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29 de junho de 2011

As coisas que você pode dizer só olhando pra ela

Não sei porque, mas o clima mal resolvido -agora resolvido, finalmente- me deu vontade de escrever sobre essa garota. A garota que tem medo de sentir.

Me pergunto que fizeram com seu coração, que tem medo de tudo que envolva sentimentos alheios. Por um momento me deu uma certa vontade de cuidar desse coração, curá-lo, fazê-lo ver tudo que eu vi quando foi minha vez de experimentar isso. Mas assim como ela tem medo de sentir, envolvimentos desse patamar se tornam quase impossíveis. Boicote.

Reciprocidade, afeto, relacionamentos, tudo é complicado. Mas pra ela, mais complicado ainda. Psicólogos diriam tantas coisas sobre isso... das quais todas discordo. Causas, motivos, razões, ela tem as dela. Eu tinha as minhas. Sim, são ótimas razões. Por algum motivo, construímos uma muralha ao nosso redor. Ninguém entrando, não temos problemas e não corremos riscos de sair com machucados.

Essa garota, tão diferente, teima em ser indiferente. Isso já se tornou tão normal pra ela que é involuntário, ela É indiferente, não tenta ser. Lembro de quando todas as coisas boas foram mantidas longe de mim por essa muralha que eu mesma construí. Lembro de precisar de ajuda pra remover a minha armadura, pra me deixar levar por alguma emoção, só sentir. Foi difícil, trabalho duro.

Depois de alguns retoques no meu velho coração e eu estava pronta pra ser diferente. E eu me sinto melhor assim. Pensando nisso, quis que ela soubesse como é sentir assim. Talvez o mundo seja mais cruel com quem sente do que com quem se fecha pra isso, mas tudo se torna tão bom, diferente, delicioso... quando você é capaz de sentir. Somos as únicas criaturas capazes de sentir e devemos nos aproveitar disso.

Engraçado como o medo nos reprime, nos coloca no meio de situações complicadas e nos intima. Forte o suficiente pra vencer esse medo. Eu me tornei. A sensação disso é maravilhosa e é algo que eu gostaria que todos fossem capazes de sentir também. Essa garota, em especial.

Não entendi porque ainda, mas talvez seja culpa da "filantropia", essa garota me dá vontade de mostrar pra ela todos esses sentimentos bons que a gente tem quando se solta, quando se deixa viver. Respeito que ela tenha receio em se deixar sentir, porque o mundo é mesmo cruel com quem sente. Altruístas, sem pensar em si, o mundo nos destrói. De alguma forma, sinto que ela é altruísta. Mas ela criou essa muralha que reverte tudo em egoísmo.

Quero que ela experimente esse mesmo sentimento que eu tenho. Simpatia. Que não importe como alguém te machuca, mas se você perceber que este tem estado mais machucado que você, esquecer os ressentimentos e abraçá-lo, consolá-lo. E quando ela é assim, durona, sem sentimentos, indiferente, me dá vontade de abraçar ela e tentar fazer ela sentir algo próximo do que eu sinto.

Felicidade incondicional, apreço e afeto por todos da mesma forma, carinho. Quero que ela consiga sentir isso o tempo todo, assim como eu sinto. Capacidade de esquecer um problema pequeno, torná-lo insignificante, capacidade de chorar quando necessário, de demonstrar amor não só quando ela está fazendo um trabalho voluntário.

Quero que ela consiga mostrar que ela realmente sabe o que é amor.

E tudo que a reprime é o medo de se machucar. Alguém um dia a machucou e suponho que não tenha sido superficial. Eu não quero exatamente saber o que aconteceu pra que ela reprimisse tanto sentimento bom dentro dela, mas eu quero ajudar a curar isso, mudar. Afinal, o mundo é cruel de qualquer forma. Vão nos esfolar de todas as maneiras possíveis, então, porque não sentir?

Porque as cores ficam mais nítidas, as pessoas, mais amáveis, a vida, mais suave, os problemas ficam menores. Sentimentos são tudo aquilo que precisamos pra nos manter sob uma rocha, pra nos levantar quando as coisas ficam feias, pra erguer a cabeça em meio à lagrimas e dizer que não importa, que somos fortes pra superar.

Será que, aos poucos, consigo ajudar esse medo todo sumir? Será que um dia ela vai provar dos bons sentimentos que eu provei? Já que amar é um verbo intransitivo, não precisamos de condições, motivos e complementos pra isso. Só amamos.

Será que esse coração é capaz de amar de novo?

28 de junho de 2011

É só uma questão de costume

Em filmes, o mocinho sempre salva a mocinha e eles sempre vivem felizes pra sempre. Filmes. São apenas histórias do que nós, reais, gostaríamos de viver. Eles infelizmente não existem e raramente alguma história dessas se torna real.

Num mundo onde "cão come cão", a lei do mais forte é o que prevalece. Nesse mundo não há espaço pra você ser "alguém que presta", porque a sociedade vai pegar seu coração, arrebentá-lo, reduzí-lo a pedaços e às vezes nunca mais te devolver.

Quantas vezes tivemos nossos corações despedaçados por nos importar demais? Ou por confiar demais? O tempo todo, o mundo tende a nos machucar, nos devorar e nos massacrar. Bons corações são facilmente machucados, então, não devemos construir bons corações dentro de nós, mas corações fortes.

E que são corações fortes? São aqueles que se acostumam com a dor, aqueles que, por mais que em sofrimento, ainda sabem ser bondosos, gentis, generosos. Diferentes dos maldosos, que não se atingem com a dor do próximo, não se sensibilizam, corações fortes são sensíveis, amistosos, mas são resistentes. Resistentes às pressões diárias da sociedade, às provocações.

