Páginas

7 de junho de 2012

Sessenta dias no paraíso.


Ela ia se aproximando da porta enquanto eu a observava, pensando comigo, esperando que aqui fosse seu destino. Ela parou em frente à porta. Suspirei, abri a porta e a recepcionei, nada mais que procedimento padrão.

Cabelos escuros que criavam um contraste incrível com sua pele pálida, olhar castanho durão, mas um rosto delicado e suave que quebrava toda agressividade que a forma como ela me ignorava estivesse passando naquele momento.

Enquanto ela esperava que eu a ajudasse com o que ela precisava, eu imaginava de onde conhecia aquele rosto, aquele nome, aquela voz. Sondei minha mente por intermináveis minutos, mas não havia nenhum arquivo sobre ela ali.

O sorriso mais lindo que eu já havia visto. Ela e uma amiga (mal notei a amiga) adentravam a escola onde eu trabalhava, vestindo camisetas de duas das minhas bandas favoritas (uma delas estava tocando no local nesse exato momento).
               
Foi instantâneo. Eu a olhei pela primeira vez e soube que ela era minha. De alguma forma, ela era. Eu torci pra que minha colega obtivesse sucesso e realmente a matriculasse na escola. Desde então, nunca mais duvidei de suas habilidades.
               
Ela foi lá pela segunda vez acompanhada dos pais pra finalizar o contrato. Jamais me esqueço do colar anarquista que me tomou toda atenção. Nem notaria que ela tinha uma aliança ou uma corrente com um nome que obviamente não era o dela...
               
Prova inicial do curso, eu costumava corrigir. “O que você gosta de fazer no seu tempo livre? R.: Ficar com meu namorado”. Merda! Como é que aquela garota teria um namorado? Jurava pelo mundo inteiro que ela era super lésbica...
               
Mas não deixava de ir lá quase todas as tardes e passar um bom tempo conversando comigo, respondendo minhas piadas de peão de obra, brincando comigo e (mesmo que ela nem percebesse), me dando a maior moral do mundo.
               
Eu sabia todos os horários em que ela teria aula, sabia quem daria a aula, sabia exatamente que hora ela chegaria e tinha certeza de avisar a professora pra prestar atenção nela.  E elas realmente prestavam.
               
“Verdade, ela é realmente a garota mais linda e fofa”, era o que costumavam me dizer. Sempre soube que eu tinha toda razão em ter uma queda gigantesca por ela.  Ela gostava das mesmas bandas que eu e aos poucos começou a me contar muito sobre ela.
               
Até tentei procurar por ela em todas as redes sociais disponíveis, mas nem sinal. Enfim chegou o dia que ela comentou sobre voltar a usar Messenger. Pra falar comigo, obviamente. E foi naquele dia que tudo realmente começou.
               
As trovas já eram mais óbvias, as respostas, então, ainda mais. A forma como nos olhávamos (ou só parávamos uma em frente à outra) já deixava claríssimo que tinha alguma coisa ali que ainda não havíamos descoberto.
               
Sábado de ensaio, ela não apareceu. E eu, como toda pessoa-que-sempre-leva-bolo, deveria estar super acostumada com isso. O suficiente pra não me importar com isso. Mas eu me importei. Isso foi surpresa; inclusive pra mim.
               
E eu comecei a sonhar com ela. Passei a deixá-la determinar meus trajetos, pra onde eu ia e o que fazia, porque agora ela era a prioridade. Mesmo que ela nem fizesse ideia. Eu corria a cidade pra passar vinte minutos com ela.
               
Mas enfim, ela ainda tinha um namorado. Sábado seguinte ela apareceu. Com o namorado. Senti um nó se formando no meu estômago. Era realmente incômodo ver os dois juntos. E, bom, não é ciúmes (juro), mas eles não pareciam um casal.
               
Mesmo estilo, ok, mas ele era... um cara. E ela, lésbica. Enfim, eles não pareciam mais do que bons amigos. Minha banda tocava minhas bandas preferidas, que, casualmente, eram as dela também.
               
Não consegui parar de olhar pra ela um instante sequer naquele dia. Ela ali, ao meu lado, e eu não poderia nem sequer me sentir confortável de olhar pra ela (o medo de apanhar do namorado dela me consumiu por inteiro naquele tempo).
               
Nós duas sabíamos que não poderíamos ficar sozinhas por muito tempo, não queríamos (por um lado) que algo acontecesse. Afinal, ela tinha MESMO um namorado. Mas isso não impediu que nos aproximássemos o suficiente pra chegar no conforto.
               
Trocávamos mensagens no celular, passávamos o dia inteiro dando um jeito de estar sempre em contato. E por algum motivo, eu me deixei apaixonar por ela, mesmo que soubesse que havia muito no nosso caminho.
               
Mas afinal, eu sempre soube que ela era minha de alguma forma. Eu só não sabia como. Passamos uma manhã de sábado juntas. Era feriado, não precisei trabalhar; mesmo assim, acordei cedo só pra poder vê-la.
               
Já me sentia a vontade pra abraçá-la mais do que amigavelmente, mas ela ainda tinha um namorado. Quando nos despedimos, ela foi pra casa dele. Bom, não preciso deixar ainda mais claro que morri de ciúmes e medo o dia inteiro.
               
