Sexta-feira, pôr do sol, uma cadeira, uma mesa, uma xícara de café e um maço de cigarros. Cinzeiro improvizado, eu que fiz. Trabalhando, escrevendo e estudando. Uns 8 anos daqui, a mesma cara, as mesmas roupas, as mesmas músicas. Casa vazia, só uma luminária e uns papéis sobre a mesa. Rascunhos, lápis, canetas e borracha. O necessário pra criar.
Cama de casal arrumada, um canto dobrado com um certo "toque de perfeição". Guitarras e violões por todo canto, letras de música, um piano antigo com cara de descuido meio proposital, caixas de som, uns pedaços de uma bateria. Um estúdio improvisado num quartinho vazio. Cozinha quieta, só um armário e uma geladeira pequena.
E ela sentada naquela cadeira, luminária acesa, na sala, notebook sob a mesa, trabalhando. Escrevendo. Pegava anotações, revirava fotos e buscava a música que a inspirasse perfeitamente. Uma câmera fotográfica ao lado, deixava claro sua paixão pelo jornalismo, pela fotografia. No interior de seu apartamento, era óbvio: aspirante a rockstar, compositora, escritora, jornalista, fotógrafa.
Fotos por todo canto, seu estúdio musical era também onde revelava suas fotos. Lugar pequeno, simples e bacana. Ela era minimalista. Abrindo o guarda-roupas, uma certa bagunça, mas organizado, à sua maneira. Vários pares de All Star colocados cuidadosamente ao lado da cama. No cabide, camisas, várias. Muitas camisetas, monocromático. Calças jeans, basicamente. Ela sempre se vestira da mesma forma.
Desde sempre fora minimalista. Música ligada, as mesmas bandas de sua adolescência, as mesmas que estavam estampadas em boa parte de suas camisetas. Aquela garota, adulta, com jeito de adolescente. Responsável e madura, mas ao mesmo tempo descontraída e brincalhona. Ali apenas esperando a noite chegar. Era dia de show. Equipamento organizado, tudo pronto, no canto, só esperando.
Ela ainda era aquela mesma garota ansiosa que arruma a mala três dias antes de viajar. Ela tinha arrumado o equipamento três horas antes de sair. Já estava pronta, contando os minutos. Aos poucos lembrava de alguma coisa que havia esquecido de colocar junto no equipamento e levantava providenciar isso.
A música de seu despertador ainda era a mesma, Good Morning Joan - The Cardigans. Ela ainda acordava pulando da cama, ansiosa e animada pra mais um dia. Ainda tinha os mesmos amigos, as mesmas bandas, fazia as mesmas coisas. Ainda tocava guitarra, mas agora também tocava baixo, piano e bateria. Ainda escrevia, ainda compunha, ainda sonhava. Ainda contava para o melhor amigo, em êxtase, sobre aquela garota por quem estava apaixonada.
Ainda dava conselhos, ainda ajudava os amigos, ainda era chata com quase todo tipo de comida. Ela nunca mudou, nunca mudaria. Mas agora ela tinha uma vida, morava sozinha, raramente visitava os pais, já que esses não aprovavam seu modo de vida. Agora ela tinha sua tão sonhada liberdade, era gente grande. Agora ela tinha shows marcados pra todos os fins de semana, ela tinha popularidade na cena musical, tinha realizado seus maiores sonhos.
Mas hoje, no banheiro, tinha duas escovas de dente. No armário do quarto tinha um espaço que não era dela. Debaixo da cama, dois pares de pantufas. Essa era a garota que aos 16 anos apenas sonhava com essa cena, apenas imaginava que assim seria. E ela sabia que estava certa.
Confere o relógio no canto da tela, hora de sair. Ela levanta, coloca o notebook no modo "hibernar", como sempre fez. Apaga a luminária e logo corre acender outra luz. Sempre medrosa. Ela pega o equipamento. A campainha toca. Bem na hora. Elas apenas sorriem uma pra outra, sua garota pega outra parte do equipamento e caminha até o corredor.
Ela coloca a guitarra nas costas, o amplificador na mão, chave na outra. Dá uma última olhada, percebe que esqueceu a luz do quarto acesa. Corre apagar, refaz a última olhada. Tudo certo, fecha a porta, duas voltas na chave, duas fechaduras. Essa era a mesma garota que um dia foi desacreditada pelos próprios pais. Hoje ela tinha sua vida, hoje ela era a mesma garota feliz, sorridente.
Mas agora auto-suficiente.
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