Mal pude me mover para o lado quando senti uma sombra atrás de mim, foi quando ele esbarrou na minha mochila. Um senhor de talvez uns 65 anos... ou mais, quem sou eu pra julgar? Ele tinha cabelos grisalhos, olhos profundos e azuis, um tanto quanto caídos.
- Perdão, menina! - Olhei pra ele de forma saudosa e deixei claro que não estava incomodada.
Ele tinha poucas rugas, mas seu rosto marcava seu riso. Foi quando ele olhou pra mim e sorriu. Deixei um sorriso escapar quando percebi que estávamos vestidos de forma bem parecida. Se pôs ao meu lado em frente àquela sessão de livros.
- Confessa, menina, você não veio comprar livros, veio?
- Não, senhor! Eu vim ter uma epifania!
- Quer revolucionar a mente?
- Exatamente! Alguma sugestão?
- Eu! - Dito isso, ele sorriu mostrando todos os dentes, estufou o peito e soltou uma gargalhada. Não pude evitar rir de volta. A sugestão de que ele poderia me causar uma epifania se tornou um tanto quanto tentadora.
- Mas que audácia! E como é que o senhor pretende causar uma epifania na minha mente?
- Sentemos por alguns minutos, quero lhe contar uma história. - Terminou a frase dirigindo-se à uma mesinha redonda no canto da livraria e me convidando com um gesto. Parecia convicto de sua capacidade, então o segui.
Sentei em frente à cadeira que ele escolheu, demonstrando que estaria atenta ao que ele teria pra me dizer. Ele me olhou e sorriu. Será que ele tinha alguém que o escutasse? Esperava que sim, ele parecia sábio e divertido.
- Menina... posso te chamar assim? - Fiz sinal positivo com a cabeça e ele prosseguiu - Olhe quantas pessoas passam por aquela porta a cada dois minutos. Apenas observe.
Observei a cena, realmente era muita gente! Aquela loja era gigantesca - talvez a maior da cidade - e, em momento algum se encontrava "vazia". Sempre, no mínimo três pessoas disputavam o lugar na frente de uma estante. Ele me observou pensativo e prosseguiu:
- A cada instante, as pessoas se esbarram nessa porta sem nem sequer olhar pra cima. Aqui dentro, os gostos em comum fazem que pisem nos pés umas das outras, mas elas nunca olham nos olhos. Elas procuram pelas mesmas coisas, muitas vezes dividem as mesmas ideias... mas nenhuma delas parece se importar com isso.
Ele olhou ao redor, como se procurasse por alguém pra servir de exemplo ao seu pensamento. Olhou cuidadosamente pelas estantes de Ficção Científica, olhou ao redor dos livros biográficos, religiosos e baseados em fatos reais. Percebi seu olhar se demorando na estante de Auto-Ajuda.
- Olhe aqueles dois... - ele disse, apontando pra um senhor de uns trinta e poucos anos e uma garota que parecia ter a minha idade, mais ou menos uns vinte e três - ele segura um livro sobre como ser o homem dos sonhos de uma mulher. Ela segura um sobre dificuldades sociais.
Parei pra olhar bem e, realmente, aquele senhor tinha uma ótima visão. A garota parecia bastante tímida, retraída. O rapaz era o tipo que provavelmente nunca esteve num relacionamento. Olhar pra eles e pra forma que agiam e se distanciavam deixara óbvio.
- Preste atenção, menina, eles vão se esbarrar, abaixar a cabeça, pedir desculpas e se distanciar... olhe só, observe! - realmente, ele tinha razão, foi exatamente isso o que aconteceu nos próximos quatro segundos. Nem ao menos trocaram um olhar.
- Me diga, menina, me diga por que as pessoas são tão individuais, mesmo quando buscam ser mais sociais? Olhe, os dois procuram por espontaneidade, por conversas interessantes... seja como um amigo ou como um parceiro. Eles procuram uma mudança pra eles mesmos. Então, por que não começaram agora?
Ok, ele tinha um ótimo argumento. Estava começando a me tornar fã daquele senhor de olhos azuis, vestido da mesma forma que eu. Ele realmente era sábio. Ainda olhávamos aquela dupla de hominídeos. Talvez ele imaginasse o mesmo que eu, talvez ele se perguntasse quantas pessoas já fizeram o mesmo.
- E agora, menina, o que você vê?
- Eu os vejo olhando um para o outro discretamente, certificando-se de que o outro não percebeu.
- Exatamente... enquanto isso, eles poderiam estar ensinando um ao outro o que eles estão buscando num livro, no que alguma terceira pessoa colocou em algumas páginas. Estão depositando sua confiança no desconhecido, ao invés de olhar ao lado.
- Acho que entendi o ponto...
- Isso, menina. Olhe ao lado, pare de contar com o desconhecido. Se quiseres uma epifania, olhe ao lado que ela estará ali. O que você não conhece não pode fazer muito mais por você. Procure pelas respostas curtas, pelo breve.
- Acabei de encontrar minha epifania.
Trocamos um olhar satisfeito, como se aquilo tivesse feito um milagre pra ambos de nós. Sorrimos um para o outro e continuamos a observar aquele fluxo intenso de hominídeos, selvagens, tentando ser discretos quanto ao que procuravam ou sobre sua visão das coisas.
Ah, a mente humana... tão engraçada, tão simples, tão... estranha.
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