Entrei no ônibus de volta pra casa depois de um dia idêntico aos passados – cheio de trabalho e mais trabalho. Fila pra entrar. Fila pra passar na catraca. Fila, fila, fila. Parece que todo mundo adora uma fila.
Consegui me sentar. Ainda não tinha ninguém do meu lado. Ainda. Entrou um rapaz meio esquisito, cabelo na cara, caveirinha tatuada no dedo do meio. Olhou pros lados, resolveu sentar do meu lado. Ótimo. Espero que fique de boca fechada, não banque o engraçadinho e queira puxar conversa. Estou lendo um livro e não posso me distrair.
Eis que o celular do moleque toca. Ele atende:
- Não, não, eu não vou discutir isso no ônibus. Não, sério. Beibe, o ônibus todo vai ouvir. Eu quero falar em um lugar onde eu me sinta mais confortável.
Tímido. Ou fazido. Tá inventando uma desculpinha pra não dar satisfação pra pobre menina do outro lado da linha.
- Beibe, eu te avisei que eu precisava fazer aquilo. Tu me disse que tava mal e daí eu pensei melhor e resolvi não ir aí. COMO É QUE EU IA ADIVINHAR, não, escuta, COMO É QUE EU IA ADIVINHAR que tu ias melhorar de uma hora pra outra? Não, olha só, o que que tu queria que eu fizesse? Eu já te expliquei!
Namorada mala. Deve ser menor de idade. Tá enchendo o saco do cara pra algum compromisso bobo que ele já disse que não teria como ir. Desencana aí garotinha. Estou sentindo que a minha leitura se foi. Ah, o livro nem era tão bom assim. Posso continuar fingindo que estou lendo e ouvir toda a DR aqui do lado.
- Como eu ia saber que tu chamou uma comida cara dessas pra gente jantar juntos? COMO?
Agora já era. Envolveu dinheiro. Meu amigo, se eu fosse você...corria pra lá agora, jantava tudinho e depois acabava o namoro.
- Não, eu te disse que tinha que imprimir os panfletos do show da minha banda! Tinha que passar lá no cara depois do ensaio e...
Iiiiihh. O cara é músico. Deve ser daquele tipo que se a casa tá pegando fogo, ele prefere salvar a guitarra do que a namorada. Porque a música é eterna, a namorada não! Agora as páginas em frente aos meus olhos definitivamente se transformaram em várias letrinhas embaralhadas que não fazem o mínimo sentido.
- Não, beibe, me ESCUTA! Não dá pra falar disso aqui, eu to no ônibus lotado, to falando alto, já tá todo mundo me olhando...
Mentiroso. NINGUÉM está te olhando. No mínimo estavam fingindo estar concentrados nas suas próprias vidinhas medíocres enquanto, na verdade, acompanhavam toda a novela. Assim como eu estava fazendo. Fingindo ler.
- Tá, a gente conversa quando eu chegar, entendeu?
Desligou. Não sem antes proferir algumas palavras de raiva. Pegou os fones, começou a ouvir uma música dor-de-cotovelo. Aí sim que eu não conseguia ler mais nada.
Desci do ônibus, cheguei em casa, o telefone tocando. Atendo. Era a Ritinha. Queria me ver, o namorado brigou com ela pelo celular.
Cara isso é muito phoda gostei óh rss
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