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15 de dezembro de 2011

I don't give a fuck if you don't get it!

Once in life, somebody's gonna hurt you. It always happens, if you were accidentaly born a human being. It's just like they say, "you don't know what you've got until it's gone". You just gotta keep your head up high and say that you don't care. Even if you do. Just pretend it, just pretend that you don't care. You can pretend you're stronger than you really are.

And you can't runaway from being hurt. It heals, but it's just like glass. You try to broke a glass and fix it right in the way. It's never gonna be the way it was before. Somehow, people just don't care about you. You can be the best human being on Earth, they're still gonna give a shit about you.

Most of them are just gonna try to use you, abuse you and never let you go, so you can be stuck with them, so they can use and abuse you over and over again. Sometimes they don't realize that, but actually, they just don't care. A few people have a ridiculous way to think, that if they don't care, they're not gonna be hurt by anybody.

It's not exactly how it works.

I'm gonna be clear now: if you're nice, people don't give a shit. If you're not, they don't give a shit either. The one that's gonna say that loves you can be the one who's gonna say "i'm not gonna change for you, but i'm not gonna let you go". OH, BABY, YOU'RE STUCK!

You know, i have an advice for all of you: don't ever be in love. Be just like everybody else, pay atention to everybody, find them, feel them, fuck them and than you can forget them, just like Shane would.

That's the way you can hurt everybody and not be hurt. Well, that's nice, isn't it? You got anyone you want and no one gotcha. No one breaks you, No one feels you, No one loves you. Oh, well, that's should be my way of life since i was born.

I know you still care, i know you still love someone. But, you know, they just don't care, even when they try to. So, grab a bottle of wine or anything you like to drink or use and do it to the death! Cause everybody loves you when you're dead.

And the best thing about it, nobody can hurt you when you're eight feet underground. Oh, wait, i'm not telling you to kill yourself, no! I'm just saying that when you're dead, you're safer than when you tried to feel and be a good person.

You're safer when you build a fence around you, you're safer when everybody calls you "heart of stone". You can suffer inside, but you gotta pretend you don't. That's all about how they see you. If they see someone fragile, they're gonna feel glad to hurt you.

But when they see you as the hurter, they're gonna stay away from you.

So that's the way you gotta chose to live by. And by the way, i don't care. If you thought i did, you're wrong, baby, i don't. And i'm never hurt. Nobody can get into my skin and i don't have a heart. I'm just like rocks.

I don't feel, i don't breath, i'm all dead inside. I don't break, but if i touch you, i can hurt you. That's not made up, it's just me. Don't blame me for being that way, it's just who i am.

And you know, i'm a good liar.

13 de dezembro de 2011

I just don't know how it got so far.

Querida,

Quero te dizer que nunca imaginei grandes coisas. Você me conhece bem, sabe que não gosto de me decepcionar. Por esse motivo, nunca imaginei que um dia fosse poder te chamar de minha. E nos últimos dias, percebo que as esperanças frágeis que eu tinha em nós estão sendo destruídas. 

Por algum tempo, pensei que você estivesse se esforçando pra isso, mas percebi que nem eu tenho vontade de me esforçar mais.  Eu não costumo desistir dos meus objetivos, e, bom, deixei claro que você era um destes objetivos. A desistência é a prova da derrota e meu orgulho é grande demais pra aceitar isso.

Talvez meu orgulho tenha ido longe demais, talvez eu tenha lutado demais por uma causa que não havia forma de ganhar, talvez eu só tenha... tentado estar contigo. Não tenho a menor ideia do que tem acontecido nos últimos dias, mas a impressão que eu tenho é que nós resolvemos esquecer tudo e fingir que não há nada entre nós.

Eu gostaria de participar da sua vida, não de ser só um pedaço à parte dela. Gostaria de saber quanta importância essa coisa esquisita tem pra você. E principalmente, gostaria de saber por que, se é tão importante quanto você fala que é, não te vejo dando votos pra isso e se esforçando pra que funcione.

Não quero estar sozinha nisso, então, te peço que pense por ti o que você realmente quer. Porque, bom, dessa forma não parece que você faz questão de estar comigo. Pensa no que teu coração falar (por mais que eu saiba que tu nunca iria ouví-lo) e me avisa. 

Pensa, então, no porquê de não dizermos mais o que sentimos. Pensa no porquê de falarmos tantas coisas que machucam. Por favor, faz pelo menos isso por mim. Ainda gostaria de saber se eu sou realmente o que você quer - pelo menos por agora, porque eu sei bem que não é nada que você queira manter.

Mas lembra de duas coisas: o respeito que eu te dou e você despreza e o senso de proteção que eu tenho pra contigo e você ignora não vão vir de toda parte. Eu não vou deixar de te respeitar, mas só posso tentar te proteger enquanto você estiver do meu lado, apesar de saber que você não quer isso.

E às vezes eu paro e me pergunto "eu gosto tanto dela a ponto de aguentar tudo isso?". Coloco em dúvida meu próprio sentimento com uma facilidade impressionante. Eu sei me desfazer desses sentimentos (por mais que não goste de fazer isso), então me avise se eu precisar. 

Todos os dias, eu sinto sua falta. E fica pior quando eu percebo que você não sente a minha. Todos os dias eu penso no que temos feito com nós. E piora toda vez que vem na minha cabeça o pensamento de que você evita refletir sobre isso.

Afinal, eu estou por ti. Estou esperando o que você tem pra me dizer, esperando que esses três meses não sejam tempo demais, que não tenha se tornado rotina. É só isso que eu preciso saber.

Espero resposta, 
Te amo.

21 de novembro de 2011

Se a greve é justa, estaremos junto!

Nessa sexta-feira que passou, dia 18 de novembro, tivemos uma votação (sobre a qual quase ninguém teve notícias) pra decidir que escolas e professores apoiariam ou não a tal da greve. Essa greve veio num momento não muito favorável a nós que estamos no final do ensino médio. Terceiros anos enlouquecendo pelo atraso de vestibulares e concursos para os quais muitos de nós já nos inscrevemos.

Mas há uma questão maior ali no meio: a reforma do ensino médio. Temos em mente que não seremos afetados, já que estamos saindo da escola agora. Mas e quanto ao restante que vai ser afetado? É só jogar pro alto e mandar o adorado "foda-se" pra eles? NÃO!

São questões políticas envolvidas aí e, por mais que não nos afete diretamente, ainda seremos, de alguma forma, atingidos. Nós não podemos apenas virar as costas pra essas causas políticas que nos dão uma oportunidade enorme de mostrar pra sociedade que nós, por mais que sejamos jovens, nos importamos SIM com política e com o futuro do nosso país.

Somos, assim, uma força a mais. Podemos ir contra o Estado, lutar por algo em que acreditamos, podemos ter uma ideia nossa. Estamos tentando entrar num consenso, porque, pelo visto, todos concordam comigo no quesito "está todo mundo fudido". 

Se não apoiamos a greve, nós, estudantes, somos um bando de bundões sem ideias na cabeça, que não pensamos no futuro e não nos importamos com as pessoas ao nosso redor. Nossos professores perdem uma força bastante potente e a greve fica, consequentemente, menos eficaz.

Nós temos milhares de motivos pra ficarmos sentados aguardando a greve acabar. Mas e aí, quanto demora se não pressionarmos junto? Temos que pensar que não é porque não é uma causa propriamente nossa que não vamos apoiar isso. O jeito de acabar logo com isso é pegar junto com os professores, pressionar os governantes, atingir o objetivo.

Assim, todos saem felizes e poderemos fazer nossas provas finais, fecharmos nossas notas e fazermos os malditos vestibulares e concursos! Queremos nossos professores satisfeitos com o trabalho deles e, por conseguinte, mais suaves com nós ou o quê? Nós não podemos reclamar da greve e só nos sentarmos olhando enquanto eles lutam! 