Meu coração não é forte. Nos tempos de mudança, ganhei um coração bondoso, gentil, suave, amistoso e sensível. Mas forte... não. Eu me afeto com absolutamente tudo, busco a dor alheia e a trago pra mim. É difícil ver isso todos os dias e não poder fazer muito pra mudar.

Minha alegria depende de pessoas, minha tristeza é criada por elas. Meu coração nas mãos das pessoas que me cercam. Doloroso, porque de vez em quando eles deixam cair, pisam em cima. Mas sempre tem alguém que pega, limpa, cuida, melhora.

E eu sorrio sim o tempo inteiro. Por dentro? É uma bagunça. Ainda não encontrei meus próprios sentimentos lá dentro, então escolho os sorrisos que eu mais gosto e os reflito em mim. Uma palavra me destrói, mas um sorriso me reconstrói. Enquanto isso, eu me mantenho reprimindo atitudes que me afetam pra que a dor que eu sinto não se torne maior do que a dor que eu deveria sentir.

Sobre isso, me revisto na minha velha armadura, fingindo que estou bem pra que ninguém se preocupe comigo. Porque quando pensei que havia encontrado exatamente o que faltava pra um sorriso constante, dependendo do sorriso que eu provoco, descobri que pessoas geralmente são imprestáveis. Ou que as que prestam estão bem longe de mim.

Dói ter tanto guardado pra dividir com alguém que não quer. Um, três, quatro, cinco. E o dois foi o que eu desperdicei. Ainda sinto a culpa.

Fácil como quisera Mário de Andrade

Amar, verbo intransitivo, como já dissera o escritor modernista.

Hoje, 28 de junho, é dia do Orgulho LGBT. Hoje nos valemos de direitos que começaram a ser conquistados à muitos anos atrás, quando pessoas como nós lutaram pra que passássemos a ser reconhecidos como normais.

Com sentimentos, com angústias, com medos, receios, mas também com coragem, com alegria, com força, positividade, assim como todo o restante do mundo. Não somos diferentes de ninguém, e não é nossa sexualidade que vai mudar nosso caráter. Assim como eu passei, acredito que muitos de nós tenham sofrido, dentro da própria casa, julgamentos, piadas de mal gosto, preconceito.

Meu objetivo aqui não é criticar entidades ou religiões, mas se um cristão afirma com fôlego que na bíblia diz que não devemos fazer acepção de pessoas (Atos 10:34, Romanos 2:11, Tiago 2:9, I Pedro 1:17) será que ele deve mesmo ser contra a legalização do casamento gay?

Amor não tem gênero, não tem sexualidade. Algo que ouvi muito durante minha infância, devido ao
fato de ter crescido numa igreja evangélica, foi a frase "se Deus me fez assim, assim vou louvar". Deus (pra quem acredita em Deus, diferente de mim), nos fez homo, bi, hetero ou seja o que for. Somos assim e não é algo que possamos lutar contra. É uma questão de aceitar sua própria felicidade
ou decidir ser infeliz pra seguir um padrão que "vai te levar pro céu".

Quando nossos pais descobrem (de qualquer forma que seja), geralmente ficam chocados de morte, mesmo que saibamos que eles sempre souberam disso (porque pai sempre sabe). No meu caso, meus pais tentaram me isolar do mundo, como se eu estivesse sofrendo alguma influência pra ser assim. Claro que não funcionou. Convocaram pastor, papa, igreja inteira intercedendo, mas nada, ainda sou lésbica. E, bom, mesmo sendo só uma adolescente, posso dizer com convicção que isso não vai mudar.

Lembro de ter 8 anos, ser inocente e ver tudo isso como normal. Sempre foi extremamente familiar pra mim que duas garotas gostassem uma da outra, embora eu tivesse que esconder pra que não sofresse dentro do ambiente religioso que me encontrava. Já hoje em dia, livre de rótulos de "fiéis", não tenho medo de assumir quem eu sou. Não foi sexualidade que moldou meu caráter e não é a sociedade que vai me impedir de ser exatamente quem eu quero ser.

Homens, mulheres, transexuais, gays, lésbicas, bissexuais, brancos, negros, amarelos, pardos, olhos puxados, grandes ou pequenos, TODOS serão a mesma coisa perante uma cova. Todos nós somos iguais e diferentes e ninguém nesse mundo tem direito de nos julgar por isso. Acreditem no que for, acreditar em nossas verdades sempre será o mais importante, porque é isso que vai nos fazer pessoas felizes.

Cada um faz as escolhas necessárias pra seguir a sua vida e satisfazer as vontades do seu coração. Sexualidade não é uma delas. É algo que nasce conosco. Agora, você pode escolher se reprimir e ser infeliz ou bater de frente com a sociedade e fazer sua vida valer a pena. Afinal, ninguém tem certeza de quantas vidas teremos e essa pode ser a última!

Em alguma parte da vida, não importa o que somos, sempre seremos discriminados por algum motivo. Por quê? Porque o objetivo da sociedade é nos moldar e pra isso utiliza da opressão, que nos obriga a buscar um caminho mais "fácil" e seguir exatamente o que a sociedade quer de nós.

Quebre essa regra, mude o seu padrão, seja diferente à sua maneira. Mas o mais importante, sendo feliz como você é.

