Você já foi criança um dia, já sonhou com todas as coisas mais simples e já soube que essas poderiam te fazer feliz. Coisas singelas, singulares e individualmente maravilhosas.
E à medida que nos tornamos maiores, vamos perdendo cada um dos valores que tínhamos. Perdemos primeiro o gosto pelas coisas simples, perdemos a despreocupação, perdemos, aos poucos, a alegria de criança. Mas, principalmente, perdemos a percepção das coisas lindas ao nosso redor, as coisas que demoramos a descobrir, mas nos tornamos breves em aproveitá-las.
Nunca mais tiramos o máximo de um dia de sol jogados na grama observando o formato das nuvens, nunca mais nos engrenhamos em meio às árvores sem saber pra onde íamos, nunca mais somos destemidos e valentões apenas pelo fato de não conhecermos o perigo. Nunca mais saímos sem rumo em busca de um vagalume, nunca mais ficamos horas à espreita pra observar aquela lagarta sair do casulo.
Nunca mais escalamos o pé de amora e ficamos com os dedos (e boca, roupa, pés) todos sujos de vermelho e, só pra provocar, nunca mais falamos pra mãe que aquela meleca toda é sangue, só pra ver o desespero da coroa, porque é a coisa mais engraçada. E por falar em coroa, nunca mais caminhamos milhas pra encontrar a flor mais bonita e depois correr mais milhas por outra flor, porque precisamos levar uma pra mãe e outra pra avó.
Nunca mais desenhamos uma coisa ridícula e colamos na geladeira alegando que é nossa obra prima e que um dia ficaremos famosos com ela. Nunca mais misturamos danoninho com yakult, porque agora não é mais um experimento científico pra aprimorar a culinária. Nunca mais sentamos nas costas do nosso cachorro gigantesco porque ele é nosso cavalo. Afinal, agora somos bem maiores que nosso cachorro que um dia foi gigantesco.
As coisas mudam, as pessoas crescem. Aquele ursinho que nos protegeu dos monstros durante longas noites escuras agora está jogado no guarda-roupas. As brincadeiras, os brinquedos que detonamos pra criar novos, toda criatividade que tínhamos, a disposição, a animação, tudo é substituído. E nós culpamos o tempo.
Porque agora estamos grandes e não podemos perder tempo com coisas simples. Agora o tempo passou e não somos mais os mesmos. E provavelmente, todas as coisas que vão nos fazer feliz no futuro são todas as coisas que nos fizerem sorrir como sorríamos quando éramos pequenos. Aquelas que vão nos trazer uma alegria incondicional, por mais simples que sejam.
E não são a grandes conquistas que nos fazem sorrir assim. São as pequenas coisas. Cada pequena coisa que fazemos que nos traz satisfação, que nos faz sentir como heróis. Aqueles heróis que esqueçemos que éramos. Nossos super personagens, quando éramos os melhores atores do nosso próprio filme. Esses que ficam guardados dentro de nós, que nos construíram.
É aquela velha história onde as coisas que éramos são as coisas que vamos levar eternamente. Podemos passar por várias mudanças, podemos amadurecer, crescer, ganhar responsabilidades. Mas sempre que nos lembrarmos de tudo que brincávamos, que personagens gostávamos mais de interpretar, com o que nos identificávamos, aí sim sabemos quem somos.
Porque afinal, quando formos velhos, voltaremos a ser as mesmas crianças bobas que fomos um dia. E isso vai, mesmo assim, nos fazer sorrir.
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