É mais fácil pra nós e pra eles também se apoiarmos a causa e lutarmos junto! A greve é inevitável, agora já era, pessoal. Então o jeito é segurar os cartazes e sair na rua em prol de alguma coisa útil que vai nos trazer benefícios kármicos (pra quem acredita em karma). E aí, tu vais ser mais um pra ficar parado reclamando ou realmente vai colocar tua força pra trabalhar e terminar com isso logo?

Porque não adianta reclamar de alguma coisa que tu não fazes nada pra mudar.

Colégios estaduais de Caxias do Sul, UNI-VOS! Crianças vestibulandas, formandos e pirralhos que recém entraram no ensino médio, cá estamos nós, pedindo a tua ajuda! Agora é a hora de demonstrar pra esse povo que nós realmente nos importamos (se é que tu também te importa) e trabalhar numa mudança.

"Quinhentos anos de Brasil e o que é que mudou? Quantos anos você tem e o que você mudou? Se julgar incapaz foi o maior erro que cometeu. Um indivíduo racional é na verdade um deus! Pensar é sua arma contra toda essa opressão, só depende de você fazer a revolução! É tempo de revolução! O poder está em nossas mãos!" - Bulimia - Chegou a Hora

Mais informações sobre a paralisação:

19 de outubro de 2011

New life, old memories - Capítulo 13

Talvez ela não tivesse percebido, mas o que ela queria dizer com "eu deveria ser a única garota com quem tu dorme" e seguindo isso com a frase "só tu não sabia que tu é lésbica"? Acho que já estava delirando e imaginando coisas.

- Ana, eu sempre percebi que tu era diferente das outras gurias e... meio gay. Mas, bom, não vejo nenhum problema nisso, por que tu veria?

- Tu não tá usando nada, né, Mila? - Pude sentir a "poker face" dela e tive de rir com isso.

- Ah, Aninha, vai te catar! Eu já me liguei que tu anda curtindo essa Bruna aí, só quero saber se tu também está curtindo com ela. - Deu ênfase no "com".

- Deixa isso pra lá e outra hora eu te explico, ok? Agora me fala sobre você. - Não dei tempo de escolha.

- Então, estou saindo da clínica... agorinha. E em uns dois dias estarei aí.

- Uau, que maravilha! Mas e agora, como fica minha ansiedade? 

- Essa tu mata com a Bruna...

- Hey, hey! Pára com isso!

- Parar com o quê? Só estou falando o que eu sei que vai acontecer, oras. Tu não sabe esconder, já te disse isso. 

- E tu não consegue conter o ciúme, né? - Mila é do tipo que só provoca quando há algo que ela quer que passe despercebido.

- Verdade! Mas afinal, não te ligarei até estar chegando aí pra combinar tudo, então morra de saudade de mim. Ou melhor, fique viva e não desconte a saudade em ninguém, me entendeu?

- Aham, aham. Estarei intacta e pronta pra matar a saudade de ti - com ênfase - quando tu vier. 

Mais algumas provocações, despedidas e, bom, eu estava dividida.

Não sei bem em que parte dessa conversa eu achei que Mila também tivesse "algo" por mim. O mesmo algo que eu tinha por ela. Ou pelo menos eu esperava isso. Bruna foi me encontrar dizendo que notou que saí correndo sem dizer pra onde ia com cara de decepção.

Ah, droga!

O que diabos eu estava fazendo? Perdeu a cabeça, Ana? Eu estava me envolvendo com um clone da garota que eu realmente gostava. E pra quê? Bom, eu obviamente não saberia responder. Bruna me abraçou com ar protetor e, bom, eu fiquei sem ação.

Voltamos pra casa num silêncio esquisito, mas parecia familiar. Aquele silêncio onde as mentes estão conectadas, sabe? Pois é, esse mais assustador aí mesmo.

Continua...

15 de outubro de 2011

New life, old memories - Capítulo 12

Não pude dizer que não estava feliz com tudo isso, mas senti a consciência pesando. Mila de novo. Eu tinha alguns motivos pra achar a ideia completamente normal, mas estava achando tudo louco demais. Ainda estava presa à Mila.

Passei alguns momentos recuperando a consciência enquanto nos arrumávamos pra procurar emprego novamente. Meu celular tocou e eu atendi correndo, esperando que fosse Mila. Era de um emprego. Queriam que Bruna e eu voltássemos lá pra uma entrevista, porque eles haviam gostado de ambas.

Disseram que era só pra oficializar, mas se quiséssemos, era contrato certo. O salário era bom, a oferta era ótima. E trabalharíamos juntas. Saímos correndo pra lá. Eu estava com uma estranha confiança que me parecia um tanto nova.

Proximidade. Não sei se era bom, mas parecia ótimo. Afinal, um novo paralelo havia se aberto pra nós agora, tudo estava muito mais claro. As coisas estavam dando certo.

- Tu parece estar pensativa. Muita bagunça nessa cabecinha? - Ela me abraçou num gesto de afeto inesperado.

- Estou sim... mas não é bagunça. Estou pensando que agora está tudo se resolvendo. Gostei disso tudo.

- Tudo mesmo? Hm... - Provocações ilimitadas desde ontem à noite.

- Tudo, tudo! 

- E será que vamos dar certo com tudo também?

- Quais partes?

- Nós... esse emprego... a faculdade... será?

- Bom, somos dedicadas... Acredito que sim! 

- Não sei não, hein... estou em dúvida sobre nós.

- Como assim?

- Não sei se aguento sem me apaixonar por ti.

- Não seria um problema, já que eu também não sei.

- Vamos deixar assim...

- ... e ver o que acontece. - Ih, completando frases, Ana? 

- Isso aí! - Ela sorriu - Você viu minha camiseta? - Disse rindo.

- Hm, essa que tu está vestindo?

- Ah, eu já vesti? - Começamos a rir da proeza. Me incomodou o pensamento de que Mila fazia essas trapalhadas o tempo todo também.

- Ê, vai lá terminar de se arrumar, vai!

- Ok, você quem manda.

Saímos correndo pra chegar cedo lá. Era uma livraria muito bacana, tinha seção de usados e um café. Super completa, nos atraiu logo de cara e deixamos currículo. Quando chegamos lá, deu pra notar que eles costumavam contratam bastante gente como nós: universitários de cursos semelhantes.

Começaríamos no dia seguinte. Ótimo! Ainda tinha algumas poucas coisas pra resolver, mas o resto estava se acertando. E muito bem, por sinal. Até que meu celular tocou. Era Mila. E eu não sabia esconder nada dela. 

- Bom dia, Aninha!

- Pode me chamar de "trabalhadora" agora, também, haha.

- Sério? Que maravilha, cara! Fico feliz por ti.

- E é um combo, ainda. A Bruna foi admitida no mesmo lugar!

- Ih, acho que estou com ciúmes dessa Bruna, hein...

- Ê, como assim?

- Ela tá sempre contigo por aí e eu não. Não vai ficar mais amiga dela do que minha hein! E não quero saber de vocês duas dividindo camas! - Opa...

- Hm, porque?

- Oras, eu deveria ser a única garota com quem tu dorme. - Não aguentei, ri.

- Bom... er...

- Tu já dividiu cama com ela? - Mila sabia soar apavorada.

- Er...

- Que bom que tu não sabe esconder nada de mim. Não quero saber, vamos acabar com isso já, já, ok?

- Hey, não! - Soando cada vez mais transparente.

- Tu não andou pegando ela também, né? - Ops.

- Por que tu tá me perguntando isso?

- Ah, Ana, qual é... só tu não sabia que tu é lésbica.

- Como? - Agora eu que estava soando apavorada.

Continua...

12 de outubro de 2011

New life, old memories - Capítulo 11

Suave, gentil, macia, de rosto lisinho pela falta da barba por fazer, cheia de curvas e... tão diferente! Tudo que eu não gostava num homem não existia nela. E, tudo que eu gostava, estava e predominava nela. Me perdi naquela novidade durante um tempo que eu não tive tempo de contar.

Ela respondia aos meus toques de formas tão inesperadas quanto lhe era possível. Ali, eu não a conhecia. E ela também não parecia saber o que eu pensava. Ambas de nós, exploradoras, crianças com brinquedo novo. Ou com o cachorrinho novo... que o prazer é recíproco.

