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17 de julho de 2011

Indefinido - Parte 3

Uma colega minha morreu. Rápido assim. Sem ninguém ver. Parece que ela pegou uma meningite forte na sexta, foi internada no sábado e morreu de domingo pra segunda...

Só fiquei sabendo quando cheguei na escola na segunda. Tinha uma placa lá na grade, escrito “Giovana, sentimos saudades”, aí pensei que ela tinha tirado férias, mudado de cidade, sei lá. Quando eu ia entrar, o porteiro disse pra eu voltar porque não teríamos aula, porque a Giovana morreu. Mas aquilo não me chocou. Eu não era amiga dela. Aliás, ninguém era.

Voltei pra casa pensando nisso o caminho todo. Quando cheguei, minha mãe me olhou com uma cara de espanto e proferiu apenas um “ué?” Corri pros braços dela e comecei a chorar sem parar. Por quê? Se eu troquei três palavras com a Giovana foi muito.

Daí em diante começou um mês de paranóia na escola. De repente todo mundo tinha que se vacinar, tomar remédio, nos trocaram de sala, foi tudo muito rápido e esquisito. Começou também uma curiosidade esquisita das outras turmas, que queriam muito saber quem era a “aluna morta”.

Quem era? Ninguém sabia. A Giovana sempre sentou no fundo da sala, calada, muito na dela, sempre com a cara enfiada em algum caderno. Acho que não tinha nenhum amigo. Tava sempre falando de coisas da escola e o pessoal meio que ria dela por causa disso. Mas eu acho que ninguém desejava que ela morresse, ou algo assim.

Ninguém nunca se importou em perguntar pra qual time ela torcia. Ou descobrir qual a cor que ela mais gostava. Ou qual sua matéria favorita. Ou qualquer coisa assim. Aí agora tá todo mundo lamentando, mas a verdade é que ninguém nunca prestou muita atenção nela.

Aí um dia a professora de português resolveu falar sobre ela. E pediu as opiniões da turma. Desastre total. Ninguém sabia o que falar, os que sabiam não queriam. Tipo eu. O desastre ia se encaminhando pro seu fim, quando a Kayenne resolveu abrir a boca pra dizer que “a Mariazinha da 62 perguntou quem era a menina que tinha morrido. Ela perguntou pra mim se era aquela pequena de cabelo curto, e eu tive que dizer HAHAHAHAHAHAHA (acho que ela teve uma diarréia cerebral nessa hora) não, não foi a Duda que morreu!”.

Ok, olhares constrangedores vindos de toda a parte; por que o chão não se abre e nos engole quando precisamos disso? COMO ASSIM A DUDA TINHA MORRIDO? Era tudo que eu precisava pra animar mais o meu dia super emocionante. Eu era tão insignificante quanto a Giovana era?

Alguém estava sentindo falta da Giovana? Não, sério. Alguém além dos pais dela? Comecei a trocar os personagens da história... alguém sentiria a minha falta? Alguém além dos meus pais? Até mesmo a Val tava meio estranha naquela semana louca. Talvez por causa do campeonato de futebol que estava se aproximando.

Na aula de educação física, começamos a montar o time que ia jogar no campeonato, o campeonato que a Giovana nunca iria ver. Se ela tivesse viva, provavelmente nós que não veríamos ela... a garota invisível. Ela era tão invisível que sumiu de uma vez por todas... e, pensando bem, AI!

- Acorda aí muleca!! Tá viajando na maionese?

- Poxa Val, não precisava me bater... –

- Corre pra lá, te botei pra ser zagueira.


Corri pro campo, meio sem prestar atenção. Prestando atenção na Giovana sumida, provavelmente.

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