18 de junho de 2011

Indefinido - Capítulo 2

Postado por Nandee

Aula de educação física. É uma chatice. Meninas pra um lado, meninos pro outro. E é completamente injusto! Nós temos que fazer alongamento, jogar vôlei, basquete (detesto tudo) enquanto os meninos jogam futebol TODOS OS DIAS! Não é justo! Eu também quero jogar futebol toda aula!

Reclamamos tanto (só eu e a Val, na verdade) que hoje o professor disse que teríamos uma aula “diferente” (tenho um pouco de medo quando eles falam isso...); ia ser uma aula MISTA!

Ok, mas não era bem isso que eu queria. Aula mista significa meninos desocupados roubando nossas bolas de futebol e meninas mais desocupadas ainda rindo PARA os meninos. Definitivamente, não é uma boa idéia!

Daí o professor começou a botar uns colchonetes no chão e disse que ia improvisar um salame. Eu perguntei por que ele ia improvisar um salame e os guris berraram na hora “TATAME, DUDA!” Fui apresentada ao tatame, que é um nome bonito pro tapetinho que os lutadores ficam...

Ele também trouxe futebol de botão e bolita e liberou as meninas pra montarem coreografias de danças. Mas eu queria ficar no tatame. E a Val também. E os guris amigos dela também.

O professor disse que poderíamos brincar de artes marciais, sem machucar os outros. Então resolvemos imitar nossos desenhos favoritos! Primeiro foram só os guris, mas começou a ficar muito sem graça; daí eu e a Val começamos a empurrar os meninos uns em cima dos outros; tava engraçado até eles nos atirarem pra dentro do salame pra valer. Daí eu fiquei irritada e comecei a bater em um deles com força e o professor viu, nos deu um xingão e acabou a diversão. Ninguém foi expulso, mas eu tive que dançar uma coreografia ridícula!

Tinha catequese de tarde, mas eu esqueci o meu livro de exercícios e tive que ficar rezando no altar um tempão; às vezes eu dormia e a madre acertava a vara nas minhas mãos, fazendo eu mandar um grito pras pombas da paz...

Voltei pro resto da aula e a madre estava ensinando como se confessar. Depois passou os dez mandamentos. O mais engraçado de todos é “não cobiçar a mulher do próximo”. Não tinha nenhum mandamento sobre esquecer o livro de exercícios. No fim da aula, fizemos um sorteio para um amigo-secreto. Tão secreto que eu não sei quem é o colega que eu tirei...

Na outra aula de educação física, lá estava o nosso tatame de volta. O professor disse que poderíamos usar se fosse OR-GA-NI-ZA-DA-MEN-TE (ele disse assim mesmo). Então fomos só eu e a Val. Os meninos ficaram na torcida. Fizemos até os cumprimentos. Quando começou (assim que alguém gritou JÁ!), cada uma de nós pulou pra trás, olhando os movimentos da outra. De repente eu comecei a rir sem parar e a Val botou as duas mãos nos meus ombros e tentou me derrubar, mas não conseguiu, porque ela tentou me dar uma rasteira, mas eu fiquei pulando e levando ela junto; daí nós duas começamos a rir e eu comecei a tentar derrubar ela com os braços, o que foi bem difícil já que ela é bem mais alta que eu; mas eu queria muito e muito e muito e CONSEGUI! A Val ficou no chão, me olhando super assustada; ajudei ela a se levantar, e nessa hora os guris já estavam fazendo a maior zona na torcida. A Val arrumou o moletom, a franja, olhou pra mim, sorriu e disse:

- Até que tu é bem fortinha pro teu tamanho! – E em seguida me deu um soco de brincadeira no braço e me abraçou de lado. Umas vozes masculinas começaram a gritar atrás da gente:

- A Val tá com inveja! A Val tá com inveja! – Ela virou pra trás, ainda abraçada em mim e disse:

- Que inveja o quê! Lá eu tenho inveja de alguma coisa?




(continuo ou não? =P)

17 de junho de 2011

Conto - O Amor É Cego, Capítulo 5

Eu quis que aquele momento durasse pelo restante dos meus dias, mas as circunstâncias nos impediram. Eu tinha de trabalhar, tinha de voltar a vida real.

Ela ficou ali comigo, me ajudando. Sorte que eu tinha chefes legais. E que ela fazia isso sempre. Ela gostava de estar ali ajudando e isso era ótimo. Ainda mais pra mim. Ela estava "me treinando". Sorri pensando na ideia.

- Porque você está sorrindo? - como ela sabia que eu estava sorr

- Como você sabe que estou sorrindo? - fiquei perplexa com o fato de que ela sempre saberia o que eu estava fazendo, mesmo que não pudesse me ver.
- Eu sempre sei! - ela exclamava com um ar travesso, o que me provocava de tal maneira que eu já me encontrava mordendo os lábios - Mas afinal, porque? - insistiu.

- Porque você está me treinando. E porque eu tenho todos os melhores motivos pra sorrir agora. - enquanto eu falava, ela sorria.

Estava sendo um dia bastante calmo no Instituto, até que Cláudia pediu que Sarah e eu fossemos até uma padaria buscar um lanche que ela havia reservado. Hoje teria festinha no Instituto. cláudia, que havia percebido o clima que havia entre Sarah e eu (o que pouquíssimos não conseguiam perceber), estava querendo nos deixar a sós. Eu realmente tinha uma chefe maravilhosa.

Ela me chamou enquanto Sarah me esperava para irmos pegar o lanche na porta.