Exato, reciprocidade! Era isso que estava faltando quando o segundo personagem era um homem. E eu havia descoberto qual era o gosto da reciprocidade naqueles minutos insanos. Nenhuma das duas sabia bem o que estava fazendo, mas ambas de nós estávamos descobrindo um universo paralelo do qual não queríamos mais sair.

Aos poucos eu percebia algumas coisas novas e sensações que eu não tinha a menor ideia de que poderiam existir.E aquilo era tudo, ela era, durante aqueles instantes, uma extensão de mim. A extensão que eu realmente não queria que saísse dali.

Incontáveis bons momentos, pegamos no sono ali mesmo, dividindo cama, abraçadas. Tão quente e confortável, assim como dormir com o ursinho preferido numa noite de inverno e sentir que ele te esquenta e não quer nada mais de ti além de companhia.

Por que tão linda? Por que tão suave? Por que tão confortável? Por que tão... mulher? Apaixonante mulher. E aquela vontade de ficar ali por todo o tempo que a vida me permitisse viver. Como se ela fosse o meu destino, o meu hoje e amanhã, o começo e o fim.

Ela certamente era o começo. "Eletric blue eyes", como diz a musica do Cranberries, assim eram os olhos dela. Passaram pra mim aquela eletricidade e cá estamos, num paralelo de corpos quentes, despidos de sensatez, racionalidade e... bom, essa parte já ficou bem clara.

O cheiro suave de mulher infestando minha mente e todos os meus sentidos. Nessa noite, meus sonhos foram... explosivos. Secretamente, eu queria isso há muito mais tempo que havia percebido. E agora que eu tinha, não negaria mais.

Pela manhã, eu a acordei com um beijo suave no ombro.

- Hm... que horas são?

- Uau, tão a pergunta que eu queria agora! - Respondi cheia de sarcasmo.

- Desculpa, deixa eu acordar de novo. - Fingiu estar dormindo. - Ok, agora é a parte que tu refaz o beijo pra eu acordar...

- Ah, ok... - Disse rindo e "obedeci a ordem". Ela fingiu "re-acordar" sorrindo.

- Eu meio que perdi completamente a noção do tempo com a noite de ontem e gostaria de saber que horas são pra ter uma pequena ideia se podemos aproveitar mais um pouco por aqui ou temos que levantar logo... bom dia! - Sorriu e me fez sorrir. Criança brincalhona.

- Temos mais duas horas - Falei com ênfase na hora, soando como "você pode ir em mais dois brinquedos antes de irmos embora do parque" e recebi a mesma resposta que se essa tivesse sido a minha afirmação.

- Opa, então melhor começar a aproveitar agorinha! Não quero correr o risco de ficar inútil e cansada mais tarde, então temos que deixar um tempo pra recarregar...

- Quem manda aqui não sou eu mesmo, então...

Bom, eu havia me rendido de todas as formas que era possível uma rendição. Meu medo se confirmou estar correto, porque, bom... eu não reclamaria por um segundo daquela noite. E nem ousaria recusar uma repetição dela. Então, estava correto: eu era lésbica.

E pelo que parecia, Bruna também. Mas dessa vez, eu não queria lutar contra isso.

Continua...

8 de outubro de 2011

New life, old memories - Capítulo 10

Os dedos dela se enroscaram nos meus, as mãos dela puxavam minha camiseta e, em fusão com as minhas mãos, tocavam minha barriga e arrancavam outro daqueles arrepios. Lembrei dos tempos que dividia cama com Mila. Geralmente dormíamos abraçadas, mas com ela eu era livre... ou não tanto quanto pensava ser.

"Que ótimo, Ana! Está dividindo cama com uma garota que você está desesperadamente a fim e está te provocando loucamente e você aí, se fazendo de forte quando sabe que não vai durar até o próximo minuto. E pior: pensando em outra garota. Que lésbica, hein!" 

- Minha mente me condena! - Sussurrei para o nada sobre o último pensamento que tive.

- O que tu disse?

- Disse que minha mente me condena... o último pensamento que tive acabou com a frase "que lésbica, hein", se referindo a mim...

- Ana, te rende!

- Não.

- Ok, última chance: te rende!

- Não vou me render.
- Eu disse que era a última chance!

- E o que tu vai fazer? Me obrigar? - Ih, o medo bateu de novo. Calma aí... quando é que ele tinha ido embora?

- Exato!

Ela se escorou num braço, meio sentada, soltou minha mão e levou a sua até meu rosto. Foi inevitável, me virei de frente pra ela. E, bom, ela me beijou. Tanta coisa passou pela minha cabeça naquele momento, que a única coisa que eu consegui fazer foi afastá-la e fazer uma afirmação tosca.

- Ok, o teste falhou.

- Como assim? Não gostou?

- O contrário... eu senti tudo que eu esperava que algum cara me fizesse sentir e... foi com uma garota que eu consegui sentir isso!

- Que coincidência! 

Nos olhamos por alguns segundos com a ajuda da única luz que tínhamos ali: a tela do notebook da Bruna. Diferente de tudo que eu já havia feito, pensado ou tentado, eu tinha uma garota na minha cama. Ela sorriu. Talvez minha cara estivesse, novamente, transparecendo muito meus pensamentos.

- Tu nunca poderia jogar poker... - Entendi a piada e, realmente, eu transparecia demais.

- Tu daria uma ótima vendedora.

- Por quê?

- Poder de persuasão.

- Ah, isso eu sempre soube. - Ar de convencida, me convenceu.

- É errado?

- O que?

- Eu te querer agora mais do que antes.

- E isso é muito?

- É.

- Bom, eu sinto o mesmo... então acho que não é errado. 

- Ainda precisamos dormir, lembra?

- Perdi o sono. 

- Eu também.

- Quer fazer outra coisa?

- Fechou.

Continua...

5 de outubro de 2011

New life, old memories - Capítulo 9

- É tarde, melhor dormirmos. - Eu ainda esperava que ela desistisse. Por algum motivo, sabia que ela não desistiria.

- Eu quero fazer esse teste.

- Como?

- Juntaremos os colchões e dormiremos próximas. Se não conseguirmos controlar a vontade, vamos ver no que dá.

- Sabia que eu tenho medo de ti, Bru?

- Por quê? - Aquela cara de criança que rouba doce e nega que roubou causou um arrepio na minha espinha, o que me fez ter certeza de que eu a queria.

- Por isso! 

- Isso o que? - Entende e se faz de desentendida.

- Porque eu sei que eu quero e eu sei que tu não hesitaria.

- Não hesitaria mesmo! - Sorriso safado, "ô, droga!".

- Ok, desisto. - Fechei o notebook e joguei os livros pro lado.

- O que? Por quê? - Cara de bebê chorão. Estava ficando difícil aguentar. Se fossem os velhos tempos, com Mila (que não me provocava), eu a abraçaria e daria uma mordida na bochecha dela. Mas não era Mila, era uma garota que queria tanto quanto eu (ou talvez mais). 

Eu a ignorei, virei para o outro lado e me cobri. Milhares de coisas passaram pela minha cabeça e uma delas foi que eu havia esquecido de terminar o trabalho... maldita Bruna, me distraiu. Me sentei de novo e abri o notebook, sorte que havia deixado tudo aberto. Deixei parecendo manha... não foi intencional.

Terminei o último texto e enviei para o e-mail que a professora havia solicitado e repeti o processo: desliguei, me virei e deitei. Me cobri até o pescoço e, bem no fundo, fiquei morrendo de vontade que ela colocasse o colchão ao lado do meu e "executasse o plano de teste".

E bem no fundo, eu sabia que ela faria. Olhei pra trás esperando que ela não visse, mas ela viu. Ela caiu na risada quando percebeu minha cara de "estou torcendo pra que tu não tenha levado em conta que eu te ignorei e venha aqui me provocar e estou cuidando cada movimento teu e esperando que tu não perceba".

