Logo nos arrumamos pra dormir, pegamos nossos notebooks, conversamos mais um pouco e dormimos. Ambas de nós havíamos ido pra lá com dinheiro suficiente pra passar algum tempo sem emprego e, enquanto isso, procuraríamos um.
Na manhã de terça feira, visitamos várias agências de emprego, deixamos currículos em empresas diferentes, jornais, revistarias grandes, livrarias e algumas outras lojas. Tínhamos os mesmos gostos, então íamos sempre para os mesmos lugares, pensando o mesmo.
A conversa de ontem à noite continuou e acabei contando a história inteira pra ela. Me sentia confortável ao lado dela, da mesma forma estranha que me sentia com Mila. Dividíamos segredos sem nos conhecermos, mas ao mesmo tempo, parecia fazer anos que nos conhecíamos.
Em tão pouco tempo, desenvolvi um senso de proteção imenso sobre Bruna. Ela era um pouco mais velha que eu, mas sempre fora igual. Mila também era mais velha, o que não me impedia de ter esse senso protetor. Eram duas crianças que precisavam dos meus cuidados.
Estava imersa em pensamentos dentro de uma livraria que mais parecia o paraíso, quando Bruna chega saltitante com um livro volumoso nas mãos.
- Já leu esse? - Toda sorridente, igual criança pedindo pra mãe se o doce que ela encontrou no mercado é gostoso.
- Claro que já! Que seria eu se não tivesse lido Caderno H? Mário Quintana e Vinícius de Moraes são meus heróis-poetas!
- Meus também!
- E da Mila também... - Falei entre os dentes. Sorte que Bruna não me ouviu.
- Vou comprar um livro. Quer me ajudar a escolher?
- Que dúvida! - Procuramos pelo livro perfeito e chegamos ao caixa com oito opções diferentes. Foi difícil escolher, mas deixamos a livraria com O Guia de Sobrevivência aos Zumbis e O Livro Secreto do Banheiro Feminino.
Saímos da livraria e fomos ler no parque. Fim de tarde, sol começando a se por, quase hora da aula. Aproveitamos os minutos pra comprar as coisas importantes que não tínhamos trazido, como chimarrão. Preparamos no parque mesmo, colocamos um "rabo quente" e esquentamos a água.
Alguns minutos de leitura e chimarrão no parque, voltamos pra casa. Teríamos sempre as mesmas aulas e dividiríamos um quarto por um bom tempo. Esperava que fosse um bom sinal. Quando estávamos saindo para a aula, Mila me liga.
- Como vai, universitária? - Mais do que imediatamente, abri um sorriso de orelha a orelha.
- Melhor agora! E tu? Estou morrendo de saudade!
- Estou bem, vou sair daqui em pouco tempo, já nem tenho mais crises, as convulsões não voltaram mais, já suspendi quase todos os remédios... falta pouco agora!
- Tens ideia do alívio que é saber disso? Quando terminar, vem morar aqui, ok? Conheci uma garota super legal aqui, podemos dividir um apartamento.
- Que isso? Já me substituiu? - Ainda bem que não falei que Bruna se parecia com ela.
- Claro que não, Mila! Lembra que tu não é substituível?
- Ahn, ok... vou te ligar umas três vezes por semana pra garantir que ainda tenho o posto de melhor amiga no seu coraçãozinho.
- Esse posto é feito no seu formato, não tem mais ninguém que caiba nele!
- Ótimo, melhor que seja assim mesmo.
Fiz sinal pra Bruna que fôssemos pra aula enquanto eu falava com Mila, pois não queria perder o tempo que ela tinha pra poder falar comigo. Era ótimo saber que ela estava melhorando e que poderia sair de lá em breve.
A caminho da sala, esbarrei em Pedro novamente. Ele parou na minha frente, como se esperasse que eu falasse com ele. Enfatizei que era Mila quem estava falando comigo no celular e mesmo assim ele não saiu dali. Bruna entendeu o que eu queria e ameaçou de bater nele se ele não sumisse da nossa frente.
Bruna não fazia o tipo que impunha medo, muito menos fisicamente. Mas funcionou, ele saiu. Ela se mostrava cada vez mais parecida com Mila, inclusive na coragem e na mania de impor respeito. Olhei pra ela e sorri em aprovação. Ela piscou pra mim com ar de "te salvei". Tive de rir.
Continua...
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