- Rafa, você trabalha aqui há três dias e eu já pude perceber que você é uma menina maravilhosa. - ela parecia querer começar uma lição de moral - E eu conheço Sarah há anos! Ela é a menina mais especial que eu já tive o prazer de conhecer. Te garanto que você não vai conhecer ninguém melhor que ela e te peço que valorize isso. Não deixe ela escapar de você. Faça ela mais feliz do que qualquer outra garota no universo conseguiria fazer. Ela é a minha menina dos olhos, meu prodígio. Cuide bem dela. E me traga aquele lanche! - disse ela, interrompendo a si mesma, de forma que eu não pudesse
comentar nada sobre isso.

- Copiado, capitão! - brinquei - Trarei seu prodígio e o lanche em um piscar de olhos. E, você não precisa me dizer quanto ela é especial, porque, se ela não fosse, eu não teria me apaixonado por ela como eu me apaixonei. - pela primeira vez, minhas palavras faziam mais sentido do que qualquer coisa que eu tivesse dito em toda a minha vida. Inclusive a parte do lanche.

Na porta, estendi meu braço para Sarah, num entrelaçar, como uma piada. Sorri para Cláudia e deixei que o tempo frio se afastasse de nós enquanto estivessemos fora do Instituto, pois a ligação que havia entre nós parecia exalar todo calor inexistente naquele clima gostoso. Nossas mãos estavam dadas, dedos entrelaçados, cada vez mais minha.

Não havia nada no universo que pudesse nos separar. A força de tudo aquilo era inexplicavelmente impossível de romper. Nós não sentiamos paixão, amor; nós éramos a paixão, nós éramos o amor. E ela era minha. Eu era dela. Não havia parte de uma que não estivesse presente na outra.

Talvez aquela tenha sido a primeira vez que eu não via nada além dela. Mesmo. Eu tinha me tornado cega para tudo que não fosse ela. Meu ponto de visão era ela. E com razão. Ela até sabia atravessar a rua melhor do que eu!

Andávamos sem medo de sermos taxadas, de mãos dadas, trocando frases carinhosas e sorrindo de uma maneira que deixava óbvio que tinhamos algo muito forte nos envolvendo. Eu via os olhares assustados das pessoas conservadoras, os sorrisos de quem percebia quanto lindo era aquilo e aquele olhar "que coisa mais linda" de crianças que sentiam em nós a mesma pureza que tinham.

E cada vez eu tinha mais certeza de que o mundo era apenas ela e eu. Não tinha quem não nos notasse, tal era a beleza de Sarah. Éramos um casal de garotas, contrastando formas, de estilo já chamativo, piercings e cabelo que pediam olhares e, pra completar, ela carregava uma bengala que parecia inutil, já que se locomovia tão bem... parecia não precisar dela.

Nós chamávamos atenção e eu gostava daquilo. Ela me perguntava, toda vez que sentia alguém passando por nós que, certamente, nos olhava, se realmente estávamos chamando tanta atenção. Nós éramos o mundo, éramos a felicidade.

Tudo que tínhamos ali era tudo que precisávamos pela vida toda: NÓS.

E assim, éramos nós e o resto do mundo, onde nada mais importava.

(continua)

14 de junho de 2011

Mind Your Own Stuff

Esqueci de mim mesma, me afundei numa alegria que não era minha. Quando percebi isso, já era meio tarde demais. Me afetei demais pelas alegrias e tristezas dos outros e esqueci de me preocupar com as minhas.

Me perguntam como estou sempre de bom humor, sempre sorrindo, se nada me afeta. E é exatamente o contrário, TUDO me afeta. Aí eu penso: qual é a moral de ficar triste pelos meus problemas se tem pessoas que estão piores do que eu?

Assim, fico triste demais ou feliz demais pelos outros e esqueço de sentir algo sobre as coisas que acontecem comigo. Isso acumulou e resolveu estourar. Faz algum tempo que eu não choro ou me sinto mal por mim mesma, então hoje resolvi desabafar sobre isso.

Eu me sinto mal. Por mim. Mas não quero transparecer isso, não quero que as pessoas que eu me importo se sintam mal por mim também. Quero que eles estejam felizes, então eu coloco um sorriso no rosto e os faço sentir diferentes de como eu me sinto.

Quero fazer bem pra eles e, estando mal, isso não é possível. Mas eu quero chorar. Demais. Quero parecer forte e engolir o choro, quero reprimir tudo isso, mas ao mesmo tempo, quero desidratar, quero alguém pra me abraçar e sentir minhas lágrimas caindo.

Me sinto mal por não poder abraçar alguém que é importante pra mim, me sinto mal por não ser aceita dentro da minha própria casa. Me sinto mal por não sentir que pertenço à minha família. Me sinto mal por "não poder reclamar" dos meus pais, mas ter tantas críticas sobre eles.

Me sinto mal por ter, diariamente, boa parte dos meus sonhos destruídos por aqueles que dizem que me amam, me sinto terrivelmente mal por não conseguir controlar o que eu sinto. Me sinto mal por ser tão sensível e me abalar tanto com os sentimentos de pessoas que não se abalam com os meus.

O emprego que eu mais quis na minha vida não é meu, sou proibida de sair de casa e meus pais não aceitam de forma alguma que eu queira sair numa sexta/sábado a noite e dizem constantemente que vou pro inferno se continuar assim. Assim como, mãe? Assim, da forma que eu sou feliz?

Sinto vontade de chorar por ser pressionada diariamente pela minha família a seguir uma religião na qual eu não acredito, por não poder dizer abertamente quem eu sou e como eu me sinto.

Mas principalmente, eu me sinto mal por conseguir, sozinha, repelir tudo que eu mais quero pra mim. Não sei como, mas eu consigo destruir absolutamente tudo que eu construo. Eu consigo não conseguir o que eu já tinha conseguido. E é exatamente isso.