E era exatamente isso. Ela não quis dar o braço a torcer. Apagou a luz e deitou. Ou pelo menos eu achava isso até sentir ela levantando meu cobertor e deitando ao meu lado. Novamente: "ô, droga!". Isso seria um tanto difícil... tanto de aguentar, quanto de aceitar.

- Por que tudo isso? Pra que negar algo que tu quer? - Ela sussurrou no meu ouvido me causando outro daqueles arrepios. E ela percebeu.

- Negar o que? Tu? - Não consegui segurar a risada. Nem eu conseguia acreditar no que estava dizendo.

- Isso! - Ela riu e eu senti seu hálito na minha nuca. Por um momento, pensei em me virar de frente pra ela, mas não virei. - Eu vou fazer isso tão difícil pra ti até que tu se renda! - Já estava difícil, o que viraria se ela fizesse piorar?

- Ok, eu vou me render... - Opa, arrependi. - Mas não hoje. - Não deu pra consertar.

- Quem te garante?

- Eu!

- E desde quando tu se garante de algo?

- Ok, venceu.

- Então se rende?

- Não! Ainda...
- Ainda.

- Ainda! - Repeti, dando ênfase.

Ela segurou minha mão por baixo da coberta e brincou com os meus dedos. Eu sentia sua respiração no meu ombro. Era início do ano numa cidade quente e estávamos debaixo de um cobertor. Traduzindo: esquentou. Ainda não sei se a culpa foi do calor da cidade e do cobertor ou da temperatura dos nossos corpos. 

- Estou com calor. - Resmunguei.
 
- Tira a roupa, oras. - Nenhuma de nós ficou séria. O problema era que ela fazia piada falando sério.

- Ou quem sabe o cobertor...?

- Aí não tem a mesma graça, né, duh! 

- E quem sabe tu vai pra tua cama? Aí fica mais confortável e menos quente pra ambas...

- Quem disse que eu quero menos quente? E estou achando bem confortável assim... - Eu também. Tudo.

Continua...

1 de outubro de 2011

New life, old memories - Capítulo 8

Ela tinha razão... influenciaria diretamente na minha felicidade. Mas eu estava completamente perdida. Minha família já era completamente contra milhares das minhas ideias, ainda teria mais isso? Sorte que agora eu morava em outra cidade e não os teria no meu pé o tempo todo!

- Bom, não posso dizer que não sinto vontade de ficar com garotas também...

- Isso é uma tentativa de consolo, Bruna? Porque se é, falhou! - Disse isso e começamos a rir de nós mesmas.

- Parecemos duas garotinhas pré adolescentes descobrindo que gostamos do mesmo garoto.

- A diferença é que são garotas!

- Ah, Ana, tu tem de parar de lutar contra isso! Não é saudável.

- Bru, já parou pra pensar quanto minha vida vai mudar por isso?

- Mas eu estou aqui pra te ajudar o tempo todo... não precisa ter medo. Tu só precisa se deixar ser feliz!

- Certo, tu está aqui, mas tu não é o sapatão da história.

- Quem disse?

- Oras, e precisa?

- Já não mencionei que não posso dizer que não sinto vontade de ficar com garotas né?

- Mencionou e, bom, eu totalmente pegaria a Addison de Private Practice, o que não significa que eu seja lésbica.

- Mas pode significar que tu é bi...

- Ah, agora eu sou indecisa, também?

- Eu não disse isso... mas tu ainda precisa dar uma chance a isso, ver se faz sentido.

- Tu sente atração por alguma guria? Tem ideia de quanto estranho é? Não, né? Não podes falar por mim... não é na sua cabeça que tem essa confusão toda.

- Eu nunca disse isso, também.

- E vai me dizer que sente?

- Nunca me aproximei tanto de uma pessoa que eu nem conhecia direito e muito menos dividi quarto com ela sem ser necessário.

- Aham, tá, agora tu sente atração por mim? Qual é, conta outra, vai!

- Não me diz que tu não sentiu atração nenhuma por mim... tu disseste que eu te lembro a Mila! Isso significa que tu sente algo também.

- Senso de proteção, vontade de te... morder.

- Beijar?

- Eu disse morder.

- Hm, onde? - Ela sorriu, descontraindo aquele clima tenso que eu havia criado. E me fez sorrir junto. - Viu só? Admitiu!
- Não disse nada, só ri do que tu disse. - Na verdade, nem eu sabia o que sentia.

- E que tal se eu fosse sua cobaia? 

- Ficou louca? 

- Não, oras. Tu quer me morder - Disse com ar sarcástico sem conseguir conter o sorriso -, eu quero ficar contigo... não vejo nenhum problema.

- Eu vejo!

- Por quê?

- E se eu gostar? - Eu morria de medo da talvez única coisa que faltava pra que eu fosse feliz por completo.

- E se eu gostar? - Ela repetiu minha frase com ênfase, deixando claro que ela também corria o risco. - E se nós gostarmos? 

- Bom, acho que aí ambas de nós teríamos um problema.

- Ou poderíamos só descobrir o que acontece se a gente gosta.

Continua...

28 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 7

Eu tinha mania de sempre deixar uma lista de músicas rodando o tempo inteiro. Antes de dormir estávamos escrevendo uns textos pra faculdade e estudando com alguns livros, quando começa a tocar uma música do The White Stripes, a tal onde diz "you don't know what love is, you just do as you're told".

Bruna me olhou e cantou essa frase com cara de "essa te descreve". Mas era pra ela também. E pra Mila.

- Exatamente isso, Ana. Nós não sabemos o que o amor é, mas vemos ele ao nosso redor e fazemos igual. Se tu nunca viu duas gurias juntas, tu não sabe que é possível essa forma de amor e tu não tenta arriscar... nós somos de cidades pequenas onde isso é tão criticado que quem é gay é super discreto, fazendo com que a gente pense que eles não existem.

- Aí nós não temos um exemplo pra seguir... só nos filmes e internet. Mas em tanto tempo, como poderia eu nunca ter sequer imaginado que estava apaixonada por ela?

- Porque talvez você tivesse sua mente fechada pra isso...

- É, eu sempre achei estranho, como se não funcionasse.

- Mas é amor, Aninha... acontece em qualquer forma.

- E se fosse tu?

- Hm, eu acho que também esconderia. Mas por medo de não ser aceita pela minha amiga depois de contar a ela...

- E nem nisso eu tinha pensado. Será que ela sente o mesmo por mim?

- Ela quase se matou por um garoto!

- Respondido... 

- Mas não se matou... porque você estava lá!

- Ih, agora piorou tudo. Mas ela não quis que eu ficasse lá...

- ... pra que tu seguisse teu sonho!

- Ok, agora não sei de mais nada! Nem sobre ela, nem sobre eu mesma.

- Mas ainda dá pra descobrir.

- Não vou arriscar perder a amizade dela. Como eu disse, vai passar. Acho que desde que ela saiu do hospital, isso mudou um pouco.

- Em que sentido?

- No sentido "eu sou lésbica e estou apaixonada pela minha melhor amiga"...?

- Hm, finalmente admitiu? - Sarcástica igual Mila.

- Não! 

Ambas de nós caímos na risada. Bruna queria que eu admitisse, mesmo que fosse brincando. Mas eu não achava que isso fizesse o menor sentido, afinal. E eu não alimentava esperanças de que pudesse "dar certo", caso fosse real.

- O que tu acha? - Bruna sempre parecia querer que eu entendesse tudo sem que ela precisasse explicar.

- Sobre o que?

- Sobre tu ser lésbica, oras!

- Acho que não sou, não...

- Já pôde dizer que amava um cara?

- Não.

- Ahá!

- O que?

- Mas tu ama a Mila...

- E o que tem isso? 

- Nunca amou um cara, ama uma guria... isso diz muito!

- Pra mim não diz nada.

- E pra mim, diz que você é lésbica, Ana!

- E como eu vou saber disso?

- Testando!

- Tu quer dizer, ficando com uma guria?

- Exato!

