Páginas

16 de agosto de 2011

O cachorro é mais esperto - Parte 5

Estava pensando nela desde o primeiro segundo que acordei. Mal abri os olhos e Paula inundava minha mente. O que essa garota tinha pra que eu me apegasse tanto a ela? E o mais importante: o que essa garota fazia com a minha cabeça? 

Sabia que ela estaria em casa e pensei em ligar. Sem me importar com o que ela diria, fui procurar meu celular e... ótimo, tinha deixado na casa dela no dia anterior. O fato de meu celular e eu não termos um longo relacionamento de afetividade me faz esquecê-lo em qualquer lugar. Principalmente quando ele cai do meu bolso enquanto a vizinha me distrai.

Me arrumei rápida e cuidadosamente e subi as escadas. Respirei fundo umas cinco vezes e toquei a campainha. De repente ela aparece na minha frente com aquele cabelo todo bagunçado, cara de "usei todas as drogas possíveis ontem e bebi até o suco pancreático", a mesma roupa que eu a tinha visto sair ontem à noite, suspensório caído e camiseta preta.

Ela conseguia ficar linda mesmo da forma mais deplorável possível. Estava apenas de meias nos pés, o que era engraçado e fofo. E esse último pensamento me fez perceber: eu estava muito apaixonada. Ela me olhou, escorou a cabeça na porta e meio que se encolheu de dor. Era a ressaca.

- Bom dia. - Que sorriso!

- Desculpa te acordar, mas percebi que deixei meu celular aqui ontem e, como você saiu... - Por que diabos eu não disse que só percebi pela manhã? Talvez agora fosse ficar mais estranho do que se eu tivesse dito a verdade.

- Ah, ok, entra aí, vamos procurar! Vou pegar o meu pra ligar pro seu. Pode ir procurando por aí, fica a vontade. - Tinha um certo medo de procurar meu celular por ali, até porque não sabia nem por onde começar. E, bom, elas não eram as garotas mais organizadas...

- Han... que isso? - Coisinha curiosa aquela... poderia ser um super pregador de roupas ou alguma outra coisa estranha que eu não fazia ideia pra que servia. Mas me fez rir bem de canto.

- É um capotraste, se usa pra mudar a tonalidade da guitarra... um dia te mostro como. - Ela sorriu. O que será que ela estava pensando? - Estou ouvindo seu celular! - Que droga, poderia demorar mais, não?

Ela parecia incomodada comigo estando ali. Bom, o apartamento estava uma bagunça inexplicável mesmo. Tinha cinzeiros por toda parte, um cheiro de cigarro bastante notável e alguns incensos acesos em vários cantos do apartamento. Será que elas realmente achavam que funcionava pra disfarçar o cheiro de álcool e maconha?

- Achei... - bom, legal que eu tinha encontrado meu celular dentro do pote de maconha... mas ruim que agora eu não teria outra desculpa pra ficar.

- Eu meio que não lembro de ter visto seu celular ontem. Acho que as garotas perceberam que era seu e resolveram armar pra mim... desculpa por isso. - Ela não pareceu querer se desculpar.

- Já imaginava que vocês queimavam. Gosto também. - Achei melhor deixar claro que elas não estavam em problemas e podiam confiar em mim. - Uma hora dessas podemos fazer um bolo se vocês quiserem. - Meu sonho com maconha. E adoraria que fosse com Paula.

- Quer queimar um agora? - UAU! Me sentei ao lado dela no sofá, que bolou um pastelzão em tipo... dois minutos. Deu os primeiros pegas e me passou o baseado, sorrindo. Em silêncio, queimamos aquele beck até chegar quase na metade, que foi quando nos olhamos e, bom, ela me beijou.
Cinzeiro ao lado, que sorte! Apaguei num movimento e deixei por ali. O trajeto foi o de sempre: o sofá onde estávamos, corredor, e... ok, não sei quando isso aconteceu, mas a porta do quarto estava fechada. Com nós dentro dele.

Foram alguns bons e longos "minutos" até que alguém chegasse. Claro que alguém chegaria. Foram duas batidas e Paula levanta tão rápido que me fez rir. E muito. 

- Não entra! Han... quem é? - Ela disse toda encabulada e fez uma cara de dúvida que precisei segurar pra não agarrá-la de novo.

- É a Julia, fica tranquila aí, mas só aviso que as gurias vão chegar logo. - Ah, ótimo, já acabou a diversão.

- Ah, ok... - Ela me olhou com cara de criança que fez besteira. Como o papo com a Julia já tinha acabado, nem tentei me segurar. 

Depois de algum tempo, acendemos uns cigarros e ficamos por ali conversando. As circunstâncias indicavam que seria melhor nos arrumarmos antes que as outras garotas chegassem. E, já que Alexis era apaixonada por Paula, achei que seria mesmo melhor se ela não nos visse juntas. Porque eu sei quanto dói quando elas resolvem voltar aos velhos tempos e eu vejo.
Nos vestimos e fomos até a sala, onde Julia estava sentada re-acendendo nosso baseado. 

- Bom dia pra vocês. - Ela sorriu. Pareceu sarcástica.

- Bom dia, Julia -  dissemos juntas. Seria algo importante se não fosse comum. - Já volto. Se as gurias chegarem, me esperem pra decidirmos o que faremos hoje, certo? - Paula disse pra Julia, soando séria, talvez não muito confortável com a situação. Bom, sabendo que elas já tiveram rolos, daria pra imaginar o por quê do desconforto.

- Sim, sim, te esperamos. Mas não demore, ok? Esteja de volta aí por 11hs, no máximo. Pretendemos sair cedo. - Ela e Darla eram quem colocava ordem no lugar. Claro, Alexis e Paula eram duas crianças que só consideravam a diversão. 
- Perfeito! - Paula sorria quase tentando disfarçar algo. Fez sinal pra que saíssemos e nos despedimos "de cabeça" de Julia. 

Estávamos descendo as escadas quando Alexis passou por nós. Nos cumprimentamos "de cabeça" também e continuamos descendo. Ela abaixou a cabeça e subiu. Nada bom. 

Continua

Nenhum comentário:

Postar um comentário