Eu olho pra tudo isso e fico pensando como eu posso me lamentar tanto quando tenho casa, comida, cobertores, roupas, PAIS! Penso que sou ingrata ou algo assim. Apesar de ter ensino, tudo que eu preciso, não é isso que me faz feliz.

Tenho fingido estar bem. Tenho fingido estar feliz, estar de bom humor. Eu não estou. Estou me corroendo por dentro com toda essa história. Eu sei que há milhares de pessoas que se sentem infinitamente piores do que eu e me sinto mal por pensar que eu estou mal. Me sinto egoísta por isso.

Mas fui egoísta comigo durante todo esse tempo que fingi estar bem, também. E o que me faz sentir pior é saber que eu não consigo resolver meus próprios problemas, mas constantemente estou dando conselhos pra amigos, que conseguem se resolver com isso e se sentir melhor.

Sinto é inveja deles. Pudera eu saber como me aconselhar. Porque diabos nós sempre temos uma palavra pra alguém, mas quando passamos pelo mesmo problema, não sabemos nada do que fazer por nós mesmos?

Tenho amigos que tem infinitos motivos pra reclamar dos pais, motivos pra se lamentar sobre a própria vida, sobre relacionamentos. Muito mais motivos do que eu. E eu me sinto mal demais por eles, como se fosse egoísta o suficiente se eu me sentisse um pouco mal por mim.

Cansei de guardar tudo isso dentro de mim. Só. Tudo que eu queria era conseguir externar tudo isso em lágrimas, não em palavras. Porque pra mim, palavras são fáceis de organizar e mascaram deveras o que eu sinto. Já lágrimas são extamente o que eu preciso. Sem esconder, sem querer parecer forte.

Eu mesma julgo meus sentimentos e ainda espero me sentir bem com isso. Uma hora, tudo isso estoura de vez e não tem como segurar. E essa hora chegou pra mim. Então, quem sabe me afastar do mundo por uns tempos seria melhor. Se eu tirasse algum tempo pra sentir meu próprio coração... parasse de me afetar tanto com os problemas dos outros.

Quem sabe isso tudo renda textos lindos e deprimentes, quem sabe eu receba elogios com essa depressão toda. Mas provavelmente isso não vai me fazer sentir melhor, mas pior. Isso prova meu egoísmo.

E eu me sinto mal por isso.

10 de junho de 2011

Conto - Indefinido, Capítulo 1

-Ei, fala mais alto, eu também quero ouvir!

- Você sabe o que é isso né?

- O que?

- Lébisca.

- Claro que sim. È....é...é...ahn...

- Mulher que dorme com mulher!

E daí todo mundo faz cara de nojo e o cochicho para. A madre superiora está nos encarando e falando sobre a via sacra. A única via que eu conhecia era a láctea.
Daí o assunto teve que mudar, porque estávamos sentadas nos bancos da Igreja, ouvindo histórias sobre sangue, pregos, espinhos...parecia até um parto!
A madre podia estar falando em chibatadas e crucifixos, mas eu estava mesmo era pensando em mulher com mulher. Isso certamente não existe. Não, claro que não. Tenho que me concentrar. Daqui a pouco a tia me chama, mas daí é só fazer cara de anjo que tá tudo bem.

Da Igreja, direto pra escola. Montamos um time de futebol. Ficam chamando a capitã de lébisca, lésbica, sei lá... não sei o porquê. Mas ela também vai pra catequese, e nunca se queimou, ou virou pó, ou algo assim. É porque um dia o padre disse que esse tipo de gente queimaria na casa de Deus, mas ela continua lá, sendo a melhor do time. E eu que fiquei esperando que ela virasse pó.

Ficava um clima esquisito no ar quando ela chegava pra conversar no grupinho das meninas. Todas faziam cara de nojo NA MESMA HORA, elas ficavam todas meio iguais, assim, na cara mesmo, eu não sabia o porquê, mas fazia a mesma cara também, porque se não iam me tirar pra esquisita.

Um dia cheguei na escola e chamei as meninas pra trocarmos figurinhas do meu álbum novo de um desenho super legal, mas nenhuma delas quis. Falaram que eu era muito criança e não podia andar com elas.Acho que elas pegaram alguma doença contagiosa e não queriam que eu pegasse...Coitadas, estavam todas com as bochechas muito vermelhas, as bocas muito coloridas e a volta dos seus olhos brilhavam. Era uma cena muito assustadora. Eu estava indo para a Igreja orar por elas, mas daí encontrei a Val – a capitã do time – no meio do caminho e ela queria trocar figurinhas. Como ninguém estava vendo, eu aceitei e passamos a tarde brincando. Ela não era nojenta como as meninas diziam e ela era muito legal. Perguntei por que ela saiu da catequese e ela disse que era só por preguiça, mas os pais dela não sabiam...

As meninas não se curaram da doença delas...na verdade parecia que elas pioravam a cada dia, porque até as roupas delas estavam esquisitas e idênticas...e olha que elas passaram o ano passado inteiro reclamando que não iam usar uniforme. Não entendi.
Eu sempre gostei do uniforme, mas acho que só eu e a Val usávamos – das meninas, é claro. Era só uma camiseta e uma calça de moletom. Perfeito pra jogar futebol. Mas era suficiente pro resto das meninas pegarem no nosso pé. De repente, usar uniforme tinha ficado feio...