- Eu não!

- Por quê?

- Não vou correr o risco... vai que eu acabo gostando? Não é fácil ser gay, nem hoje em dia!

- E ser feliz, é fácil?

Continua...

25 de setembro de 2011

Inconsciente.

Porque pequenos pensamentos que temos, sonhos ou acontecimentos sem importância podem afetar muito mais do que imaginamos.

Não é a primeira vez que acontece comigo. Nosso consciente é fortemente afetado pelas coisas que passam por nós despercebidas, coisas que fazem parte do nosso inconsciente. Nossos sonhos são a liberdade dos nossos pensamentos (que boa parte das vezes nós mesmos desconhecemos) e vontades.

Quando acordamos e lembramos de um sonho que temos, às vezes rimos, às vezes nos assustamos, às vezes achamos bom ou ruim, apenas. Mas será que percebemos que esse sonho pode afetar o que fazemos? Esse sonho pode ter colocado na nossa mente alguma barreira e nos fazer acreditar naquele impedimento.

No final de um dia, percebi que havia evitado uma pessoa durante várias tentativas de aproximação. Pensei por que teria feito isso, já que era incomum de mim e lembrei do sonho que havia tido. Liguei os fatos e percebi que o meu inconsciente havia barrado aquela pessoa e que por causa do sonho, eu não queria falar com ela.

Bobo, não? Mais ainda: estranho! 

Ultimamente meus sonhos têm tido muitas ligações com a minha vida diária e com as minhas preocupações, quando geralmente eram só coisas bobas e sem nexo que não poderiam fazer o menor sentido. Sempre disse que quando eu começo a sonhar com algo frequentemente, isso se torna um problema.

Justamente pelo fato do bloqueio inconsciente que esses sonhos causam. Os sonhos podem significar muitas coisas (pra quem acredita, claro), mas também podem apenas te lembrar de algumas coisas e te fazer perceber outras que são conscientemente imperceptíveis. 

Sonhos, geralmente, são tão irracionais quanto é possível (ainda mais os meus). Mas quando eles fazem um certo sentido, conseguem nos assustar. São esses sonhos que criam as tais barreiras. Por causa destes, mudamos de comportamento ou humor sem nem sequer perceber. 

Perigoso, não? 

Afinal, nosso inconsciente nos prega peças e nós sempre caímos, pois não estamos atentos a nada além da parte "acordada" de nós. Muitos de nossos medos são culpa de nossos pesadelos, se formos parar pra raciocinar. Assim como muitas de nossas ações são reflexos dos nossos instintos que só se mostram concretos nos sonhos.

Maldita mente, que, mesmo quando dormimos, sabe nos manipular. E como manipula.

24 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 6

Iria virar rotina passar a aula inteira em silêncio e sentar no mesmo banco durante o intervalo. Voltamos pra mais uma aula silenciosa. Chegamos no quarto e me joguei no colchão, peguei meu notebook e fui escrever algumas coisas por lá.

- Inspirada? 

- Sim, muito! 

- E o que te inspirou hoje?

- A Mila me ligou...

- Só isso?

- Sim, porquê? Preciso de mais motivos?

- Não acha que essa guria é importante e especial demais pra ti?

- Claro que é! 

- Então... tu ama ela, certo?

- Demais... tu sabe, eu te falei.

- Não, não, tu ama ela. - Disse com ênfase no "ama". Não entendi o que ela quis dizer e acho que demonstrei isso na minha expressão, já que ela logo começou a explicar. - Tu está apaixonada por ela, não está?

- O que? - Essa era a última coisa que eu esperava que ela pensasse... até porque nem eu havia pensado nisso, tipo, jamais! - Como assim? Ela é minha melhor amiga e eu nem sou lésbica!

- Sério? O jeito que tu fala dela dá a entender que tu sente algo muito forte por ela. Do tipo mais que amizade.

-  Mas eu sinto! Ela é a pessoa mais importante da minha vida. Mas não nesse sentido!

- E já se sentiu atraída por ela... - Fez soar como uma afirmação. Eu nunca havia parado pra pensar nisso. Será que fazia sentido? Não, claro que não! 

- Han... não sei...

- Sentiu!

- Tá, e o que isso muda?

- Nada, só diz que você é apaixonada pela sua melhor amiga. Completamente normal... se você é lésbica, claro!

- Mas eu não sou...

- Já ficou com garotas?

- Não.

- Então ainda não teve a chance de descobrir? Ou não ficou porque não sentiu vontade mesmo?

- Nunca tinha pensado nisso... até agora.

- Bom, eu também não teria! Se eu fosse apaixonada pela minha melhor amiga, nunca perceberia. A não ser que alguém me falasse... mas e ela? Já ficou com garotas?

- Não... se ficou, nunca me contou. E ela sempre me conta tudo, então não! Mas tanto faz, não vem ao caso. Isso vai passar uma hora ou outra. 
- Não vá acreditando nisso... amor não passa assim.

- Não o amor. Nunca vou deixar de amar ela! Mas a paixão... isso vai passar. Tem que passar. Mas afinal, e tu? Como sabe disso? Já ficou com garotas?

- Sei disso pelo brilho dos teus olhos quando tu fala dela, pelo carinho que tu sente por ela e por tudo que tu me contou. E, bom, não fiquei porque nunca conheci uma guria lésbica... tu és a primeira.

- Mas eu não sou lésbica!

- Hey, não começa a negação! Não tem problema nenhum em ser lésbica. - Ela disse com um sorriso. Será que aquela coisa estranha que eu sentia quando ela (ou Mila) sorriam era atração? 

Continua...

21 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 5

Logo nos arrumamos pra dormir, pegamos nossos notebooks, conversamos mais um pouco e dormimos. Ambas de nós havíamos ido pra lá com dinheiro suficiente pra passar algum tempo sem emprego e, enquanto isso, procuraríamos um.

Na manhã de terça feira, visitamos várias agências de emprego, deixamos currículos em empresas diferentes, jornais, revistarias grandes, livrarias e algumas outras lojas. Tínhamos os mesmos gostos, então íamos sempre para os mesmos lugares, pensando o mesmo.

A conversa de ontem à noite continuou e acabei contando a história inteira pra ela. Me sentia confortável ao lado dela, da mesma forma estranha que me sentia com Mila. Dividíamos segredos sem nos conhecermos, mas ao mesmo tempo, parecia fazer anos que nos conhecíamos.

Em tão pouco tempo, desenvolvi um senso de proteção imenso sobre Bruna. Ela era um pouco mais velha que eu, mas sempre fora igual. Mila também era mais velha, o que não me impedia de ter esse senso protetor. Eram duas crianças que precisavam dos meus cuidados.

Estava imersa em pensamentos dentro de uma livraria que mais parecia o paraíso, quando Bruna chega saltitante com um livro volumoso nas mãos.

- Já leu esse? - Toda sorridente, igual criança pedindo pra mãe se o doce que ela encontrou no mercado é gostoso.

- Claro que já! Que seria eu se não tivesse lido Caderno H? Mário Quintana e Vinícius de Moraes são meus heróis-poetas!

- Meus também!

- E da Mila também... - Falei entre os dentes. Sorte que Bruna não me ouviu.

- Vou comprar um livro. Quer me ajudar a escolher? 

- Que dúvida! - Procuramos pelo livro perfeito e chegamos ao caixa com oito opções diferentes. Foi difícil escolher, mas deixamos a livraria com O Guia de Sobrevivência aos Zumbis e O Livro Secreto do Banheiro Feminino.

Saímos da livraria e fomos ler no parque. Fim de tarde, sol começando a se por, quase hora da aula. Aproveitamos os minutos pra comprar as coisas importantes que não tínhamos trazido, como chimarrão. Preparamos no parque mesmo, colocamos um "rabo quente" e esquentamos a água.

Alguns minutos de leitura e chimarrão no parque, voltamos pra casa. Teríamos sempre as mesmas aulas e dividiríamos um quarto por um bom tempo. Esperava que fosse um bom sinal. Quando estávamos saindo para a aula, Mila me liga.

