Eu quis que aquele momento durasse pelo restante dos meus dias, mas as circunstâncias nos impediram. Eu tinha de trabalhar, tinha de voltar a vida real.
Ela ficou ali comigo, me ajudando. Sorte que eu tinha chefes legais. E que ela fazia isso sempre. Ela gostava de estar ali ajudando e isso era ótimo. Ainda mais pra mim. Ela estava "me treinando". Sorri pensando na ideia.
- Porque você está sorrindo? - como ela sabia que eu estava sorr
- Como você sabe que estou sorrindo? - fiquei perplexa com o fato de que ela sempre saberia o que eu estava fazendo, mesmo que não pudesse me ver.
- Eu sempre sei! - ela exclamava com um ar travesso, o que me provocava de tal maneira que eu já me encontrava mordendo os lábios - Mas afinal, porque? - insistiu.
- Porque você está me treinando. E porque eu tenho todos os melhores motivos pra sorrir agora. - enquanto eu falava, ela sorria.
Estava sendo um dia bastante calmo no Instituto, até que Cláudia pediu que Sarah e eu fossemos até uma padaria buscar um lanche que ela havia reservado. Hoje teria festinha no Instituto. cláudia, que havia percebido o clima que havia entre Sarah e eu (o que pouquíssimos não conseguiam perceber), estava querendo nos deixar a sós. Eu realmente tinha uma chefe maravilhosa.
Ela me chamou enquanto Sarah me esperava para irmos pegar o lanche na porta.
- Rafa, você trabalha aqui há três dias e eu já pude perceber que você é uma menina maravilhosa. - ela parecia querer começar uma lição de moral - E eu conheço Sarah há anos! Ela é a menina mais especial que eu já tive o prazer de conhecer. Te garanto que você não vai conhecer ninguém melhor que ela e te peço que valorize isso. Não deixe ela escapar de você. Faça ela mais feliz do que qualquer outra garota no universo conseguiria fazer. Ela é a minha menina dos olhos, meu prodígio. Cuide bem dela. E me traga aquele lanche! - disse ela, interrompendo a si mesma, de forma que eu não pudesse
comentar nada sobre isso.
- Copiado, capitão! - brinquei - Trarei seu prodígio e o lanche em um piscar de olhos. E, você não precisa me dizer quanto ela é especial, porque, se ela não fosse, eu não teria me apaixonado por ela como eu me apaixonei. - pela primeira vez, minhas palavras faziam mais sentido do que qualquer coisa que eu tivesse dito em toda a minha vida. Inclusive a parte do lanche.
Na porta, estendi meu braço para Sarah, num entrelaçar, como uma piada. Sorri para Cláudia e deixei que o tempo frio se afastasse de nós enquanto estivessemos fora do Instituto, pois a ligação que havia entre nós parecia exalar todo calor inexistente naquele clima gostoso. Nossas mãos estavam dadas, dedos entrelaçados, cada vez mais minha.
Não havia nada no universo que pudesse nos separar. A força de tudo aquilo era inexplicavelmente impossível de romper. Nós não sentiamos paixão, amor; nós éramos a paixão, nós éramos o amor. E ela era minha. Eu era dela. Não havia parte de uma que não estivesse presente na outra.
Talvez aquela tenha sido a primeira vez que eu não via nada além dela. Mesmo. Eu tinha me tornado cega para tudo que não fosse ela. Meu ponto de visão era ela. E com razão. Ela até sabia atravessar a rua melhor do que eu!
Andávamos sem medo de sermos taxadas, de mãos dadas, trocando frases carinhosas e sorrindo de uma maneira que deixava óbvio que tinhamos algo muito forte nos envolvendo. Eu via os olhares assustados das pessoas conservadoras, os sorrisos de quem percebia quanto lindo era aquilo e aquele olhar "que coisa mais linda" de crianças que sentiam em nós a mesma pureza que tinham.
E cada vez eu tinha mais certeza de que o mundo era apenas ela e eu. Não tinha quem não nos notasse, tal era a beleza de Sarah. Éramos um casal de garotas, contrastando formas, de estilo já chamativo, piercings e cabelo que pediam olhares e, pra completar, ela carregava uma bengala que parecia inutil, já que se locomovia tão bem... parecia não precisar dela.
Nós chamávamos atenção e eu gostava daquilo. Ela me perguntava, toda vez que sentia alguém passando por nós que, certamente, nos olhava, se realmente estávamos chamando tanta atenção. Nós éramos o mundo, éramos a felicidade.
Tudo que tínhamos ali era tudo que precisávamos pela vida toda: NÓS.
E assim, éramos nós e o resto do mundo, onde nada mais importava.
(continua)
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