Eu não via a hora de terminar logo a catequese, porque de uma hora pra outra, todos estavam me olhando, até a madre...e na escola não mudava muita coisa...até a Tati, minha ex melhor amiga disse que eu era pequena demais (de tamanho e de cabeça) pra andar com ela...não dava pra andar com a Val porque ela passava o recreio com um bando de meninos idiotas. Então acho que estou sozinha.

Estava. Hoje a Val disse que ia me apresentar para os garotos. OK, talvez eles sejam legais. Ou não.


(talvez eu continue a história. ou não.)

Nandee

Can I Fall For You?

"The girl who loves me is the one i'm not in love with, the girl i'm in love with can't be in love with me and the one that would be the one for me, we're to afraid to be in love."

E nessa altura, me pergunto se não seria melhor que só chegássemos frente à frente e perguntássemos. Sutil. "Oi, você é legal e eu gosto de você. Posso me apaixonar?". Fácil, rápido. Besta.

Porque não virar o jogo, queridos corações? Se assim fosse, na citação acima, teríamos quatro pessoas felizes. Incrivelmente, um coração parece só se interessar realmente por algo que vai fazê-lo sofrer.

Masoquismo e burrice. É interessante a forma como o possível passa despercebido, mas o impossível
é exatamente o que desperta o interesse.

Ter as palavras certas na cabeça, estar preparado pra alguém especial, mas... seu coração está ocupado demais com outra pessoa especial, mas impossível. E parece insistir naquilo, como se algum dia fosse funcionar. Afinal, o coração também pensa que a esperança é a última que morre.

Coitado!
Assim, alguém logo ao lado é a sua "pessoa". Você, despercebidamente, é a "pessoa" dessa pessoa (confuso, mas explicativo). E ambos estão ocupados demais com um terceiro que não corresponde.

Além de perder a pessoa que poderia ser sua pessoa, no caso, no sentido de "sua pessoa" mesmo (porque amizade não conta), você continua sofrendo por alguém.

E aquela coisa idiota de "choro quando ela chora, sorrio quando ela sorri" é só um meio de nos grudar a essa pessoa e nunca parar de nos importar com ela. É, talvez, a pior coisa que poderia se começar a sentir por alguém quando não se é correspondido.

Começou a chorar por problemas e tristezas alheias e, BABY, YOU'RE STUCK. Então você continua naquele pensamento esquisito quase polígamo. Mas calma, PORQUÊ? Porque uma pessoa te atrai fisicamente, talvez a personalidade dela, mas a outra te atrai em todos os aspectos. TODOS! Ataques de raiva, ciúmes, tudo. Defeitos e qualidades.

E você vai continuar nessas, indo e vindo, sem saída.

8 de junho de 2011

Mentes Silenciosas

Engraçado como o silêncio de mentes quase desconhecidas parece fazer tanto sentido. É como se fosse uma ponte, criando algum tipo de ligação esquisita e engraçada, divertida.

Troca de pensamentos durante aquele silêncio, uma telepatia amiga que preenche a falta de vocalização. Mentes próximas numa distância, se entendem, sabem o que querem dizer.

É o tipo de conexão mental que aproxima pessoas não tão próximas, que nos faz conhecer uns aos outros sem uma palavra sequer. É esse tipo de silêncio que nos faz querer mais. Ficar mais perto, conhecer mais, conversar mais, mas ao mesmo tempo, silenciar mais.

Uma falta de palavras que fala tudo que estamos evitando falar. É o silêncio que nos faz perceber nossa capacidade de entendimento, quanto tempo poderemos ficar em silêncio e ainda assim não se tornaria um tédio.

Porque, como já dizem os clichês, "às vezes o silêncio fala mais que mil palavras". Mas assim, nesse silêncio mental, cada um imerso em seu universo, trocando de brisas um com o outro, aprendendo, repassando, transmitindo.

Silêncio não significa que não há o que falar, mas que todas as palavras são inúteis e talvez pequenas, significa que o tempo ali vale mais do que a conversa em si.

Sem sons, sem troca de palavras, sem mentiras, sem fingimentos, sem mágoas. Só o silêncio que preenche o tempo.

7 de junho de 2011

Conto - O Amor É Cego, Capítulo 4

- Boa tarde, eu quero os lírios brancos mais lindos que tiveres. - eu disse entusiasmada, com chocolates deliciosos e um cartão enorme nas mãos.

Saí de lá com os lírios mais lindos que eu já havia visto. Lembrei que um amigo me devia um favor e fui até a casa dele, já que estava perto.

- Rafa, que lindo. Não precisava me trazer flores... - ele sorria sarcástico, imaginando o que eu iria pedir.

- Haha, ótimo! André, preciso daquele favor que você estava me devendo, lembra? É, então, tem essa garota...

- EU SABIA! Vindo de você, só podia ser uma garota. Mas fala: quem?

- Então, o nome dela é Sarah, ela mora nesse endereço. - disse entregando um bilhete - Preciso que você entregue isso pra ela por mim. Não é muito longe. E ó, você não sabe quem mandou e está tudo no cartão. Você é um entregador. Aja como um. Ok? Podes fazer isso por mim?

- Claro que posso! Posso te levar no trabalho e passar lá agora? - ele soava quase tão entusiasmado quanto eu.

- Feito. Vamos?

Ele me deixou no Instituto, que também não era muito longe dali e foi até a casa de Sarah entregar meus presentes pra ela. Queria saber qual seria a reação dela e fiquei bastante nervosa com isso. Sentei-me na minha mesa agora já habitual e fiquei esperando que alguém me dissesse algo sobre isso. Fosse André, fosse Sarah, eu só queria saber o que ela teria achado.