- Como vai, universitária? - Mais do que imediatamente, abri um sorriso de orelha a orelha.

- Melhor agora! E tu? Estou morrendo de saudade!

- Estou bem, vou sair daqui em pouco tempo, já nem tenho mais crises, as convulsões não voltaram mais, já suspendi quase todos os remédios... falta pouco agora!

- Tens ideia do alívio que é saber disso? Quando terminar, vem morar aqui, ok? Conheci uma garota super legal aqui, podemos dividir um apartamento. 
- Que isso? Já me substituiu? - Ainda bem que não falei que Bruna se parecia com ela. 

- Claro que não, Mila! Lembra que tu não é substituível? 

- Ahn, ok... vou te ligar umas três vezes por semana pra garantir que ainda tenho o posto de melhor amiga no seu coraçãozinho. 

- Esse posto é feito no seu formato, não tem mais ninguém que caiba nele!

- Ótimo, melhor que seja assim mesmo. 

Fiz sinal pra Bruna que fôssemos pra aula enquanto eu falava com Mila, pois não queria perder o tempo que ela tinha pra poder falar comigo. Era ótimo saber que ela estava melhorando e que poderia sair de lá em breve. 

A caminho da sala, esbarrei em Pedro novamente. Ele parou na minha frente, como se esperasse que eu falasse com ele. Enfatizei que era Mila quem estava falando comigo no celular e mesmo assim ele não saiu dali. Bruna entendeu o que eu queria e ameaçou de bater nele se ele não sumisse da nossa frente.

Bruna não fazia o tipo que impunha medo, muito menos fisicamente. Mas funcionou, ele saiu. Ela se mostrava cada vez mais parecida com Mila, inclusive na coragem e na mania de impor respeito. Olhei pra ela e sorri em aprovação. Ela piscou pra mim com ar de "te salvei". Tive de rir.

Continua...

20 de setembro de 2011

Solidão

Tenho certeza que a solidão é a irmã mais nova da morte. Uma hora ou outra, elas vão bater em sua porta. Uma tem um foice afiado com o qual ceifa inúmeras vidas. A outra carrega um aro vazio na mão direita, por onde suga expectativas, esperanças, sonhos. Mas talvez a solidão seja mais cruel que sua irmã mais velha.

Da morte ninguém duvida. Já o só precisa provar que foi visitado pela solidão. E isso só alimenta ela. E no fim, ninguém acredita mesmo, porque o só está sempre só.

O que fazer? Uma hora ou outra, ela vai lhe visitar. E a solidão é uma visita chata, chega inesperadamente e não tem hora pra ir embora. Você tem de conviver com ela, diariamente.

Mas talvez ela se envenene, se eu fizer ela tomar uma forte dose de mim mesma.


You're the reason I feel pain.....

17 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 4

Depois do outro silêncio durante as aulas, saímos pra um café. Descobrimos um problema: nenhuma das duas conhecia direito a cidade pra saber onde teria um café aberto tão tarde. Concluímos que seria um tanto perigoso procurar um café aberto numa segunda feira à noite e fomos pra casa.

- Meus colegas de quarto estão arrumando sei-lá-o-que por lá, está uma bagunça! Sorte a sua não ter de dividir seu quarto. - Ela era tão sutil quanto Mila pra criticar alguma coisa.

- Se você quiser, pode passar um tempo por aqui... é grande demais só pra mim. E, bom, eu gostei de ti. Tu me lembra essa amiga que deixei na outra cidade. - Falei já me arrependendo. Passar tanto tempo com ela iria ser estranho.

- Tu não se incomoda mesmo? 

- Claro que não! Se quiser, podemos ir pegar suas coisas agora...

Ela sorriu e fez sinal pra que fôssemos buscar as malas. Como fazia pouco tempo que estávamos ali, não havíamos desfeito as malas ainda, o que facilitaria essa transição de quartos. Em pouco tempo, já estávamos de volta, com tudo arrumado. Arrumamos as duas camas, que eram colchões improvisados no chão mesmo.

Dividimos umas cervejas enquanto conversávamos. Logo o assunto veio à tona e ela me perguntou novamente sobre minha tal amiga.

- Ok, então. Ouviste falar sobre uma menina que usava heroína e se cortava, que foi encontrada debaixo de um chuveiro...? Deu uma repercussão louca, enorme! 
- Ah, sim, ouvi! Camila-alguma-coisa, certo? - O descaso em sua voz atingiu fundo, doeu.

- Minha melhor amiga, a Mila. Fui eu quem encontrou ela. Os pais dela estavam viajando, notei a ausência dela e invadi a casa dela pela janela da sala. Isso tudo por culpa de um garoto.

- Nossa, Ana, e eu te lembro ela? - A indignação fez meu sangue subir.

- Ela estava em depressão, ok? Aquele garoto era nosso amigo, ele era apaixonado por ela e ela mal o conhecia. Eu os apresentei, ela se apaixonou por ele, começaram a namorar e ele foi um idiota com ela. Ela ficou super mal, não conseguiu superar.

- Ok, desculpa, eu não queria criticar...

- Tudo bem... eu defendo muito ela. A mídia fez algo horrível com ela. Agora todo mundo sabe quem ela é, ela mal pode sair de casa e todo mundo comenta algo.

- Bah, isso deve ser horrível. Mas porque tu deixou ela lá? Porque não ficou?

- Ela me obrigou a vir. Ela sabia o quanto eu tinha lutado por isso e não queria que tivesse sido tudo em vão. Me ameaçou e chantageou. Se eu não tivesse vindo, não sei o que ela teria feito. Aí, resolvi vir mesmo. Mas vim o caminho inteiro chorando, queria ter ficado lá.

- Ela estava certa de não te deixar desistir! Eu faria o mesmo.

- Viu? Por isso que você me lembra ela.

- E isso é... bom?

- Ainda não sei, talvez eu me sinta culpada de sentir menos a falta dela quando tu está por perto... e isso seria ruim. Ou poderia ser bom... já que ela era a única pessoa no mundo que me conhecia de verdade. Quando eu vim pra cá, vim sozinha, sem nada e ninguém. Aqui, saber que tu está do meu lado, é reconfortante... é como se eu já tivesse vindo contigo, como se não tivesse nada faltando.

- Tu parece ser uma ótima amiga, sabia? Podes contar comigo sempre que precisar!

- "Tu és eternamente responsável pelo que cativas", hein. - Brinquei

- Então tu és eternamente responsável por mim, Ana! - Ela sorriu e me abraçou quando percebeu uma lágrima caindo.

Continua...

14 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 3

Durante as aulas, um silêncio absoluto entre Bruna e eu. No intervalo, sentamos num banco em frente ao nosso bloco e ficamos aproveitando aquela noite gostosa de verão. Bruna me contou sobre a vida dela e eu contei um pouco da minha. 

Compartilhamos histórias e descobrimos que nossos quartos no prédio dos estudantes eram bastante próximos. Não comentei nada sobre Mila, por mais que ela insistisse que eu contasse o que tanto me incomodava. Me tornei bastante fechada depois de tudo isso.

Ela me interrogava como criança descobrindo o novo robô falante que ganhou de aniversário. E eu só respondia o necessário. Me contou sobre a família dela, sobre os amigos, sobre a escola, os ex-namorados, trabalho... 

Nisso tudo, tivemos uma vida bastante semelhante. Ela conseguiu romper uma barreira que, desde o incidente, ninguém mais havia rompido: eu estava compartilhando sorrisos com alguém que não era Mila. Doía pensar nisso, então resolvi afastar o pensamento da minha cabeça.

Bruna não era daquela cidade e conhecia poucas pessoas, assim como eu. Tínhamos pensamentos parecidos, gosto musical idêntico, princípios semelhantes. E, como se não bastasse termos nos conhecido na porta de uma sala de aula (da mesma forma que conheci Mila, há muitos anos atrás), logo havia percebido que teríamos a mesma afinidade.

