-Ei, fala mais alto, eu também quero ouvir!
- Você sabe o que é isso né?
- O que?
- Lébisca.
- Claro que sim. È....é...é...ahn...
- Mulher que dorme com mulher!
E daí todo mundo faz cara de nojo e o cochicho para. A madre superiora está nos encarando e falando sobre a via sacra. A única via que eu conhecia era a láctea.
Daí o assunto teve que mudar, porque estávamos sentadas nos bancos da Igreja, ouvindo histórias sobre sangue, pregos, espinhos...parecia até um parto!
A madre podia estar falando em chibatadas e crucifixos, mas eu estava mesmo era pensando em mulher com mulher. Isso certamente não existe. Não, claro que não. Tenho que me concentrar. Daqui a pouco a tia me chama, mas daí é só fazer cara de anjo que tá tudo bem.
Da Igreja, direto pra escola. Montamos um time de futebol. Ficam chamando a capitã de lébisca, lésbica, sei lá... não sei o porquê. Mas ela também vai pra catequese, e nunca se queimou, ou virou pó, ou algo assim. É porque um dia o padre disse que esse tipo de gente queimaria na casa de Deus, mas ela continua lá, sendo a melhor do time. E eu que fiquei esperando que ela virasse pó.
Ficava um clima esquisito no ar quando ela chegava pra conversar no grupinho das meninas. Todas faziam cara de nojo NA MESMA HORA, elas ficavam todas meio iguais, assim, na cara mesmo, eu não sabia o porquê, mas fazia a mesma cara também, porque se não iam me tirar pra esquisita.
Um dia cheguei na escola e chamei as meninas pra trocarmos figurinhas do meu álbum novo de um desenho super legal, mas nenhuma delas quis. Falaram que eu era muito criança e não podia andar com elas.Acho que elas pegaram alguma doença contagiosa e não queriam que eu pegasse...Coitadas, estavam todas com as bochechas muito vermelhas, as bocas muito coloridas e a volta dos seus olhos brilhavam. Era uma cena muito assustadora. Eu estava indo para a Igreja orar por elas, mas daí encontrei a Val – a capitã do time – no meio do caminho e ela queria trocar figurinhas. Como ninguém estava vendo, eu aceitei e passamos a tarde brincando. Ela não era nojenta como as meninas diziam e ela era muito legal. Perguntei por que ela saiu da catequese e ela disse que era só por preguiça, mas os pais dela não sabiam...
As meninas não se curaram da doença delas...na verdade parecia que elas pioravam a cada dia, porque até as roupas delas estavam esquisitas e idênticas...e olha que elas passaram o ano passado inteiro reclamando que não iam usar uniforme. Não entendi.
Eu sempre gostei do uniforme, mas acho que só eu e a Val usávamos – das meninas, é claro. Era só uma camiseta e uma calça de moletom. Perfeito pra jogar futebol. Mas era suficiente pro resto das meninas pegarem no nosso pé. De repente, usar uniforme tinha ficado feio...
Eu não via a hora de terminar logo a catequese, porque de uma hora pra outra, todos estavam me olhando, até a madre...e na escola não mudava muita coisa...até a Tati, minha ex melhor amiga disse que eu era pequena demais (de tamanho e de cabeça) pra andar com ela...não dava pra andar com a Val porque ela passava o recreio com um bando de meninos idiotas. Então acho que estou sozinha.
Estava. Hoje a Val disse que ia me apresentar para os garotos. OK, talvez eles sejam legais. Ou não.
(talvez eu continue a história. ou não.)
Nandee
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