Eu tinha mania de sempre deixar uma lista de músicas rodando o tempo inteiro. Antes de dormir estávamos escrevendo uns textos pra faculdade e estudando com alguns livros, quando começa a tocar uma música do The White Stripes, a tal onde diz "you don't know what love is, you just do as you're told".
Bruna me olhou e cantou essa frase com cara de "essa te descreve". Mas era pra ela também. E pra Mila.
- Exatamente isso, Ana. Nós não sabemos o que o amor é, mas vemos ele ao nosso redor e fazemos igual. Se tu nunca viu duas gurias juntas, tu não sabe que é possível essa forma de amor e tu não tenta arriscar... nós somos de cidades pequenas onde isso é tão criticado que quem é gay é super discreto, fazendo com que a gente pense que eles não existem.
- Aí nós não temos um exemplo pra seguir... só nos filmes e internet. Mas em tanto tempo, como poderia eu nunca ter sequer imaginado que estava apaixonada por ela?
- Porque talvez você tivesse sua mente fechada pra isso...
- É, eu sempre achei estranho, como se não funcionasse.
- Mas é amor, Aninha... acontece em qualquer forma.
- E se fosse tu?
- Hm, eu acho que também esconderia. Mas por medo de não ser aceita pela minha amiga depois de contar a ela...
- E nem nisso eu tinha pensado. Será que ela sente o mesmo por mim?
- Ela quase se matou por um garoto!
- Respondido...
- Mas não se matou... porque você estava lá!
- Ih, agora piorou tudo. Mas ela não quis que eu ficasse lá...
- ... pra que tu seguisse teu sonho!
- Ok, agora não sei de mais nada! Nem sobre ela, nem sobre eu mesma.
- Mas ainda dá pra descobrir.
- Não vou arriscar perder a amizade dela. Como eu disse, vai passar. Acho que desde que ela saiu do hospital, isso mudou um pouco.
- Em que sentido?
- No sentido "eu sou lésbica e estou apaixonada pela minha melhor amiga"...?
- Hm, finalmente admitiu? - Sarcástica igual Mila.
- Não!
Ambas de nós caímos na risada. Bruna queria que eu admitisse, mesmo que fosse brincando. Mas eu não achava que isso fizesse o menor sentido, afinal. E eu não alimentava esperanças de que pudesse "dar certo", caso fosse real.
- O que tu acha? - Bruna sempre parecia querer que eu entendesse tudo sem que ela precisasse explicar.
- Sobre o que?
- Sobre tu ser lésbica, oras!
- Acho que não sou, não...
- Já pôde dizer que amava um cara?
- Não.
- Ahá!
- O que?
- Mas tu ama a Mila...
- E o que tem isso?
- Nunca amou um cara, ama uma guria... isso diz muito!
- Pra mim não diz nada.
- E pra mim, diz que você é lésbica, Ana!
- E como eu vou saber disso?
- Testando!
- Tu quer dizer, ficando com uma guria?
- Exato!
- Eu não!
- Por quê?
- Não vou correr o risco... vai que eu acabo gostando? Não é fácil ser gay, nem hoje em dia!
- E ser feliz, é fácil?
Continua...