E a cada minuto com Bruna, eu me perguntava se essa amizade seria boa ou ruim pra mim. Estar perto de alguém que tanto me lembrava Mila poderia me fazer sentir menos falta dela, o que era bom e terrível ao mesmo tempo.

Olhei para o nada e passei alguns segundos assim, refletindo sobre o que estava acontecendo. Ela parou de falar e ficou me olhando.

- No que você está pensando? - Está aí uma pergunta que Mila nunca me faria, pois sempre sabíamos exatamente no que a outra estava pensando.

- Numa amiga minha que deixei na minha cidade...

- Muito sua amiga ou só amiga?

- Minha melhor amiga! 

- Hm... deixou porquê?

- O assunto que evitei a noite toda... Está na hora da nossa aula, vamos lá?

- Desculpa, estou perguntando demais, né? Se te incomoda, pode falar, eu paro!

- Não, só não me sinto a vontade pra falar sobre isso... pelo menos não ainda. Durante o café, quem sabe, eu fale um pouco sobre isso, ok?

- Certo... - Ela disse, parecendo incomodada. Não me senti bem com aquilo e sorri e a abracei, pra descontrair. Logo que fiz isso, percebi que agi exatamente da forma que costumava agir com Mila. E ela agiu exatamente da forma que Mila agia: se afastou, me olhou, sorriu e devolveu o abraço.

Continua...

10 de setembro de 2011

Um sorriso, um abraço, um pouco de bom humor

Reclamar do trabalho, do chefe, do salário
Falar mal da comida, do clima, da vida
Que diferença faz?

Mau humor, egoísmo, falta de amor
Baixa estima, sarcasmo, ironia
Que diferença faz?

Sorrir agradável, dar bom dia
Ouvir as histórias chatas da sua tia
Que diferença faz!

Secar as lágrimas de um amigo
Oferecer a mão ao inimigo
Que diferença faz!

Como esquecer

Depois de muito tempo de promessas, resolvi resenhar um filme. A escolha? Bom, essa semana vi dois filmes nacionais: Quanto dura o amor? e Como esquecer. Filmes maravilhosos que me fizeram repensar meu conceito sobre o cinema nacional.

Devido ao fato de retratar algo que todo mundo já passou/vai passar um dia (espera-se que não, mas é quase inevitável), Como esquecer foi o filme escolhido.

Como esquecer é a história de Júlia após um final de relacionamento com Antônia. Hugo, grande amigo de Júlia, é seu braço direito. Ele a incentiva a mudar de casa e, consequentemente, mudar sua vida. 

Júlia, Hugo e Lisa se mudam juntos para uma casa, onde todos começam um novo estilo de vida. Pedro, amor da vida de Hugo, havia recém falecido e Rodrigo havia largado Lisa quando soube que ela estava grávida.

Com todos eles tristes e desiludidos, a depressão parece não ter fim. Mas aos poucos eles ajudam um ao outro sem perceber o bem que essa "vida nova" faz a eles. 

Novos amigos, novos amores, novas alegrias, Júlia, Hugo e Lisa vão encontrando novos motivos para continuar. Com o tempo, esses novos amigos e amores (e a volta de um velho amor) fazem com que os três descubram como esquecer.

Na minha opinião, um filme maravilhoso. Aborda a depressão de uma forma extraordinária, fazendo com que o espectador sinta a intensidade do filme e dos sentimentos que ele busca passar. Atuação incrível, direção ótima. 

E, certamente, depois deste filme, guardarei minhas críticas em relação ao cinema nacional. 


Super indico! 
xx.

New life, old memories - Capítulo 2

No hospital, me fizeram ficar esperando numa sala que fedia igual ao depósito de agulhas da Mila. Lembro de observar cada médico que se aproximava dali, esperando que algum viesse falar comigo. Ninguém veio.

Quando perguntei sobre ela, me disseram que, por eu não ser familiar dela, não poderiam me dar nenhuma informação. Estava ali há mais de 27 horas seguidas. Sem comer absolutamente nada. O que não foi de muita ajuda pra minha amiga, porque eu acabei desmaiando e precisando dos meus próprios médicos.

Acordei já me sentindo melhor, arranquei tudo aquilo que tinham colocado em mim e fui procurar Mila. Abri porta por porta, perguntando quem estava ali. Na quinta vez que fiz isso, um médico me parou, disse que eu estava assustando os pacientes.

Surtei com ele, perguntei se ele sabia o quanto eu estava assustada e se ele tinha a menor ideia de quando Mila deveria estar. Desorientada, sem ninguém pra apoiá-la quando ela mais precisava. Ele quis argumentar, mas não conseguiu. Me levou até o quarto dela. 

Passei, ali, dias a fio, até que seus pais voltaram de viagem (porque eu não seria quem ia dizer pra eles o que havia acontecido com sua filha). Pais desligados, não perceberam o poço onde a garota havia se jogado. A ela, só restava eu, que era a única que conseguia aguentar seus dramas e fazer algo pra ajudá-la.

Negligentes, culparam a mim. Disseram de todas as formas que eu era má companhia pra ela, que nada disso teria acontecido se ela nunca tivesse me conhecido. Ignoraram o fato de que eu cuidara dela por todo esse tempo e era por minha causa que ela não estava morta. Ela não precisava deles.

Me expulsaram dali e fizeram com que eu não tivesse mais permissão pra visitá-la. Por pouco não entrei na mesma depressão que ela. No hospital, a "garota-drogada-que-se-cortava" era notícia. Saiu no jornal e na TV. Um dia um jornalista apareceu na minha casa me enchendo de perguntas sobre ela. 

Não vi nenhuma notícia sobre o que eu falei, visto que critiquei todas as coisas que haviam dito sobre o caso. Claro, quando alguém os coloca contra a parede, fazem de tudo pra que isso não seja visto. 

Acordei num dia com o telefone tocando. Era Mário, o pai da Mila. Ele me disse que ela havia acordado há dois dias e não parava de chamar por mim. Quando disseram pra ela que eu não estava mais autorizada a vê-la, ela surtou e ameaçou se matar. Por puro medo e pressão da filha, me chamaram no hospital.

Chantageei, fiz com que eles fizessem do meu jeito, que eu sei que era como Mila gostaria que fosse. Consegui que não me impedissem de vê-la na hora que eu quisesse, nem de ficar a sós com ela no quarto do hospital e até ganhei autorização pra passar algumas noites lá.

Depois de um tempo, ela começou a sofrer com a abstinência. "Sorte" por já estar no hospital, cuidamos disso também. Quando ela melhorou, eu a fiz prometer que passaria um tempo em reabilitação e tentaria melhorar do vício. 

Com o tempo, as convulsões foram controladas e alguns remédios começaram a ser suspensos. Quando chegou a época de inscrição para o vestibular, ela insistiu que eu fizesse a minha e realizasse meu sonho de morar em outra cidade estudando numa federal.

Disse que não iria enquanto ela não tivesse melhorado completamente, mas ela também sabia chantagear. Fiz minha inscrição. Ela quis garantir que eu desse o melhor de mim e realmente passasse, pois sabia que eu iria fazer a prova apenas pra dizer que havia feito.

Passei no vestibular com o coração na mão. Não queria ir e ela estava me pressionando pra que eu fosse. Ela sabia quanto eu tinha lutado pra chegar até ali e não queria que eu desistisse por uma "besteira" que ela havia feito, como ela dizia.

Mila deu alta do hospital e foi internada na clínica pra dependentes químicos logo depois. Lá as visitas eram bem mais controladas e tornou-se difícil acompanhar sua situação. Na última vez que nos vimos, ela disse que se eu não me mudasse, ela desistiria de melhorar.

Em duas semanas, estava em outra cidade, vivendo outra vida. Na semana seguinte, no dia presente, estava eu naquele lugar que parecia incompleto. Além de tudo que eu sabia estar faltando, faltava minha melhor amiga. Aquela irmã que sempre esteve do meu lado.

