- Cigarro?
- Parei.
- Vodka?
- Parei. Mas, pensando bem, quero um copo e um cigarro.
- Não tinha parado?
- Esquece o parar. Essa noite quero me sentir bem. Que tem pra hoje?
- Um: barril de chopp, dois: vinho barato, três: Velho Barreiro, quatro: vodka e cinco: uma puta ressaca pela manhã. Fechou todas?
- Com direito à misturas? Black?
- Estou topando.
- Perfeito!
Começo de noite, sábado, chuva. Dia de ver gente, reunir amigos, beber e esquecer de todas as coisas que a preocupavam. Era a noite do jogo, quando todos se reuniam em sua casa com objetivos: encher a cara, perturbar a paz dos vizinhos e rir. Eram em oito.
- Alguém já tem garrafa vazia? Precisamos de uma roleta.
Sentavam todos no chão, em uma roda. Velhos conhecidos, parte deles, grandes amigos. Por mais que fizessem isso o tempo todo e soubessem os segredos mais loucos uns dos outros, sempre era, de qualquer forma, extremamente divertido. Ela vê aquela garrafa a encarando e, num gole, seca-a.
- Ok, agora temos uma roleta! - diz sorridente, como se tivesse feito algo de grande importância. E, de fato, era. Pra eles. Porque tudo que importaria ali era a diversão da noite. Ela senta, colocando a garrafa no meio da roda, com certa ênfase em seus movimentos. - Certo, podemos começar.
O primeiro jogo da noite, tradicional, se chamava "eu nunca". Estavam acostumados com o tal jogo, mas assim seria a primeira rodada. Depois que todos estivessem um tanto bêbados, seria "verdade ou consequência". Jovens inconsequentes, bobos, crianças. Amigos de colegial que agiam como se ainda o frequentassem. Todos universitários, vidas feitas. Não gostavam muito de lembrar dessa parte.
A noite servia pra esquecer que eram "gente grande", deixar as responsabilidades de lado. E isso era tudo que conseguiriam. A garrafa pára, indicando quem inicia o jogo e assim segue, de um em um, todos tinham algo pra dizer. Pregando peças, fazendo amigos ficarem mais bêbados, já que conheciam os segredos uns dos outros.
- Eu nunca confundi um poste com uma pessoa! - Acusando, olhavam-se, riam. Apenas um no grupo bebia, alegando que estivera alto demais pra perceber que aquele era um objeto inanimado.
- E eu nunca caí do palco. - Retrucava o amigo que confundira o poste, fazendo com que seu acusador bebesse, indicando que aquele feito era seu.
O jogo corria assim pelas longas horas que tinham pra aproveitar. Bêbados, cheios de cinzeiros ao redor, quase numa sauna. "Que trabalhão terei limpando isso amanhã", pensava ela, que nem bêbada esquecia de ser responsável. Haviam ali tantos segredos compartilhados, coisa que só eles sabiam. Oito corações que se gostavam como ninguém jamais havia visto, oito mentes que se conheciam a ponto de o silêncio falar mais do que as palavras.
E o tempo corria, os jogos mudavam, os físicos sofriam o efeito do álcool, mas os risos permaneciam. A diversão, numa forma de eternizar o bom humor infantil que ainda carregavam. Eram crianças presas em corpos de adultos, jovens que queriam voltar o tempo e aproveitar tudo de novo, jovens que não se arrependiam de uma palha sequer do que já haviam feito.
Eram os oito jovens que se viram crescer, mudar, amadurecer. Os oito que passaram por dificuldades e alegrias juntos, sempre assim. Fiéis uns aos outros, leais. Esses eram os jovens que poderiam um dia dizer que a vida nunca os desapontou. Sempre tiveram suas alegrias, sempre puderam apoiar-se uns nos outros. À sua maneira, se faziam os jovens mais felizes que poderiam ser.
E quando a noite acaba, a única coisa que pode ser ouvida vem dela, como de costume:
- E, cara, eu me sinto bem!

Nenhum comentário:
Postar um comentário