No hospital, me fizeram ficar esperando numa sala que fedia igual ao depósito de agulhas da Mila. Lembro de observar cada médico que se aproximava dali, esperando que algum viesse falar comigo. Ninguém veio.
Quando perguntei sobre ela, me disseram que, por eu não ser familiar dela, não poderiam me dar nenhuma informação. Estava ali há mais de 27 horas seguidas. Sem comer absolutamente nada. O que não foi de muita ajuda pra minha amiga, porque eu acabei desmaiando e precisando dos meus próprios médicos.
Quando perguntei sobre ela, me disseram que, por eu não ser familiar dela, não poderiam me dar nenhuma informação. Estava ali há mais de 27 horas seguidas. Sem comer absolutamente nada. O que não foi de muita ajuda pra minha amiga, porque eu acabei desmaiando e precisando dos meus próprios médicos.
Acordei já me sentindo melhor, arranquei tudo aquilo que tinham colocado em mim e fui procurar Mila. Abri porta por porta, perguntando quem estava ali. Na quinta vez que fiz isso, um médico me parou, disse que eu estava assustando os pacientes.
Surtei com ele, perguntei se ele sabia o quanto eu estava assustada e se ele tinha a menor ideia de quando Mila deveria estar. Desorientada, sem ninguém pra apoiá-la quando ela mais precisava. Ele quis argumentar, mas não conseguiu. Me levou até o quarto dela.
Passei, ali, dias a fio, até que seus pais voltaram de viagem (porque eu não seria quem ia dizer pra eles o que havia acontecido com sua filha). Pais desligados, não perceberam o poço onde a garota havia se jogado. A ela, só restava eu, que era a única que conseguia aguentar seus dramas e fazer algo pra ajudá-la.
Negligentes, culparam a mim. Disseram de todas as formas que eu era má companhia pra ela, que nada disso teria acontecido se ela nunca tivesse me conhecido. Ignoraram o fato de que eu cuidara dela por todo esse tempo e era por minha causa que ela não estava morta. Ela não precisava deles.
Me expulsaram dali e fizeram com que eu não tivesse mais permissão pra visitá-la. Por pouco não entrei na mesma depressão que ela. No hospital, a "garota-drogada-que-se-cortava" era notícia. Saiu no jornal e na TV. Um dia um jornalista apareceu na minha casa me enchendo de perguntas sobre ela.
Não vi nenhuma notícia sobre o que eu falei, visto que critiquei todas as coisas que haviam dito sobre o caso. Claro, quando alguém os coloca contra a parede, fazem de tudo pra que isso não seja visto.
Acordei num dia com o telefone tocando. Era Mário, o pai da Mila. Ele me disse que ela havia acordado há dois dias e não parava de chamar por mim. Quando disseram pra ela que eu não estava mais autorizada a vê-la, ela surtou e ameaçou se matar. Por puro medo e pressão da filha, me chamaram no hospital.
Chantageei, fiz com que eles fizessem do meu jeito, que eu sei que era como Mila gostaria que fosse. Consegui que não me impedissem de vê-la na hora que eu quisesse, nem de ficar a sós com ela no quarto do hospital e até ganhei autorização pra passar algumas noites lá.
Depois de um tempo, ela começou a sofrer com a abstinência. "Sorte" por já estar no hospital, cuidamos disso também. Quando ela melhorou, eu a fiz prometer que passaria um tempo em reabilitação e tentaria melhorar do vício.
Com o tempo, as convulsões foram controladas e alguns remédios começaram a ser suspensos. Quando chegou a época de inscrição para o vestibular, ela insistiu que eu fizesse a minha e realizasse meu sonho de morar em outra cidade estudando numa federal.
Disse que não iria enquanto ela não tivesse melhorado completamente, mas ela também sabia chantagear. Fiz minha inscrição. Ela quis garantir que eu desse o melhor de mim e realmente passasse, pois sabia que eu iria fazer a prova apenas pra dizer que havia feito.
Passei no vestibular com o coração na mão. Não queria ir e ela estava me pressionando pra que eu fosse. Ela sabia quanto eu tinha lutado pra chegar até ali e não queria que eu desistisse por uma "besteira" que ela havia feito, como ela dizia.
Mila deu alta do hospital e foi internada na clínica pra dependentes químicos logo depois. Lá as visitas eram bem mais controladas e tornou-se difícil acompanhar sua situação. Na última vez que nos vimos, ela disse que se eu não me mudasse, ela desistiria de melhorar.
Em duas semanas, estava em outra cidade, vivendo outra vida. Na semana seguinte, no dia presente, estava eu naquele lugar que parecia incompleto. Além de tudo que eu sabia estar faltando, faltava minha melhor amiga. Aquela irmã que sempre esteve do meu lado.
Encontrei minha sala de aula, onde era possível ver alguns alunos sentados, conversando. Pareciam se conhecer. E eu não conhecia ninguém. Parei na porta e senti algumas lágrimas escorrendo. Uma garota parou ao meu lado.
- Precisa de um abraço? - Ela se parecia com Mila. Eu sorri e a abracei.
- Obrigada!
- Tudo bem, eu também estava precisando de um abraço. E... eu sei que não nos conhecemos, mas se quiser conversar, estou aqui. A propósito, meu nome é Bruna.
- Esse é um assunto complicado que já deves ter ouvido falar. Bom te conhecer, Bruna!
- E você tem um nome?
- Ah, desculpa, esqueci dessa parte... Ana.
- Bixo de Jornalismo?
- Exato. E tu?
- Também. Perdeste o trote, né?
- Estava sem humor... na verdade, nem queria vir pra cá.
- Bom, teremos as mesmas aulas hoje... se quiser, podemos tomar um café depois e você pode me contar o que te incomoda, se quiser.
- Hm, posso tentar. Mas tomar um café está confirmado, então.
Foi terminar a frase e o professor chegou, todo bem humorado dando boa noite. Não sei porque, mas gostei dele logo de cara. Senhor de meia idade, com cara de "de bem com a vida". Chegou fazendo piada, o que melhorou um pouco meu humor.
Bruna e eu nos sentamos numas classes no meio da sala. A presença daquela garota desconhecida estranhamente me fazia sentir melhor, como se ela fosse "a Mila que estava faltando".
Continua...
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