Encontrei minha sala de aula, onde era possível ver alguns alunos sentados, conversando. Pareciam se conhecer. E eu não conhecia ninguém. Parei na porta e senti algumas lágrimas escorrendo. Uma garota parou ao meu lado.

- Precisa de um abraço? - Ela se parecia com Mila. Eu sorri e a abracei.

- Obrigada! 

- Tudo bem, eu também estava precisando de um abraço.  E... eu sei que não nos conhecemos, mas se quiser conversar, estou aqui. A propósito, meu nome é Bruna.

- Esse é um assunto complicado que já deves ter ouvido falar. Bom te conhecer, Bruna!

- E você tem um nome? 

- Ah, desculpa, esqueci dessa parte... Ana.

- Bixo de Jornalismo?

- Exato. E tu?

- Também. Perdeste o trote, né?

- Estava sem humor... na verdade, nem queria vir pra cá.

- Bom, teremos as mesmas aulas hoje... se quiser, podemos tomar um café depois e você pode me contar o que te incomoda, se quiser.

- Hm, posso tentar. Mas tomar um café está confirmado, então. 

Foi terminar a frase e o professor chegou, todo bem humorado dando boa noite. Não sei porque, mas gostei dele logo de cara. Senhor de meia idade, com cara de "de bem com a vida". Chegou fazendo piada, o que melhorou um pouco meu humor. 

Bruna e eu nos sentamos numas classes no meio da sala. A presença daquela garota desconhecida estranhamente me fazia sentir melhor, como se ela fosse "a Mila que estava faltando".

Continua...

9 de setembro de 2011

Pra Você

Anônimo:

"É diferente. Eu nunca senti antes. Não quero, nunca mais, sentir de novo. Estou com a terrível sensação de que foi tudo perda de tempo, apenas. Não há nada e muito menos ninguém que me tire isso da mente, são 24 horas por dia pensando: "Aonde foi que eu me perdi? Aonde foi que eu te perdi?"

Mas aí, eu levo um baque na cabeça, essa voz grita nos meus ouvidos: "Acorda, você nunca a perdeu, você nunca a teve."

Sinceridade pra mim é algo de extrema importância. Se você não sente, você é proibido de falar que sim. Dói bem mais a dor da desilusão, do que a dor de ouvir um não, a dor de não ser correspondido, a dor do famoso amor platônico.
 
Se você sente, aí sim, trate de sentir direito, não é?

Meu coração tá tranquilo, meus olhos estão secos, meu cérebro, acredito que esteja em stand by. A única coisa que me incomoda, mas me incomoda profundamente, é esse nó na garganta que insiste em se manter ali, a espera de algo extravagante que o elimine, choro talvez?

Chorar não é pra mim, gritar também não. Eu gosto de sorrisos, gosto de alegria, gosto de paz, então por favor, se não for pedir demais, pode devolver a minha?

Eu não posso ao menos dizer "volta, sinto tanto sua falta" por que você nunca esteve realmente aqui, nem em corpo, nem em alma e com certeza, agora sim com total certeza, muito menos em coração.

Todas essas citações, todas essas palavras, tudo, eu nunca vou conseguir te falar, talvez por medo, talvez por falta de oportunidade, mas acima de tudo, por orgulho.

Meu orgulho é uma das melhores coisas que tenho em mim, pode soar meio arrogante, mas, acredite, é o que me mantém de pé e com um sorriso no rosto, mesmo que com lágrimas nos olhos.

Meu outro grande defeito que admiro muito e recuso a mudar é meu sarcasmo, meu companheiro, esse eu não largo nunca, é o único que me faz rir de qualquer coisa trágica, pois tudo tem seu lado cômico, certo?

Esse texto deixou de ser sobre você pra ser sobre mim. E, junto com ele, vou deixar de pensar em você pra pensar em mim.

É uma forma de libertação, é uma forma de te dizer tudo que eu sempre quis sem que você jamais saiba.

Esse aqui é o meu adeus. Que eu preparei pra mim e pra você!                               07/09/2011     11:15     


Vsf."                   

7 de setembro de 2011

New life, old memories - Capítulo 1

Passei horas brincando com o "canudo" que me entregaram no dia da nossa "formatura" e olhando praquele poster na minha parede. Finalmente havia me formado, mas parecia estar faltando alguma coisa. Lembro como se fosse ontem daquele meu último primeiro dia de aula.

Esse tempo todo ouvindo música e pensando no que faria da minha vida agora. Era meu primeiro dia de faculdade e eu nem sequer sabia o que iria vestir. Olhei pro lado, a janela estava aberta, o sol estava começando a baixar... hora de me mover.

Fiquei pronta e saí de casa sozinha, deixando todo mundo que tentou contato comigo pra trás. Hoje era o único dia da minha vida em que eu não estava me sentindo mal em estar sozinha. Entrei no campus e encontrei alguns conhecidos. Um oi de canto pra ser simpática e uma ignorada.

Mapa na mão, encontrei meu bloco. Primeira aula: Comunicação, História e Sociedade. Além de não ter a menor ideia do que fazer, também não tinha o menor senso de localização. Ok, me perdi no bloco. Possível? Bom, eu consigo!

Pelo menos encontrei a cantina. Nada sábia decisão, resolvi comprar um expresso pra me acompanhar enquanto não encontrava minha sala. 

- Perdida? - Me virei pra trás e pasmei. O que diabos aquele garoto estava fazendo no mesmo prédio que eu, na mesma faculdade e, mais importante: na mesma cidade? "Such a dush!"

- Não, mas parece que você está! - Sempre é bom fingir que está tudo bem.

- Estou mesmo. Qual sua aula agora? - Porque ele ainda insistia em ser legal? 

- "Como desviar do seu ex-colega idiota" e a sua? - FACEPALM!

- "Saindo de fininho", a qual colocarei em prática antes mesmo de saber sobre o que se trata!

Medo? Tinha motivos! Nunca soube quem era mais idiota: eu, por ter sido legal com ele e o ajudado com a minha melhor amiga ou ele por não tê-la valorizado como deveria. Ou quem sabe ela, por ter se cortado durante meses e afundado o nariz em drogas quando ele terminou com ela.

Exatamente por isso que ela não estava ali comigo. Tínhamos feito tantos planos praquele primeiro dia e ela nem podia estar ali. Estava internada em uma clínica de reabilitação. E a crise depressiva dela ainda não havia passado. Sem esquecer como ela foi parar naquela clínica...

Certo dia ela não atendeu o celular. Mas não foi uma ligação, nem um momento. Foram 87 ligações não atendidas, 21 mensagens não respondidas e milhares de toques de campainha. Consciente do problema, resolvi invadir. Seus pais haviam viajado sem saber da sua depressão e isso piorou toda situação.

Quebrei uma janela e entrei correndo, chamando por ela. Ouvi aquele "choro-soluçante" que eu já conhecia. A encontrei sentada debaixo do chuveiro sabe-se lá há quanto tempo funcionando, com uma gilete quebrada na mão, cheia de sangue.

Torniquete ainda no braço, seringas pra todo lado. Não sei quanto tempo fazia que ela estava ali, mas tive certeza de que tinha sorte por estar viva. Ou não. Agarrei algumas toalhas enquanto chamava uma ambulância, limpei tudo pra que ela não se encrencasse demais.

Como a conhecia bem, soube dizer onde guardava as drogas que ela não quis me contar. Não estava em condições de fugir, o que facilitou minha ajuda. Logo a ambulância chegou e os paramédicos me arrastaram pra fora de lá. Enquanto lutava contra eles, percebi que ela estava tendo convulsões. 

Sentei na escada da frente, abaixei minha cabeça e chorei por intermináveis minutos. Saí de lá apenas quando abriram a porta a chutes, gritando pra que eu saísse da frente. Passaram com a maca, a enfiaram dentro da ambulância e fecharam uma porta... perdi minhas esperanças de vê-la de novo depois disso.

- Hey, garota! É sua amiga? Você pode vir junto. - Um paramédico abriu a porta. Não hesitei, saí correndo e entrei. Fecharam as portas atrás de mim e aceleraram.

Continua...