incansável
De poesia de sono

Trinta mil anos teria daqui
Para amar sua poesia de sono
Tudo que o faria dormir,
Suave poesia de sono