No final da tarde, logo depois que terminamos o ensaio, eu liguei pra ela. Ela disse que tinha uma surpresa pra mim. De certa forma, eu soube. Ou, pelo menos, imaginei e desejei que fosse verdade.
               
E realmente, era o que eu queria que fosse. Ela havia conversado com seu namorado, contado a ele o que estava acontecendo. Ganhei o bônus de ele nem querer me caçar por tentar roubar a namorada dele...
               
Domingo era dia de tocar violão no parque da cidade, sentar na grama, comer porcaria, falar besteira e fumar um baseado com uns amigos. Ela não pôde me ver nesse dia. Segunda-feira no final da manhã, ela foi até minha casa.
               
Nessa segunda, descobri que meu avô estava hospitalizado em estado grave no litoral. Como se não bastasse ele estar doente, eu ainda não poderia vê-lo. Meus pais viajaram de emergência na terça-feira e eu estava quase entrando em desespero.
               
Terça à tarde, no trabalho, não consegui me conter e chorei tudo que tinha pra chorar. Mandei uma mensagem pra ela, dizendo que não estava bem e que só queria um abraço dela. Recebei como resposta “em meia hora estou aí”.
               
E ela realmente foi. Meu chefe estava na cidade, então eu não poderia receber visitas no horário de trabalho. Ela foi até lá pra me dar um abraço e passar nem cinco minutos comigo.

Aquele foi o dia que eu tive certeza que eu a amava demais. E melhor, ela me amava de volta. Quarta-feira foi o primeiro dia do meu intervalo no trabalho e ela passaria comigo. Conseguimos passar alguns minutos juntas, até que minha mãe me ligou.

Estavam na cidade com meu avô, logo perto de onde eu estava. E queriam me ver. Nisso começa a chover e cair o mundo. Consegui vê-lo quase bem, o que foi um grande alívio. E aproveitamos pro banho de chuva.

Tivemos que passar na minha casa, trocamos de roupa correndo e voltamos para o meu trabalho. Era horário da aula dela, ela estava vestindo minhas roupas. A cara das pessoas que perceberam isso foi nada menos que impagável!

Estávamos juntas enfim. Na quinta-feira dessa mesma semana, meus pais tornaram a viajar. Sábado passamos o dia juntas; e cada vez eu tinha mais certeza que ela pertencia ao meu lado.

Ela trouxe consigo uma onda de coisas boas. Reaprendi o significado de valores, de amor fraternal, de família. Se tornou rotina passar meus intervalos com ela, mandar mensagens com trechos de músicas fofas...

Isso fazia parte do meu dia; fazer ela sorrir me fazia sorrir. E ela realmente fazia parte da minha vida, não só das partes boas, mas das merdas também. Dividíamos os bons momentos, os ótimos e os brigadeiros.

Eu a conhecia, eu estava próxima dela de uma forma que não estava de mais ninguém. Confiava nela pra tomar decisões importantes, pra dividir meus medos, meus anseios, minhas tristezas; mas principalmente, pra dividir tudo que eu tinha de melhor.

Algumas grandes merdas começaram a acontecer e tornar a situação um tanto quanto complicada. Um dia depois do meu aniversário ela disse que precisava conversar comigo. Não entendi a situação, mas aceitei de qualquer forma.

Afinal, minha intuição (a mesma que dizia que ela era minha) dizia que ela precisava desse tempo pra mente, sem se preocupar com um namoro. Chorei. Muito. Não sei se algum dia já havia chorado mais.

Três dias depois, num domingo à noite, agi da pior forma possível com ela, até que ela acabou me contando os motivos que levaram ao nosso término. Nesse dia, bati o recorde de choro.

Desde então, minha intuição volta a falar comigo; dessa vez, ela deixa claro que não há com que me preocupar, que as coisas vão se resolver, tudo vai voltar ao seu lugar. Assim como ela, que vai voltar a estar ao meu lado.

Mesmo que não estejamos oficialmente juntas, não nos deixamos distanciar. Houveram alguns altos e baixos, mas ainda conseguimos manter os altos em maioria. E enfim, não há como negar que dificilmente aguentamos a mini distância entre nós.

Aquela saudade que bate, aquela vontade de chorar, aquele sentimento “abstinência”, tudo isso é breve. Não inexistente.  Por mais que muitas coisas estejam acontecendo agora, muitas decisões a serem tomadas, ainda há a tranquilidade.

Por algum motivo ainda desconhecido, se tudo parece desabar agora, ainda tenho a calma de saber que as coisas vão mudar, vão voltar a nos favorecer. Não sei de onde vem essa certeza, não sei se posso confiar inteiramente nela.

Mas afinal, se essa certeza existe dentro de alguém tão desconfiada quanto eu, acho que não é assim tão impreciso. Ela está ainda ao meu lado, ainda comigo, mas de uma forma diferente. Talvez o que dá pra se chamar de “não por inteiro”.

Então, depois de amanhã completariam dois meses. Pois é, parece bem mais. E já tem algum tempo que eu precisava contar essa história, mesmo que sem muitos detalhes, pra que eu tivesse ela escrita também, minha. Eternizada.

Anseio pelo dia que as coisas voltem ao normal. Prometi a ela que estaria aqui o tempo inteiro, esperando por ela a cada segundo; e estarei. Maybe she’s really the one, and I’ll just lay here by her side and wait for it, so we can be happy together.

So happy together.

Nenhum comentário:

Postar um comentário