Alguns minutos disso, André me ligou.

- Rafa, porque você não me falou? - fiquei assustada, pensando que ele não estivesse gostando do fato de Sarah ser cega, de ele se importar com isso. Realmente me deixaria muito triste se ele se importasse.

- Não falei o que, Dé? - tentei confirmar, com um certo desapontamento em minha voz.

- Que era a garota mais linda que eu iria ver! - quando ele disse isso, eu sorri de tal forma que até me demorei em diminuir o sorriso. - Eu nunca vi garota tão linda na minha vida. E simpática! E CARA, QUE SORRISO É AQUELE? Você tem toda razão em se apaixonar por ela!

- Eu sei. Ela é demais, mesmo! - e a parte que eu mais gostei da reação dele foi que ele não havia mencionado nada sobre ela ser cega. - Mas o que ela achou do presente? Ela gostou? Ela disse algo? Como foi? - eu estava claramente ansiosa.

- Rafa, fica tranquila, ela amou tudo. Reconheceu os lírios, me perguntou como eram, sorriu o tempo todo e acho que ela imaginava que você que havia mandado.

Eu sorria, aliviada. Agora era só esperar a resposta que ela me daria. Nisso eu a vejo segurando a maçaneta da porta, notei que ela respirou fundo e entrou. Ela trazia apenas o cartão nas mãos. Ela sorria. E eu sorria, instantaneamente, junto com ela.

Levantei-me e fui até a porta. Era bom que nessa hora da tarde, não havia ninguem ali comigo. Só eu e ela. Segurei sua mão e a fiz sentir que eu estava ali com ela. Não falei nada, só me certifiquei de que ela estava sentindo o mesmo que eu. Ela segurava meu rosto e, aos poucos, começava a traçar linhas ao redor dos meus lábios. Eu sorri, ela riu, eu ri. Paramos. Os sorrisos desapareceram.

E essa foi a deixa: ela segurava minha mão esquerda e sua mão esquerda ainda pairava sob meu rosto. Nisso, ela me beijou. Suavemente, seus lábios encontraram os meus e isso foi a melhor resposta que eu poderia receber. Ela era minha.

A eternidade estava naquele beijo. Tudo poderia acabar ali, eu não me importaria. Só a certeza de que ela estava envolta em meus braços e era minha, era tudo que me completaria. Naquele instante, eu e ela éramos uma só. Um coração, uma mente, um corpo.

(continua)

6 de junho de 2011

Durante toda minha vida

Lembro da primeira vez que falamos. Era domingo, dia primeiro de maio. Noite. Depois daquele dia, nunca esqueci de você. Na verdade, não consegui lembrar de nada além disso.

Talvez você não saiba, mas meu coração sempre esteve com você. Depois daquele momento, daquelas conversas, já não era mais meu. Agora posso dizer "choro quando ela chora, sorrio quando ela sorri". E você tem chorado.

Cada vez que você chora, eu choro.

Aquela sua velha paixão não me incomodava tanto quando te fazia sorrir. Agora, é como se eu precisasse fazer de tudo pra me tornar essa paixão. Porque eu faria o possível e impossível pra te ver feliz, eu pararia de respirar, se assim você precisasse.

Quando eu digo que daria o mundo pra você, não significa que eu te daria tudo, materialmente. Significa que o MEU mundo, é seu. Fico tão mais feliz quando sei que estou te fazendo sorrir...

E, em virtude de toda essa coisa que eu guardo na minha mente, todas as vezes que você me conta seus problemas, cada conselho que eu procuro pra te dar, é o melhor conselho que eu poderia dar. Escolho minhas palavras com cuidado, enquanto estou destruída por dentro.

Sinto falta de ti. Uma falta que eu não deveria sentir. Sinto vontade de te abraçar, de te segurar. E eu nunca fui tão breve em dizer pra alguém o que sentia. Talvez seja porque dessa vez, é impossível explicar. Só sei que é forte, dói. E, com você, meu mundo ficaria completo.

Então, assim, você deixaria que eu fosse quem te faz feliz? Pelo resto da tua vida, eu tomaria tuas feridas pra mim, eu as curaria, eu cuidaria do teu coração, porque eu me apaixonei por ele.

Durante toda minha vida. E depois dela.

1 de junho de 2011

Conto - O Amor É Cego, Capítulo 3

- E se ela for esses tipos que usam e desprezam? E... É UMA GAROTA!

- Eu não preciso vê-la para que eu consiga sentí-la. Ela é extraordinária e não é seu gênero que determina isso. E... eu acho que a amo. - Sarah dizia quase chorando.

Ela tentava explicar para sua amiga os fatos sobre Rafa, mas parecia não haver sucesso. A garota estava perplexa pelo fato de sua amiga ter se apaixonado por alguém que havia conhecido há dois dias, mal haviam se falado e, ainda por cima, era uma garota.

- Mas Sarah, você mal a conhece! Ela pode não ser a boa pessoa que você acha que ela seja. E, você deu seu telefone pra ela? Sabe quanto perigoso isso pode ser?

Mas Sarah parecia não encontrar sentido nas palavras que sua amiga dizia. Eram apenas... sons. Sons vãos que realmente não faziam sentido nem em sua cabeça e muito menos em seu coração. Rafa realmente havia feito uma marca em Sarah.

- Rach, se você tivesse uma mínima ideia da forma como a Rafa me faz sentir, da maneira que a voz dela me conforta, me passa confiança, você conseguiria entender. - Sarah continuava tentando explicar.

