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8 de agosto de 2011

O cachorro é mais esperto - Parte 3

Alguém tinha dado duas voltas ao chavear o portão do prédio. E só uma pessoa faria isso na manhã de um sábado: Julia. Ela tinha me ligado há alguns minutos avisando que chegaria em casa cedo, mas não imaginei que seria tão cedo. No terceiro lance de escadas, passei por Paula e logo atrás dela vi a vizinha do 201 descendo. De novo, Paula? Será que ela realmente não se liga ou faz isso pra me provocar?

Milhões de pensamentos começaram a gritar na minha cabeça. Era uma festa de possibilidades. Talvez a garota tivesse dormido lá, talvez tivesse ido pela manhã... ou talvez Paula tenha voltado do show tão cedo por causa dela. Mas aí o caso seria sério. E seria pior ainda se ela tivesse voltado pela garota e esta tivesse passado a noite lá. Todo mundo sabe o quanto Paula odeia que as garotas que ela fica passem a noite lá.

Entrei em casa um tanto distraída, imersa em pensamentos dos quais eu queria me livrar de todas as formas. Julia estava sentada no sofá mais próximo à porta e, como sempre, mexendo no notebook. Talvez ela fosse a única de nós que não perdeu o vício em internet depois que se mudou pra cá. Claro, ela também foi a única que não adquiriu nenhum outro vício. 

Passei por ela de cabeça baixa, apenas cumprimentei. Sabia que ela estava tão chocada quanto eu, mas ela sabia disfarçar. Pela forma como ela me olhou, pude perceber que ela sabia exatamente o que eu havia visto alguns minutos atrás. Apenas andei até meu quarto e me joguei na cama. Involuntariamente, senti algumas lágrimas começarem a escorrer. Isso, Alexis, chora pela Paula de novo. 

Eu havia conhecido essa garota fazia um bom tempo, sabia todas as manias dela e a conhecia como a mim mesma. Ela não muda, mas às vezes parece que ela tem outra personalidade. Paula sempre fora gentil e preocupada com os sentimentos dos outros, mas porque diabos ela estava fazendo isso agora? Não poderia ser pra me machucar, mas era impossível que ela não tivesse percebido as minhas intenções.

Talvez ela realmente estivesse muito afundada na sua própria vida e limitada demais pra perceber o que tanta gente ao seu redor sentia por ela. Mas, caramba, precisa ser muito desligada! Tudo bem, eu conseguiria me recuperar daquilo, assim como estava me recuperando das milhares de garotas que ela sempre traz pra casa. O que é que essa garota tem?

Ela nunca faz nada pra encontrar alguém e em todo lugar que ela vá, sempre tem milhares de garotas que a queiram mesmo conhecendo a reputação dela. Dispensa quem quer, escolhe a dedo. Ainda assim, sempre tem as garotas que fazem seu gosto. Não consigo entender essa coisa que faz todo mundo gostar tanto dela. Canalha, descomprometida, indiferente na maior parte das vezes. Não faz o tipo "amor de pessoa". 

Seria melhor pra mim se eu ocupasse minha mente com algo que não começasse com "P" e terminasse com "aula". Me levantei e fui até a sala, onde Julia estava ainda fumando... e claro que eu fumaria também. Seria ótimo me sentir bem agora. Quem sabe chapada eu conseguisse pensar mais claramente e elaborar minhas críticas e argumentos. 

Desde que fossem concretos, Paula teria de concordar. E claro que eu teria razão.

Continua

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