- Ok, confio em você. Se você diz que sente algo forte por ela, só procure saber logo se ela pode te corresponder. Por mim. Não quero que ela te machuque, ok? - Rach dizia num tom protetor.

Rach não era cega. Ela via todas as coisas ruins que as pessoas faziam umas às outras e pensava que, por Sarah não poder ver, não soubesse quanta maldade alguém pode ter. Mas Sarah sentia. Sarah podia dizer que "confiava de olhos fechados", pois ela só precisava ouvir o tom de voz de alguém e saberia dizer tudo.

- Rach, se algum dia eu estive errada em confiar em alguém, te deixo se preocupar comigo. Mas eu confio na Rafa e eu sinto ela sorrindo enquanto fala comigo, mesmo que estejamos falando algo sério. Ela sorri o tempo todo. Só sorri. Ela é sincera e não consegue esconder o que sente nem sequer no tom de voz. A forma como ela fala comigo... é doce, é suave, é... apaixonante!

- Sarah, você está MUITO apaixonada por ela, né? - Rach abriu um sorriso

- É, acho que sim. - Sarah sorria, vendo que sua amiga finalmente havia entendido um pouco de como ela se sentia.

Sarah não conseguira parar de pensar em Rafa por um segundo sequer. Era exatamente uma e meia da tarde, hora que Sarah sabia que Rafa estaria sentando atrás daquela mesa robusta.

Rafa não tinha ligado para Sarah ainda e agora Sarah estava quase perdendo a esperança de que ela fosse ligar. Ela se perguntava se Rafa teria perdido seu número, esquecido de ligar ou algo grave teria acontecido.

A campainha tocou e Sarah foi atender.

- Boa tarde, moça. Essas são para Sarah, é aqui, certo? - disse um homem de voz grave que se estendia em frente à porta de Sarah.

- Sim, Sarah sou eu. E, o que é? - disse ela, apontando para sua auxiliar guerreira bengala.

- São flores maravilhosas, lindas. Foram muito bem escolhidas, por sinal. E também tem uma caixa de chocolates de vários recheios e um cartão em braile. - Ele soava estranhamente entusiasmado, como se estivesse fazendo uma boa ação e se agradasse muito com isso.

Sarah pegou as flores que o homem estendeu em suas mãos e levantou-as levemente para que pudesse sentir o odor que elas exalavam.

- Ah, lírios... podes me dizer que cor são, por favor? - ela sorria. Seu conhecimento sobre flores realmente havia sido útil.

- São brancos. São lindíssimos lírios brancos, moça.

- Obrigada, moço. Devem ser lindíssimos mesmo! Você sabe quem mandou? - ela ainda sorria. Pudesse Rafa ver esse sorriso, sentiria-se extasiada.

- Me disseram que tudo consta no cartão, moça. Eu não sei ler braile, mas me disseram que está aí.

- Então está certo. Muito obrigada, novamente.

- Por nada, moça. E, quem quer que tenha mandado, gosta muito de você. E dou-lhe razão. Tenha uma boa tarde. - ele sorria. Moço simpático.

Sarah sorriu e sentiu o homem se afastando. Fechou a porta e logo foi conferir o cartão.

Era extenso, o que parecia ser bom.

"Sarah,

Talvez tudo que eu tenha pra te dizer esteja contido numa frase muda ou talvez tudo que você precise saber esteja latejando dentro da minha mente tão forte a cada vez que te vejo, que você já deve ter percebido.

Essa é a décima terceira vez que tento escrever esse cartão pra você.

Entre tantos rabiscos, tantas coisas que eu escrevi e achei que não seriam o suficiente, pensei em algo grande pra te dizer isso e não encontrei maneira melhor do que isso:

Há dois dias atrás você entrou na minha vida. Mas entrou mesmo, numa forma de entrar que ninguém havia entrado antes. Você me fez entender tanta coisa sobre a vida, me ensinou tanto e talvez nem imagine isso.

Você foi a única garota que não fez meu coração bater na garganta, mas o arrancou de mim. Agora, meu coração bate onde o seu bate. E, talvez por eu poder dizer isso com a certeza de que não estou falando besteira é que, em dois dias, absolutamente tudo que eu faço me lembra você.

Então, Sarah, por mais que seja apressado e irresponsável que eu diga isso em tão pouco tempo que nos conhecemos, tenho de deixar claro que eu não quero ser sua amiga.

Eu quero ocupar cara pedaço do seu coração, cada parte da sua mente, eu quero ser tudo que você pensa. Eu quero que você seja minha.

Porque no mundo inteiro, não há nada além da música que me faça sentir como você faz, nada fez. E em mil anos, agora, sem você, eu não passaria de um pedaço macio de tecido vivo, porque eu encontrei em você toda a vida que faltava em mim.

Em toda minha vida, a única coisa que fez sentido foi você. Enquanto eu flutuava pelas facetas estranhas dos meus pensamentos, enquanto eu imergia em frases densas e sem nexo, você começava a me mostrar o que a vida significa.

Você deu sentido a tudo isso. E eu não posso gastar mais um minuto sequer sem saber que você é minha.

Então, você aceita ser minha?

Com amor,
Rafa"

Sarah terminou o cartão com o sorriso que Rafa tanto amava estampado em seu rosto e uma lágrima escorrendo sobre ele. Ela sorria e chorava ao mesmo tempo.

- SIM, EU QUERO SER SUA! - exclamou Sarah no seu momento de euforia.

Nisso, arrumou suas coisas e saiu em direção ao Instituto. Tinha pressa em ser de Rafa. E com razão.

(continua)